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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

30 mar

Caiado 90 dias: como um governador espetacularmente eleito prometendo mudança vai aos poucos se transformando em mais do mesmo e em repetição dos malfeitos do passado

Não há crítica que se faça ao governador Ronaldo Caiado que não seja respondida, antes de qualquer outro argumento, pela afirmação de que ele está apenas iniciando a sua gestão, que recebeu uma herança maldita  e que é injusto cobrar resultados com tão pouco tempo de mandato. Esse lenga-lenga, nos dias de antanho, quando o mundo caminhava em marcha lenta, sem a velocidade dos modernos meios de interação e comunicação, até poderia ter algum sentido. Mas, hoje, de jeito nenhum.

 

Noventa dias são tempo demais. E, somando-se a isso os três meses anteriores, contados desde a data em que Caiado foi eleito, transformam-se em 180 dias ou seis meses. Seis meses como governador eleito e em seguida empossado. Isso, leitora e leitor, representa uma eternidade. Que, até agora, não serviu para muita coisa em relação ao que o novo governador prometeu na campanha – a tal da mudança, que, mesmo sem ser explicada em detalhes ao eleitor goiano, em termos de propostas e ideias, fez com que o resultado da eleição fosse definido em 1º turno, com votação recorde.

 

Em vez de transformação do Estado, o que se tem é uma semelhança cada vez maior com o que havia no passado. Pequenos deslizes vão se acumulando aqui e ali, em meio ao ritmo moroso de um governador que queima os dias úteis da semana atrás de um utópico apoio financeiro de Brasília – coisa que só por milagre virá. Faltou ouvir, aqui, a lição de um velho e experiente administrador, Iris Rezende: no governo, conte só com os seus meios e recursos, jamais espera nada de fora. Caiado ou nunca ouviu ou, se ouviu, não deu bola para esse ensinamento. Goiás parou aguardando que o governo federal faça o que sistematicamente tem se recusado a fazer nas últimas décadas, ou seja, abrir as arcas do Tesouro Nacional para enviar ao Estado qualquer tipo de ajuda financeira.

 

Aos poucos, o novo governador afrouxa seus controles morais e éticos e dilata a sua tolerância. Trouxe secretários em excesso de fora porque não confia em ninguém de Goiás e, de resto, neles também. Alguns já o traíram, como o presidente da Saneago, o paranaense Ricardo Soaviski, que admitiu um assessor de alto nível enrolado com falcatruas dentro da empresa, preso tempos atrás e agora engaiolado de novo (Robson Salazar, solto por um habeas-corpus na última sexta). Outros o premiaram com uma absoluta inépcia, como o titular da pasta da Saúde, Ismael Alexandrino, que se escondeu no episódio da morte de uma criança de 5 anos nos corredores do Hospital Materno Infantil.

 

Mais? Caiado nomeou para a Agehab um ex-prefeito que é réu em quatro ações de improbidade, uma delas exatamente por desvios na construção de casas populares. Para o Conselho Estadual de Educação, pediu o aval da Assembleia para seis nomes que nada têm a ver com a educação pública estadual. Um deles, acreditem, leitora e leitor, condenado em dezembro último a mais de sete anos de prisão por desviar recursos da Câmara Municipal de Crixás. E acresça-se a tudo isso a parentalha dos Ramos Caiado, que infesta o governo com a doença do nepotismo – talvez legal em alguns casos, mas imoral em todos.

 

É assim que, aos poucos, se suja uma biografia limpa. A blindagem moral de qualquer gestor público não é rompida apenas por grandes explosões, mas também através de pequenos furos, que vão se somando até romper de vez com o dique.