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José Luiz Bittencourt e convidados sobre política, cultura e economia

13 mar

Mudança de Marconi para São Paulo, do ponto de vista da estruturação da nova oposição que emergiu das urnas do ano passado, foi ideia infeliz que hoje está prejudicando até a defesa do ex-governador

Poucas vezes em sua vitoriosa carreira política o ex-governador Marconi Perillo terá tomado uma decisão tão infeliz quanto a de se mudar para São Paulo logo após o trágico resultado que colheu nas urnas do ano passado, acompanhado pela deflagração do cerco judicial de que está sendo alvo – uma provação e tanto para qualquer político, mais ainda para quem passou 20 anos no topo do poder em Goiás e no Brasil.

 

É fácil deduzir que Marconi calculou mal. Ele supôs que a derrota eleitoral e os processos o haviam encurralado e que seria estratégico se afastar do palco principal para cuidar na surdina da reorganização do seu campo político e da sua defesa forense. Mais: julgou que Ronaldo Caiado, consagrado pelo voto popular, assumiria o governo em um processo de ascensão política ainda maior, ocupando todos os espaços e não deixando a menor margem aos adversários que aniquilou no pleito de sete de outubro. E ainda: acostumado a ser tratado como um semideus, o ex-governador teve um baque pessoal muito forte ao se ver repentinamente transformado em uma espécie de Geni em que todos atiram pedras, como imortalizado na canção de Chico Buarque.

 

Tudo errado. A fuga para São Paulo só trouxe prejuízos. Os tucanos goianos e seus aliados, mesmo reduzidos a um pequeno número, ficaram sem orientação e sem a energia que emanava do seu líder de sempre e ainda não conseguiram se estruturar como oposição. Caiado, de seu lado, não correspondeu à mudança que prometeu e hoje é um governador que reúne a imprensa para anunciar que o número de bêbados presos no carnaval foi menor que o do ano passado. Salários do funcionalismo e buracos nas rodovias estaduais são a sua pauta diária. Politicamente, abriu-se uma clareira onde menos se esperava, com o novo governo na defensiva e momentaneamente tonto, sem se afirmar com propostas e projetos realmente inovadores para Goiás e sem uma agenda objetiva para a reorganização do Estado e a recuperação do seu equilíbrio financeiro, pelo menos até agora.

 

À distância, pelo telefone e pelo WhatsApp, Marconi faz o que pode para coordenar as suas tropas, sem grandes resultados. Ou melhor: até conseguiu alguma coisa, ao influir decisivamente na derrota que Caiado teve na disputa pela presidência da Assembleia, com a eleição de Lissauer Vieira – produto da intuição excepcional que o ex-governador tem em matéria de assuntos políticos. Mas foi um tiro isolado, aliás tiro não, balaço de canhão contra o Palácio das Esmeraldas. Mesmo assim, a lacuna aberta pela sua ausência fala alto. E, se continuar em São Paulo, os danos só vão se ampliar.