Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

06 ago

Transparência desastrosa: desde os sites, totalmente arcaicos e desatualizados, até as decisões de Caiado e mesmo sua vida pessoal, governo não cumpre a obrigação de informar a sociedade

O governador Ronaldo Caiado preside uma administração que, sete meses depois de iniciada, não tem o menor respeito pela obrigação – constitucional, inclusive – de informar a sociedade sobre as suas ações e o gasto do precioso dinheiro público e menos ainda sobre as decisões do Executivo, suas motivações e objetivos, sem falar em aspectos da vida pessoal de Caiado, que, sim, como homem público e autoridade detentora do cargo mais importante da hierarquia estadual, deveria permitir a maior clareza possível sobre si próprio e a sua família. Porém, não é o que se vê.

 

Vamos começar pela parte normativa, digamos assim. O Executivo e seus órgãos não têm como deixar de cumprir a Lei de Acesso à Informação, mantendo sites na internet sobre os seus movimentos operacionais e as suas despesas, de forma clara e com acessibilidade facilitada. Só que o atual governo mantém, piorado, o que recebeu do anterior. Os sites são mal estruturados, continuam utilizando uma linguagem defasada para expor relatórios, sem recursos a tecnologias modernas – de um modo geral, não disponibilizados vídeos, gráficos, exibições multimídia, animações, interação em tempo real nem mecanismos que detalhem as despesas, substituídos por um excesso de termos técnicos e de pouca usabilidade. O que há é um amontoado de páginas em diversos formatos – HTML, PDF, imagem, planilhas Excel e textos Word –, além de dezenas de links que remetem desordenamente a órgãos diferentes (subsites da Educação, Agetop, Segplan e muitos outros), cada um deles apresentando uma arquitetura própria para se exprimir. Em vez de uma padronização, o que existe uma grande variedade de interfaces, o que impossibilita, por exemplo, que as informações sejam submetidas a programas de análise de dados. Para piorar, casos como o da Saneago e da Codego, por exemplo, são exemplos gritantes de má intenção quanto a prestação de esclarecimentos sobre as atividades das suas estatais, por sinal sistematicamente envolvidas em desvios, tanto nas administrações anteriores como na atual. É visível a intenção de esconder e não de revelar o que esses órgãos estão fazendo.

 

Um olhar, agora, à figura maior do governo do Estado, ou seja, Caiado, um político com uma carreira de mais de duas décadas defendendo a moralidade, a ética e… a transparência, vê-se agora… para os outros. Ele mesmo não se apoquenta ao esconder o que o levou a intervir na Codego, demitindo sumariamente o presidente e dois diretores. E, além disso, nomeando um interventor para assumir a companhia, sinal de que houve algo de sério lá, originariamente dentro da sua gestão, mas varrido para baixo do tapete.

 

Por fim, a vida pessoal do governador também é mantida em uma zona cinzenta. Ninguém sabe exatamente qual a influência da sua família na gestão. Sua mulher Gracinha praticamente divide com ele a autoridade de chefe do Executivo. Pelo menos uma filha e um genro atuam com força nos bastidores. Parentes espalham-se por todos os cantos. E, ultimamente, surgiram questionamentos sobre a saúde de Caiado, a partir de um quadro febril que o levou a cancelar parte da agenda. Qualquer um, mesmo sem ser formado em medicina como ele, sabe que febre é sintoma e não doença. O que houve, realmente? Foi virose, segundo esclareceu o jornalista Nílson Gomes? Sequelas da queda de uma mula em 2017? Início da doença de Alzheimer? Gripe, como disse o deputado federal José Nelto? A queda da mula nunca teria acontecido, não passando de desculpa para algo pior? E por que Gracinha não desgruda de Caiado, extrapolando as funções de primeira dama, como uma espécie de vigilante ou guardiã que não dá trégua 24 horas por dia?

 

Não há respostas para nada disso. Há uma sombra de mistério envolvendo todas essas questões. As de Caiado e as do governo. Nesta terça-feira, a coluna Giro, em O Popular, registra que o site da Goinfra, dirigida por parentes próximos de Caiado, que seriam experts em administração de obras, está desatualizado e sem detalhes sobre as contratações de empreiteiras que estão sendo feitas. É um caos. E não limitado à Goinfra. Transparência é um quesito em que o governo do Estado e seu titular, no momento, fazem jus a uma bela nota zero.