Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

14 mar

Como é que um Estado em situação de calamidade financeira paga 44% da dívida herdada do governo passado em apenas dois meses? A única resposta é que não há calamidade financeira alguma

O governador Ronaldo Caiado, como se sabe, fala demais e não passa um dia sem despejar declarações e mais declarações em posts nas redes sociais, entrevistas a veículos de comunicação e discursos em solenidades oficiais ou não. Dentro dessa sua característica, chamou uma entrevista coletiva um anúncio, feliz, ao lado da secretária da Economia Cristiane Schmidt(foto acima): ao completar dois mandatos conseguiu pagar 44% da dívida herdada do governo passado, ou seja, quitou cerca de R$ 1,5 bilhões que estavam atrasados com os servidores, com fornecedores e com parcelas de empréstimos.

 

Louvável e sem dúvidas motivo para comemoração. Mas tem algo nessa notícia que incomoda: como é que um Estado declarado por decreto do governador em situação de calamidade financeira consegue liquidar quase a metade do seu rombo em apenas dois meses de trabalho do novo governo? Calamidade financeira é calamidade financeira, isto é, uma condição de falta de dinheiro para custear as obrigações mais básicas da administração, tipo liquidar pontualmente a folha, garantir a segurança dos cidadãos, manter as escolas em funcionamento e os hospitais atendendo a população. De tudo isso, só se registrou em Goiás o atraso de parte dos salários de dezembro, mesmo assim compensado pela antecipação do mês de janeiro e pagamento em dia quanto a fevereiro. Quanto ao resto, nenhum serviço público entrou em colapso, nada negativo aconteceu de extraordinário e para a maioria dos goianos, exceto os que levaram pança nos seus vencimentos de dezembro, a vida segue normal.

 

O decreto de calamidade financeira assinada por Caiado foi um tiro no pé. Projetou, para o país, uma imagem contraproducente de Goiás, transformado em Estado supostamente atolado no caos – o que não é verdade. E, juridicamente, tem a consistência de um papo de anjo, não servindo para bulhufas além de fazer barulho, o que abalou a credibilidade do novo governo. Estabeleça-se uma comparação com o Rio de Janeiro e ver-se-á a distância entre uma crise de verdade e outra, digamos, nem tanto assim. Ou com o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, em relação aos quais Goiás se coloca anos-luz à frente em matéria de equilíbrio financeiro. É claro que não estamos navegando em  mar de rosas ou voando em céu de brigadeiro, porém daí a proclamar aos quatro ventos um quadro de calamidade financeira vai, como demonstrou a quitação de 44% da dívida, uma distância enorme. Caiado desmentiu o próprio Caiado.