Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

07 jun

Repartição das responsabilidades pelo governo do Estado em 2018 é inevitável, vai salvar Marconi e deixar no colo de Zé Eliton, para quem ninguém liga, a punição pelos erros dos 20 anos do Tempo Novo

O ônus pelos erros dos 20 anos do Tempo Novo, sistema político que vigorou em Goiás a partir da eleição do jovem Marconi Perillo em 1998, vai ser inteiramente cobrado do último governador que representou o outrora vitorioso grupo dos tucanos – sim, ele mesmo, Zé Eliton, que assumiu em caráter tampão em abril de 2018 e entregou o cetro do poder a Ronaldo Caiado em 1º de janeiro de 2019. Pelos nove meses que ganhou na bandeja no papel de governador-tampão, Zé vai pagar um preço alto, a partir do parecer do Tribunal de Contas do Estado que apontou a irregularidade das contas do governo do Estado no ano passado e que, uma vez aprovado pela Assembleia Legislativa, o colocará como inelegível por oito anos e passível de ser transformado em réu por crime de improbidade, não em um, mas em vários processos.

 

Tudo indica que Marconi Perillo, que compartilhou com Zé Eliton as decisões administrativas e financeiras do Estado no ano passado, pelo menos de janeiro a março, vai conseguir se livrar de qualquer culpa. É que tem crescido a opinião de que aquele que assumiu em caráter tampão de abril a dezembro é que tem a maior responsabilidade pelo que foi feito de errado nos 12 meses do ano. E o que foi feito errado é o mesmo que aconteceu nos 20 anos do Tempo Novo: basicamente, uma série de manobras legais e ilegais que mantiveram de pé o modelo de governança com base no desequilíbrio entre receita e despesa, com manipulação de verbas ao arrepio do orçamento, descumprimento de vinculações constitucionais e toda sorte de artimanhas para passar a imagem de uma gestão saudável, mas que, nas suas estranhas, recendia a podridão.

 

O parecer do TCE escancarou essa situação de deterioração (que, aliás, Caiado não eliminou) e pode ser lido como uma radiografia do que foi a desastrosa rotina em Goiás nas últimas duas décadas. Zé Eliton, agora, é o inocente útil que vai ser crucificado, enquanto Marconi, ancorado nas suas relações pessoais com muitos dos deputados estaduais e no seu notável poder de convencimento, sabe-se lá à base de quê, sairá livre, nem tão leve e, quem sabe, menos ainda solto. As contas de 2018 serão separadas, dando à Assembleia o caminho para absolver o ex-governador e condenar o seu vice, o zé ninguém que será transformado assim no grande bode expiatório das mazelas do falecido Tempo Novo, papel, a propósito, que ele sempre receou ser obrigado a cumprir. Estava certo.