Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

12 abr

Revogação dos incentivos da Enel e CPI para investigar a privatização da Celg desgastam Caiado junto ao governo federal e mostram que ele quer ajuda de Brasília, mas não está disposto a dar nada em troca

A Assembleia Legislativa deu dois passos que vão comprometer a relação do governador Ronaldo Caiado com o governo federal e a sua insistência em obter algum tipo de ajuda financeira para a superação da crise fiscal em que o governo de Goiás está metido. A instalação de uma CPI para investigar a venda da Celg, por um lado, e o projeto que revoga os incentivos fiscais concedidos à Enel, por outro, têm reflexos na imagem nacional e internacional das privatizações que o presidente Jair Bolsonaro já começou a fazer e que deverão se intensificar nos próximos meses.

 

Não à toa, o presidente do BNDES Joaquim Levi telefonou para Caiado para reclamar dos eventos que se passam em Goiás quanto as privatizações e que podem afetar a credibilidade do governo Bolsonaro. Não se sabe qual foi a resposta de Caiado, mas se ele procurou ser eximir de culpa, atribuindo o que está acontecendo à iniciativa dos deputados, é certo que a versão não colou. Como é que um governador não tem controle sobre a Assembleia e, mais ainda, um governador que foi eleito com a maioria escandalosa que Caiado obteve nas urnas?

 

No caso da revogação dos incentivos fiscais à Enel, a matéria já foi aprovada em primeira votação pela Assembleia e parece, portanto, irreversível. É claro que a companhia italiana vai alegar quebra de contrato e inclusive buscar na Justiça a recuperação do que considera ser seu direito adquirido. Isso vai dar panos para a manga. Até os fios que conduzem eletricidade de um poste a outro, por esse Goiás afora, sabem que a Enel não cumpriu as obrigações assumidas quando arrematou a Celg e que, em consequência, o sistema se deteriorou. Mas esse deslize exigiria uma ação afirmativa de cobrança e não uma retaliação como a supressão dos benefícios tributários liberados para a empresa – absurdos, de fato, mas oficializados e portanto passíveis de defesa judicial.

 

Pelo sim, pelo não, a bomba explode no colo de Caiado. Do ponto de vista de Brasília, é ele quem será responsabilizado pela ameaça que o que está acontecendo em Goiás representa para as privatizações do governo Bolsonaro. O governador quer apoio financeiro de Brasília, mas, evidentemente, não parece disposto a dar nada em troca. É um caminho curto para queimar o filme.