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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

10 maio

Base de Caiado na Assembleia é resultado de uma espécie de “mensalão”, com deputados contratados para votar a favor do governo recebendo cargos comissionados em pagamento

A montagem da base de apoio ao governador Ronaldo Caiado na Assembleia Legislativa é um processo que vai contra todas as premissas que ele, Caiado, colocou na sua campanha eleitoral a favor da renovação da política em Goiás e a introdução de práticas saudáveis em um processo de conchavos e toma-lá-dá-cá que cansou o eleitorado e levou à derrota dos ex-governadores Marconi Perillo e Zé Eliton. Na prática, foi instituído uma espécie de “mensalão” para comprar apoio no Legislativo, mediante a contratação de deputados para votar a favor do governo recebendo cargos comissionados como pagamento.

 

É uma constatação que mancha a honorabilidade da atual gestão: as tratativas do secretário de Governo Ernesto Roller, autorizado pelo próprio Caiado, com os deputados estaduais foram públicas e amplamente noticiadas pela imprensa. Não houve qualquer resquício de pudor nas negociações. Mais de 20 deputados cederam à proposta de alinhamento com Caiado levando em troca uma cota de R$ 30 mil em nomeações e mais duas indicações para diretorias ou superintendências, com direito, inclusive, a incluir parentes entre os beneficiados. Sabe-se que, dentro da própria família do governador, em especial da parte da primeira-dama Gracinha, houve resistência a esse tipo de ajuste, identificado corretamente por ela como “velha política”, quando o resultado das eleições do ano passado apontou inequivocamente para o caminho da “nova política” em Goiás. Pelo menos foi o que os goianos pensaram, ao consagrar nas urnas um candidato de biografia limpa e até então fortemente comprometido com a ética na política.

 

Partiu dos próprios deputados a iniciativa de denunciar essa nova modalidade de “mensalão”. Dois deles aliados de primeira hora de Caiado: Major Araújo e Cláudio Meirelles. Major Araújo dispensou os cargos oferecidos e lamentou que o Palácio das Esmeraldas tivesse cedido nas convicções do atual governador para abrir um “balcão de negócios” para comprar votos na Assembleia. E Cláudio Meirelles informou, sem ser desmentido, que ouviu do secretário Ernesto Roller uma pergunta crua e direta: “O que você precisa para ficar ao nosso lado?”. Meirelles também dispensou a oferenda dos R$ 30 mil em cargos comissionados.

 

Todo governante tem duas alternativas para conseguir apoio parlamentar: recorrer a argumentos programáticos e ideológicos ou, pura e simplesmente, partir para a troca de favores, usando, é claro, a moeda do poder tem com fartura: cargos, verbas e favores. Pelo que se conhece da história brasileira, os nossos políticos preferem ser comprados a apoiar propostas e ideias que façam o bem para a população. Há um número razoável de deputados, na Assembleia, que podem ser enquadrados nessa segunda hipótese – e sem se envergonhar disso, ao contrário. Mas também há os que se recusam, caso do Major Araújo e de Cláudio Meirelles, pelo menos na atual Legislatura. O que não se esperava é que Caiado, logo Caiado, fosse recorrer tão escandalosamente a tais mecanismos fisiológicos para conquistar o apoio de que necessita no Parlamento – sem nem sequer ter a preocupação em disfarçar as coisas.