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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

10 jan

A bobagem e equívoco de Caiado ao tentar transferir o ônus do atraso da folha de dezembro para o comércio tem simbolismo negativo, que é o setor privado mais uma vez pagar por mazelas do governo

Ingenuidade para uns, infantilidade para outros, ou a a soma dessas duas avaliações para todos, o pedido que o governador Ronaldo Caiado fez nesta quinta-feira em Jataí, para que os prefeitos avalizem os servidores estaduais para que comprem fiado em farmácias e supermercados, a título de compensação pela indefinição sobre a data de pagamento da folha de dezembro, traz embutido um simbolismo negativo – ao mais uma vez tentar jogar sobre as costas do setor privado o ônus pelas mazelas governamentais.

 

As mercadorias que estão à venda nas prateleiras das farmácias e supermercados não chegaram ali gratuitamente. Tiveram o seu preço, ao qual, para a operação do negócio, devem ser acrescentados impostos, folha de pagamento de pessoal, encargos trabalhistas e mais uma infinidade de custos, aliás em parte forçados pelo governo do Estado, que cobra por exemplo o DIFAL, um diferencial tributário que não é unanimidade em todos os Estados e sobre o qual Caiado nunca disse uma palavra. Ao contrário, como membro de um partido defensor da ideologia liberal e, portanto, da não interferência do Estado, o DEM, e também apesar de uma trajetória como parlamentar nacional identificado com as causas do livre mercado, acabou veiculando uma declaração esdrúxula, fruto de puro improviso, apelando a que empresários vendam suas mercadorias sem garantia nenhuma (como é que juridicamente prefeitos poderiam avalizar compras a prazo?) e sem data para pagamento. Além do mais, quem é que não sabe que farmácias e supermercados e de resto todo estabelecimento comercial não vendem a não ser à vista ou via cartão de crédito?

 

Caiado precisa acordar. Tudo que um governador diz tem importância, significado e repercussão. Não bastasse a falta de efetividade do que propôs, pois não há autorização legal para que prefeitos “avalizem” compras no comércio das suas cidades, o que piora as coisas é concluir que o governador de Goiás foi mais do que simplório ao acreditar que um problema de milhões de reais – a folha de dezembro do funcionalismo – poderia ser resolvido ou atenuado com a imposição de mais sacrifícios ao comércio, se é que seria possível que tal maluquice acontecesse.