Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

04 set

Veja a íntegra do voto divergente do conselheiro do TCM Daniel Goulart, que peitou o relator Francisco Ramos e acabou aprovando, com o apoio de Sérgio Cardoso, as contas irregulares de Ernesto Roller

Confiram aqui, leitora e leitor, a íntegra do voto divergente apresentado pelo conselheiro Daniel Goulart, na sessão do Tribunal de Contas dos Municípios que aprovou as contas de 2017 do então prefeito de Formosa Ernesto Roller, atual secretário de Governo. Daniel Goulart virou a mesa com apoio dos conselheiros Sérgio Cardoso, cunhado do ex-governador Marconi Perillo, e Valcenor Braz, também historicamente ligado a Marconi. O parecer do relator, Francisco Ramos, era pela total rejeição do balanço, diante da gravidade das irregularidades encontradas, uma delas a composição de comissões de licitação com funcionários comissionados, o que é expressamente vedado em lei e tem a ver com as operações policiais que investigam a gestão de Ernesto Roller e já resultaram na prisão de servidores da prefeitura de Formosa e empresários que executaram obras na gestão do atual secretário de governo. Essa decisão do TCM, patrocinada por conselheiros marconistas, abriu uma crise no relacionamento entre a bancada da oposição da Assembleia e o ex-governador tucano.

04 set

Deputados reclamam de pressão de Jayme Rincón e da falta de compromisso de marconistas como Daniel Goulart e Sérgio Cardoso, que aprovam no TCM contas polêmicas de caiadistas como Ernesto Roller

Há uma insatisfação crescente entre os deputados da bancada do PSDB na Assembleia – são cinco: Talles Barreto, Gustavo Sebba, Sebastião Caroço, Leda Borges e Hélio de Sousa; o sexto, Diego Sorgatto, aderiu à base do governo Ronaldo Caiado, porém, para compensar, há parlamentares como Lucas Calil e Henrique Arantes, que se alinharam aos tucanos – com o ex-governador Marconi Perillo e pretensos articuladores ligados a ele (tipo o ex-presidente da Agetop Jayme Rincón), como também aliados que ocupam cargos – a exemplo dos conselheiros do Tribunal de Contas dos Municípios Daniel Goulart e Sérgio Cardoso (este, além de tudo o mais, cunhado de Marconi). Há muita reclamação contra essa turma.

 

O que acontece? Enquanto os deputados que se mantiveram fiéis a Marconi se esfalfam na Assembleia para dificultar a vida do Palácio das Esmeraldas e sustentar um mínimo de oposição em Goiás, o que é positivo para qualquer ambiente democrático, outras pontas de lança ligados ao ex-governador agem em sentido contrário. Vejam só, leitora e leitor: no TCM, um conselheiro-amigo de Marconi, Daniel Goulart, com a ajuda de outro conselheiro-cunhado, Sérgio Cardoso, virou a mesa na sessão de julgamento das contas de 2017 de Ernesto Roller, atual secretário de Governo, como prefeito de Formosa, derrubando com um voto divergente o parecer do relator Francisco Ramos pela rejeição, e aprovando o balanço com a velha estratégia das ressalvas – engolindo irregularidades graves quanto a formação das comissões de licitação da prefeitura, as mesmas que chegaram até a ter membros presos em operações policiais que estão investigando fraudes na maioria das obras no município na gestão de Roller.

 

Pelo sim, pelo não, uma irmã de Daniel Goulart, Edilene, foi convenientemente nomeada pelo governador Ronaldo Caiado para um cargo de salário elevado na Secretaria de Governo, onde, teoricamente, assessora o titular Ernesto Roller (veja acima print do decreto de Caiado). Uma coisa dessas não acontece por acaso. É um agrado e tanto. Mas pior ainda foi Sérgio Cardoso acompanhar Daniel Goulart na aprovação na marra das contas de Roller. O PSDB pagou caro, nas eleições do ano passado, pela nomeação dele, Sérgio, para o TCM, triste ato de abertura do governo tampão de Zé Eliton – que, por isso, ficou manchado pela nódoa do uso de vantagens da máquina pública para atender a interesses familiares de Marconi. O troco que ele dá, agora, é se alinhar com os adversários – por razões ainda desconhecidas.

 

Apreciação de contas de gestores públicos em tribunais de conta têm sempre um componente político. Mas, sempre, há aspectos administrativos e legais a considerar. Foi nesse sentido que o conselheiro Francisco Ramos, aliás da cota técnica do TCM analisou a contabilidade de 2017 de Ernesto Roller em Formosa e concluiu pela sua irregularidade. Outro conselheiro da cota técnica, Fabrício Macedo Motta, acompanhou. Mas Daniel Goulart e Sérgio Cardoso, arrastando junto o conselheiro Valcenor Braz (outro marconista), providenciaram a aprovação e liberaram Ernesto Roller de um problemão. Vale lembrar que ele, como portavoz de Caiado, é quem mais bate, ataca e critica Marconi. Os adjetivos que ele dedica ao tucano são os mais pesados possíveis: irresponsável, corrupto, incompetente e desonesto.

 

Some-se a isso, para estabelecer um clima negativo dentro da bancada pró-Marconi na Assembleia, os telefonemas diários de Jayme Rincón, a pretexto de orientar os deputados e exigir postura mais dura em relação ao governo Caiado. São ligações que irritam e deixam todos à beira de um ataque de nervos. E nas quais ninguém acredita, dado ao que fazem aliados que deveriam estar enfileirados com a oposição.

03 set

Não pagar em dia a folha de dezembro foi erro grave de Caiado, que agora não consegue se libertar de um carma cujos reflexos negativos para o governo ainda vão perdurar por muito tempo

Uma inesperada entrevista do ex-governador tampão Zé Eliton ao jornal O Popular, no último domingo, ressuscitou o debate – negativo para o governador Ronaldo Caiado – sobre o pagamento dos salários de dezembro do funcionalismo, somente concluído há poucos dias depois da decisão polêmica, em janeiro, já com o novo governo empossado, que parcelou a sua quitação.

 

A atitude de Caiado foi inédita na história administrativa de Goiás. Ele deu uma barrigada na folha de dezembro para antecipar o pagamento de janeiro ainda dentro do mês, o que, liminarmente, comprova que ele poderia, se quisesse, ter mantido o calendário – liberando os vencimentos de dezembro em torno do dia 10 de janeiro. Embora negue de pés juntos, o governador tomou uma decisão política, quando nada destinada a caracterizar a situação do Estado como de calamidade financeira. E, de quebra, ganhar o discurso de que a gestão anterior deixou uma dívida em aberto com os servidores – o que não é verdade.

 

Até as pedras portuguesas da Praça Cívica sabem que, nos últimos anos, a folha de um mês era sempre quitada com os recursos arrecadados no mês seguinte, até o dia 10. Aliás, legalmente, a Constituição Estadual estabelece esse prazo – que, em tese, tem que ser observado, já que não pode quitar uma folha referente a um mês que ainda não venceu, a não ser por liberalidade extrema do governo. Sendo assim, dentro da rotina da administração estadual, seria normal que os salários de dezembro só fossem solvidos, como nos meses anteriores, por volta do dia 10 de janeiro. É injusto, dessa maneira, acusar Zé Eliton de não cumprir o compromisso de saldar em dia a folha de dezembro.

 

Não pagar dezembro criou um carma ruim para Caiado. Ele não conseguiu convencer ninguém de que liquidar essa folha, no prazo, seria uma espécie de missão impossível, tanto que antecipou janeiro para dentro do mês, prometendo inicialmente que assim seria no seu governo, isto é, que os salários daí em diante seriam pagos dessa forma – compromisso que foi obrigado a engolir, retornando à métrica do dia 10 de Zé Eliton e de Marconi. O resultado: mais de seis meses de desgaste contínuo, que pode ser aferido nos comentários negativos postados às pencas nas redes sociais do próprio governador. O atraso deu também uma imagem de paralisia para a nova gestão, nos seus meses iniciais, e projetou uma ideia de incapacidade para resolver desafios, corroendo a confiança da população. É um estrago que vai demorar para ser consertado. E quanto mais se fala nisso, pior para Caiado.

03 set

Quem planta vento, colhe tempestade: racionamento de água em Goiânia será uma tragédia para o governo Caiado, que revogou os decretos que protegiam a bacia do rio Meia Ponte

O rio Meia Ponte está descendo a níveis críticos. Caso as chuvas não comecem o mais cedo possível, é certo que a Saneago será obrigada a impor um racionamento de água na região metropolitana de Goiânia, abastecendo as torneiras dia sim dia não. Para o governador Ronaldo Caiado, será uma tragédia. Todo e qualquer racionamento é sempre desgastante e relacionado com incompetência administrativa. Foi o que aconteceu em 2001 e 2002, quando o presidente Fernando Henrique impôs ao país um racionamento de energia elétrica e viu a aprovação do seu governo chegar a quase zero (com a consequente vitória da oposição, via Lula, na eleição de 2002).

 

Um racionamento de água de grandes proporções, em Goiânia e Aparecida, é praticamente inédito. Já aconteceu no passado, mas por pouco tempo e limitado a alguns bairros. O que está vindo aí é diferente porque prejudicará a população inteira. Não há governo cuja imagem resista à insatisfação que uma medida gera, ao mexer com o cotidiano das pessoas. Caiado vai tentar, mas não conseguirá jogar a responsabilidade somente nas gestões do passado, como faz habitualmente com qualquer problema atravessado no seu caminho. Nesse caso, ele também tem culpa no cartório.

 

Logo depois de assumir, o novo governador, para atender ao agronegócio, revogou dois decretos do ex-governador Marconi Perillo, um deles em vigor desde 2001, que estabeleciam severas restrições para o licenciamento ambiental de empreendimentos econômicos na bacia do Meia Ponte. O rio e seus afluentes passaram a correr em uma terra de ninguém. A secretária estadual de Meio Ambiente, uma procuradora federal que veio de fora e só agora está se inteirando da situação em Goiás, chegou a dar entrevistas defendendo o fim das multas a quem estivesse poluindo a bacia. Textualmente, ela afirmou que, em vez de fiscalizar, a nova estratégia seria a do diálogo com os produtores instalados na área, principalmente aqueles em situação irregular. O resultado está aí para quem quiser ver: a degradação da bacia aumentou a ponto de comprometer perigosamente o nível de vazão do rio. O governo foi ingênuo ao apostar na boa fé dos donos de negócios na região.

 

Caiado é parecido com o presidente Bolsonaro: ambos enxergam a preservação do meio-ambiente como nociva para o agronegócio. Daí a revogação dos dois decretos que protegiam a bacia do Meia Ponte, sumariamente, logo que o novo governo assumiu em Goiás. Em outra frente, foi lançado o programa Juntos pelo Araguaia, com a anunciada intenção de recuperar áreas degradadas ao longo do rio, mas na verdade uma proposta até agora sem um único centavo de recursos – que, se aparecerem, irão financiar uma ação que deveria ser de responsabilidade dos fazendeiros que desmataram áreas proibidas. Isso não é correto.

 

Se não chover logo, o racionamento de água na Grande Goiânia virá ainda em setembro. Caiado, ao abandonar ao léu a bacia do Meia Ponte, plantou vento e obrigatoriamente irá colher tempestade. Seu governo vai beijar a lona.

02 set

Bacia do rio Meia Ponte é, para Caiado, o mesmo que a Amazônia para Bolsonaro: uma região onde deve prevalecer os interesses do agronegócio e não uma área valiosíssima a ser preservada

Assim como o presidente Jair Bolsonaro errou gravemente na sua abordagem sobre a Amazônia, despertando uma reação internacional que pode comprometer até as exportações brasileiras e ameaçando a preservação de um riquíssimo patrimônio nacional, o governador Ronaldo Caiado também se equivocou e deu alguns passos atrás em relação à situação que recebeu das administrações passadas que tanto critica, no caso da bacia do Rio Meia Ponte – a mais importante do Estado, dado a concentração demográfica da região que abrange.

 

Logo depois de assumir, Caiado mudou as regras para a preservação do Meia Ponte e seus afluentes. Ele, com o propósito de beneficiar o agronegócio, revogou um decreto do então governador Marconi Perillo que estabelecia exigências severas para o licenciamento ambiental de empreendimentos dentro da bacia do rio. Na prática, transformou a região em terra de ninguém. A secretária estadual do Meio Ambiente Andrea Vulcanis, uma procuradora federal que o governo trouxe de fora, sem nenhum conhecimento sobre Goiás, defendeu a medida e foi até adiante, propondo o cancelamento das multas aplicadas na área da bacia, até hoje, e defendendo que ninguém mais fosse multado, em troca de uma estratégia de conscientização baseada – conforme definiu ironicamente o jornal O Popular – em um pedido de “por favor” aos empreendedores instalados ao longo do Meia Ponte para que não prejudicassem mais o curso d’água.

 

Uma piada. O resultado é o que se vê agora nas manchetes dos jornais. O nível de vazão do Meia Ponte, que tem a ver com o abastecimento de água de Goiânia, chegou ao ponto crítico número 3, à beira do número 4, quando será necessário um racionamento para os consumidores da capital – algo que nunca houve até hoje e que jogará o governo Caiado em um nível elevado de impopularidade. Isso, em última análise, significa que o abastecimento de água dos goianienses está na dependência da antecipação das chuvas. Se  água não cair do céu a tempo, a situação será dramática. As torneiras só poderão ser abertas um dia sim outro não.

02 set

Iris está com o caminho pavimentado para mais 4 anos na prefeitura: sem Vanderlan na eleição, não há candidato à altura para dar aos goianienses uma alternativa para mudar o que está dando muito certo

Iris Rezende é um sucesso como prefeito de Goiânia. Resolveu o desacerto financeiro que herdou dos seus antecessores, organizou a prestação dos serviços que são de responsabilidade municipal e lançou obras que nunca antes, pelo volume e impacto na cidade, foram vistas antes na capital. Faz, enfim, a melhor administração da sua vida. É um portfólio e tanto, que deve levar o goianiense a uma pergunta ao comparecer às urnas em 2020 para escolher quem comandará o Paço Municipal por mais quatro anos: por que mudar o que está dando tão certo?

 

Sim, porque ele será candidato. É vazia toda essa conversa sobre a sua intenção ou não de disputar a próxima eleição. Iris, em toda a sua vida política, nunca deixou de disputar qualquer eleição para a qual estivesse bem posicionado. Ele vai estar lá, na urna eletrônica, à disposição do eleitor goianiense. E ao lado de adversários que não estarão a altura de representar qualquer alternativa para o seu nome. Uma exceção seria o senador Vanderlan Cardoso, que tem recall, perfil de bom gerente, bem sucedido como empresário e como prefeito de uma cidade razoavelmente grande, Senador Canedo. Mas Vanderlan não será candidato em Goiânia. Ele vai se guardar, e com razão, para tentar o governo de Goiás em 2022, quando, pela perspectivas traçadas neste momento, terá grandes possibilidades de vitória.

 

Fora Vanderlan, quem poderia enfrentar Iris? Pelo PSDB, já se apresentaram o ex-governador Zé Eliton, o deputado estadual Talles Barreto e a vereadora dra. Cristina. Pelo PSD, o deputado federal Francisco Jr. Pelo PSL, o deputado estadual Major Araújo. Pelo PT, a deputada estadual Adriana Accorsi. Ou o presidente da Câmara, Romário Policarpo, pelo Patriotas. E mais algumas cogitações, todas menores. Quer dizer: nenhuma ameaça séria a Iris, ninguém que lhe chegue pelo menos aos pés.

 

Enfim: para que mexer no que está dando ceto? Mais quatro anos para Iris e ponto final.

02 set

Caiado é ingênuo, inexperiente e excessivamente confiante em sua própria força, por isso levou manta mais uma vez: o acordo com a Enel foi mais favorável à empresa que a Goiás

Não há o que comemorar com o acordo celebrado entre a Enel, o governo de Goiás e a Aneel (que representa o governo federal) para supostamente melhorar a prestação de serviços de energia elétrica em Goiás, contra a qual é quase que unânime a reclamação de todos os setores da economia estadual e também dos consumidores residenciais.

 

A Enel, vejam bem, leitora e leitor, é uma companhia de porte mundial, presente em 45 países e listada na Bolsa de Nova Iorque. Ou seja: tem um poderio incomensurável e, portanto, dentro do seu potencial, digamos assim, não é de dar ponto sem nó. Seus donos são italianos e têm experiência para dar e vender. Eles compraram a Celg para ganhar dinheiro e não para fazer políticas públicas ou qualquer tipo de benemerência. No Brasil, a Enel é proprietária de geradoras (como a usina de Cachoeira Dourada, uma verdadeira mina de ouro) e faz transmissão em quatro Estados: Rio de Janeiro, Ceará, Goiás e o maior deles, superior a esses três somados, que é São Paulo. O seu objetivo é um só: lucro.

 

Seria pouco crível que um portento desses se arvoraria em antecipar investimentos e tirar dinheiro do próprio caixa para atender a interesses políticos e sair do cronograma financeiro traçado, que é de provavelmente gastar com a ampliação das linhas e estações rebaixadoras apenas o que estiver previsto na destinação de parte do faturamento anual em cada Estado onde atua. E foi mais ou menos isso que aconteceu no acordo que teoricamente vai resolver as demandas colocadas quanto a falta de atendimento em Goiás, onde falta disponibilidade de energia para atender a novos empreendimentos e também são baixíssimos os índices de satisfação dos consumidores em geral – tanto que a Enel é a última no ranking de qualidade da Aneel.

 

Ronaldo Caiado é um governador que acredita excessivamente em sua força e capacidade para resolver os problemas do Estado, mas a verdade é que é inexperiente – sempre foi parlamentar e nunca passou pelo Executivo – e até ingênuo. Um exemplo foi a combinação que fez, no final de 2018, com os empresários beneficiados pelos incentivos fiscais, para que pagassem R$ 1 bilhão a mais em ICMS em 2019. Não aconteceu, conforme a secretária da Economia Cristiane Schmidt chegou a denunciar. Caiado levou uma manta e é mais ou menos isso que os italianos da Enel fizeram com ele agora, com a anuência da Aneel (agência do governo federal suspeitíssima,  que até hoje só agiu contra uma empresa do setor elétrico, a Rede, que teve concessões cassadas no Mato Grosso e no Pará por entrar em situação de falência).

 

O acordo que em tese levaria a um upgrade no fornecimento de energia elétrica em Goiás quase não antecipa nada que já não estivesse previsto na programação anterior da Enel. Muito pouca coisa foi acrescentada a mais. Caiado caiu como patinho, já que se comprometeu a contrapartidas como ajudar a liberar linhas de transmissão, como a Carajás, hoje paralisada diante de reclamações de moradores em regiões urbanas por onde passa, e até mesmo, pouco republicanamente, a esvaziar a CPI da Assembleia que investiga a Enel. Na edição desta segunda, 2 de setembro, O Popular mostra mais umas jogada da Enel dentro do tal acordo:  universalização da energia elétrica em Goiás estava prevista para 2019, mas o prazo, agora, foi ampliado em mais três anos (veja aqui, pode ser necessária senha de assinante). Uma vergonha. E bom para a Enel, que terá mais tempo para atingir uma meta que, antes do acordo, teria que ser cumprida ainda neste ano.

 

A imprensa em Goiás é acrítica. Engole sem questionar tudo que é vendido pelos canais oficiais. O acordo com a Enel não passou, até agora, por nenhuma avaliação crítica, exceto a deste blog. Podem apostar, amigas e amigos que acompanham a página: não foi um bom negócio para Goiás.

31 ago

Caiado como governador e alguns deputados agora na oposição deixam claro: não se pode confiar nos políticos. Eles mudam de opinião a cada momento, conforme os seus interesses pessoais

Pesquisas recorrentes mostram, periodicamente, que a classe política é campeã quanto a falta de confiança da população. E não sem razão. Os políticos brasileiros mudam de opinião a cada momento, pouco se importando com a coerência dos seus atos atos e palavras. Vejamos, leitora e leitor, o exemplo que eles dão em Goiás. Aqui temos um governante que praticamente se esqueceu do que dizia na campanha ou quando exercia seus mandatos parlamentares. E deputados estaduais que, nos governos passados, aprovavam entusiasticamente matérias que hoje condenam como nocivas para a população. Ou então rejeitavam o que passaram a aprovar.

 

O caso do governador Ronaldo Caiado é grave. Quando era senador, definiu como “golpe no bolso dos empresários goianos” a instituição pelo governador Marconi Perillo de um imposto que é considerando injusto e absurdo, o chamado DIFAL ou Diferencial de Alíquota, cuja finalidade seria corrigir uma falha na cobrança do ICMS, mas que, na verdade, serve para extorquir principalmente os micro, pequenos e médios empreendedores com o objetivo de locupletar as burras do Tesouro Estadual. Como se trata de um tributo inconstitucional, já que é cobrado de empresas que já pagam o Simples Nacional, o então senador Caiado estava corretíssimo ao criticar uma excrescência fiscal que só existe para infernar a vida das pessoas jurídicas oneradas pelo ICMS. Mas o agora governador Caiado tem outra opinião: o DIFAL é necessário para reforçar o caixa do Estado e, portanto… danem-se os prejudicados.

 

Não é só. Caiado acaba de mandar para a Assembleia um projeto que autoriza o Executivo a meter a mão em R$ 1,8 bilhão de reais que estão em uma conta do Judiciário, oriundos dos depósitos judiciais. Normal se o mesmo Caiado, no ano passado, não tivesse se levantado como uma fera contra a mesma idêntica medida, também configurada na época em projeto enviado ao Legislativo pelo governador tampão Zé Eliton. O naquele tempo senador chegou a mobilizar um genro, que é advogado, para questionar no Supremo Tribunal Federal o que considerou como acesso indevido a um fundo formado por recursos da população e com destinação própria. Bingo: o STF deu razão  a Caiado e, através de uma liminar do ministro Edson Fachin, proibiu que se mexesse nos depósitos judiciais em Goiás.

 

O que era indevido ontem passou a ser permitido menos de um ano depois, na visão de Caiado, cujo projeto desafia uma ordem do Supremo e é passível da mesma proibição, dado que repete o conteúdo que provocou a decisão de Fachin. Enquanto o governador vai se contradizendo em um rumo, um grupo de deputados estaduais faz o mesmo, em outra direção. São os que votaram a favor do projeto que libera o acesso aos depósitos judiciais, no ano passado, e agora estão contra, caso, por exemplo, de Henrique Arantes, do PTB. Ou os que votaram contra, como Bruno Peixoto, do MDB. Transfigurado de oposicionista em governista, ele fez o caminho inverso e está a favor. Tanto em um caso quanto em outro e ainda com o acréscimo de Caiado, deixando claro que coerência, para os nossos políticos, é artigo de quinta categoria.

29 ago

“Prova” apresentada por Caiado para fundamentar acusações a Marconi é incompatível com o Estado de Direito e apequena uma autoridade que deveria ser referência e exemplo para Goiás

Desafiado pelos jornalistas da rádio Sagres a apresentar comprovação para as acusações que continua repetindo contra o seu antecessor Marconi Perillo, a de que seria “chefe de quadrilha” e também que “assaltou Goiás”, o governador Ronaldo Caiado explicou: “Ele não foi preso? Ele não é presidiário? Se ele foi preso não é porque estava rezando, estava roubando”, voltou a afirmar mais uma vez.

 

Bem, leitora e leitor: o que Caiado disse não é “prova” de nada, muito menos das graves imputações que lançou contra o ex-governador. Prisões injustas acontecem toda hora – e a de Marconi parece ter sido uma delas, já que durou apenas 24 horas em razão de ter sido rapidamente anulada rapidamente pelo Superior Tribunal de Justiça, onde o juízo monocrátivo enxergou excesso na ação da Polícia Federal que restringiu a sua liberdade. “Presidiário” muito menos o tucano foi ou é. Presidiário é quem está cumprindo pena em um estabelecimento penitenciário, o que não é o caso de Marconi. E , por fim, argumentar que, se alguém é detido, seria “estava roubando”, é pior ainda. Há investigações, sim, em andamento, e pelo menos uma na esfera judicial, mas elas tanto podem resultar em declaração de culpa quanto de inocência. Caiado sabe de tudo isso.

 

Um governador de Estado deveria ter noção da compostura do seu mandato e não recorrer a uma lógica de botequim  contra adversários que, no final das contas, atenta contra o direito constitucional de qualquer pessoa quanto a ser presumido inocente até condenação transitada em julgado. Ou de ser acusado mediante evidências sólidas. Mais conveniente e condizente com a autoridade de Caiado teria sido ele assumir que estava expressando a sua opinião pessoal, mesmo se arriscando – como se arrisca – a responder a processos por calúnia, injúria e difamação (pelo menos o de crime de calúnia, ao atribuir a Marconi um crime tipificado no Código Penal, o governador cometeu). E mencionando corretamente que existem suspeitas, em apuração nos órgãos competentes.

 

Quem ocupa cargos públicos de importância, especialmente eletivos, serve de referência e de exemplo para a sociedade, sempre. Não é aceitável que assuma um discurso público pautado por uma língua de trapo ou uma boca do inferno. Afinal, até crianças escutam, vêem ou lêem o que os governantes dizem, em alguns momentos aprendendo ou desaprendendo) com isso. Não, coisas assim não podem acontecer em um corpo social que vive uma democracia e o pleno Estado de Direito. E a cada vez que Caiado insiste ou retorna a esse falatório, quem se apequena é ele e não Marconi.

29 ago

Enfim, governo Caiado começa: há um acordo com a Assembleia, Gracinha recolhe-se, soluções domésticas para a crise financeira aparecem, dezembro foi pago e a Enel enquadrada é a 1ª ação positiva

Com oito meses de atraso, o governo Ronaldo Caiado começou. Pela primeira vez desde a posse, uma agenda positiva foi desenvolvida e o mês de agosto, antigamente de mau agouro, está sendo fechado pelo Palácio das Esmeraldas com um saldo de realizações e avanços, além de presságios favoráveis, na área política e na gestão.

 

Caiado, depois de idas e vindas, conseguiu chegar a um aparente acordo com a Assembleia, que será testado ainda nesta semana e mostrará se, de fato, conseguiu formar uma maioria segura para aprovar os seus projetos. Duas matérias polêmicas estão na fila de votação: a redução da vinculação constitucional de recursos para a Educação e a liberação do acesso do Executivo a R$ 1,8 bilhão de reais de um fundo constituído por depósitos judiciais. A possibilidade de aprovação é grande. O presidente da Assembleia Lissauer Vieira, depois de obter do governador um acerto para o duodécimo devido ao Poder e para as emendas orçamentárias dos deputados, parou de criticar o governo e dá sinais de que amenizou seu antagonismo com Caiado.

 

Na questão dos depósitos judiciais, Caiado finalmente mostrou que também acredita em soluções domésticas para a crise fiscal do Estado, deixando de unicamente se iludir com o fantasioso socorro que poderia vir, mas não vem e provavelmente nunca virá, de Brasília. Se o projeto for aprovado, será um reforço e tanto. Muito dinheiro, que não poderá se gasto à vontade pelo governo, mas servirá para cobrir rombos como os R$ 200 milhões mensais da previdência dos servidores e pagamentos específicos, como os precatórios, garantindo um alívio importante para o tesouro estadual.

 

Um passo, portanto, para sair do atoleiro. Outro, nos bastidores, foi o afastamento da primeira dama Gracinha, que vinha atuando como governadora e se intrometendo nas decisões e articulações do companheiro, expondo-se à crítica dos veículos de imprensa e mesmo a ataques no plenário da Assembleia. Desde o infeliz debate de baixíssimo nível entre o governador e seu antecessor Marconi Perillo, envolvendo familiares de ambos, que Gracinha baixou a bola, desapareceu das cerimônias onde se postava ostensivamente ao lado de Caiado e, com uma presença ativa nas redes sociais, opinava sobre tudo e todos. Isso acabou. O perfil de Gracinha no Instagram, por exemplo, tornou-se burocrático, sem movimento e 100% institucional quanto a sua condição de presidente da OVG. Ela, ao que tudo indica, saiu do caminho do marido.

 

Ao mesmo tempo, o restante de dezembro foi pago, curando uma ferida que servia como fonte de desgaste diário para o novo governo. Quitada a folha, encerrou-se o capítulo aberto para uma das decisões mais infelizes jamais tomada por um governante em Goiás, a de deixar um mês da folha para trás. E, para coroar a boa fase, veio o acordo com a Enel, que não é grande coisa e repete mais ou menos o que já estava ajustado anteriormente, porém agora adiantando algumas providências para melhorar a distribuição de energia elétrica e levando Caiado a passar uma semana, talvez a primeira, sem fatos negativos ou estressantes para a comunicação do governo. Sim, o governo começou.

21 ago

Caiado baixou o nível contra Marconi alegando que a sua família foi atacada por aliados do ex-governador. Pode ser, mas ele aceitou um jogo perigoso ao permitir mulher, filha e genro interferindo na gestão

Na entrevista de 14 minutos a uma rádio de Catalão, em que desferiu os maiores impropérios possíveis contra o ex-governador Marconi Perillo, inclusive envolvendo filhas, mulher, pai e irmão do tucano, o governador Ronaldo Caiado alegou que estava sendo obrigado a baixar o nível diante dos ataques promovidos contra a sua família por aliados de Marconi.

 

Vamos analisar, deixando de lado o fato de que não é aceitável que uma autoridade como o governante de um Estado se arvore ao direito de recorrer a insultos e ofensas para se referir a um adversário. Ora, permitir a interferência de familiares em qualquer governo é sempre um erro que leva a graves consequências. Quando se trata da própria mulher, pior ainda. Este blog vem fazendo essa constatação desde fevereiro último, quando começou a ficar claro que a esposa de Caiado, Gracinha, não se contentou com o papel quase que decorativo de uma primeira dama. Ela queria mais. Um deputado federal ligadíssimo ao Palácio das Esmeraldas testemunhou que, hoje, Goiás tem um governador e uma governadora.

 

Não há precedentes, em termos de Brasil e nem mesmo em se tratando de países pelo mundo afora, de uma primeira dama atuando com a força e a presença de Gracinha no governo de Goiás. No passado, houve governadores nordestinos que chegaram perto disso, como Geraldo Bulhões, de Alagoas – que levava toalhadas molhadas da mulher Denilma quando não permitia que ela decidisse em seu nome – ou José Reinaldo Tavares, cuja mulher Alexandra metia a colher de pau em todas as ações do governo do Maranhão. Em nenhum dos dois casos, nada próximo da intromissão de Gracinha em Goiás, muito mais atuante – o que, no final das contas, expõe não só a sua pessoa como também a do seu marido Caiado.

 

Uma outra Alexandra, czarina da Rússia, assumiu o reinado do marido Nicolau e com uma sequência de desacertos trágicos empurrou a dinastia dos Romanov, depois de 300 anos de duração, para a sepultura – literalmente, já que ela, o marido e os sete filhos foram assassinados pelos bolcheviques. Quer dizer: não é por ser mulher, mas na verdade por se tratar de uma ingerência indevida e quase sempre de alguém que não experiência nem tato político. Gracinha, como se sabe, não foi eleita nas urnas e portanto não tem a legitimidade necessária para receber deputados, determinar nomeações ou presidir reuniões ao lado do governador, falando mais do que ele.

 

Ao concordar passivamente com o protagonismo da sua mulher, Caiado deveria também que admitir que ela se transformou em peça do jogo político e, a partir daí, exposta a críticas e avaliações, tal qual ele próprio. É o que ele, pelo que disse à rádio de Catalão, não quer engolir. Se alguém falar de Gracinha, está envolvendo a sua família. Mas está equivocado. Família é família só quando não se enfia nos negócios de Estado. Se entrar, é um agente público como qualquer outro. É lícito que deputados, na Assembleia, façam considerações sobre dona Gracinha ou que veículos de comunicação façam análises, até em tom de deboche, às vezes, sobre os seus atos e condutas. Se quiser preservar a sua mulher, Caiado deveria retirá-la do palco principal do governo. O mesmo vale para a sua filha Anna Vitória e para o seu genro Alexandre Hsiung, figuras que são flagradas com frequência nos bastidores oficiais, sabe-se lá fazendo o quê.

21 ago

Se comparado com o governo Bolsonaro, Caiado (para usar um termo que ele gosta) é “frouxo” quando ao poder de iniciativa para enfrentar problemas e estabelecer uma agenda de reformas

Os dois começaram seus mandatos no mesmo dia, herdando de seus antecessores estruturas administrativas desequilibradas quanto ao seu aspecto financeiro e sob pressão de realizar o mais rápido possível as mudanças que prometeram na campanha eleitoral e que convenceram a população a sufragar os seus nomes. Mas, passados oito meses, as diferenças de ritmo e estilo entre e outro tornaram-se abismais: enquanto o presidente Jair Bolsonaro tem uma agenda clara e definida, parte da qual já está implantando, o governador Ronaldo Caiado patina no mesmo pântano onde pôs os pés em 1º de janeiro, sem sair do lugar.

 

Não é exagero, leitora e leitor. Bolsonaro acelera, Caiado continua em ponto morto. O capitão, por exemplo, já privatizou oito estatais e acaba de anunciar uma lista com mais 15 para vender à iniciativa privada, incluindo portentos como os Correios, a Eletrobrás e até a Casa da Moeda. Em alguns casos, neste ano ainda. Caiado, além de não ter se desfeito até agora de nenhum ativo, mesmo os que dão prejuízos ao Estado, como a Metrobus e a Iquego, não tem data marcada nem prazo para qualquer privatização, nem da Saneago, que vale muito dinheiro e pode ser leiloada por uma pequena fortuna ou então ter parte das suas ações disponibilizadas no mercado.

 

Bolsonaro praticamente já resolveu o principal problema fiscal do país, que é o rombo da previdência. A sua reforma está nos trâmites finais no Senado e não há dúvidas de que será aprovada até no máximo início de outubro. Goiás também precisa de uma, já que o governo goiano torra R$ 200 milhões, a descoberto, todos os meses, com a aposentadoria dos seus servidores. Quando Caiado vai atacar de frente essa adversidade? Ninguém sabe. Diz-se que um consultor estaria sendo contratado para redigir um projeto de reforma de previdência para Goiás. Mas… apenas diz-se. Não há informações mais concretas a respeito.

 

Um terceiro desafio que exige a atenção de Caiado, até agora sem resposta, está nas modificações que se impõem para eliminar, ao menos, os exageros da política vigente de incentivos fiscais. Esse pepino não existe para Bolsonaro, já que a política tributária da União é muito mais dura e ajustada que a dos Estados. De qualquer forma, o governador não se mexeu, apesar da pregação quase que diária da sua secretária da Economia, Cristiane Schmidt, garantindo que essa estratégia – os incentivos fiscais – já está esgotada em Goiás e não produz mais resultados para a população. Por ora, fica tudo como era, ou seja, o que existia nos governos passados como privilégios para as grandes empresas do Estado, está mantido por Caiado.

 

Conclusão: Caiado, para usar um termo a que ele mesmo recorreu nesta semana, faz uma gestão “frouxa”, que não mostra a coragem necessária para assumir os desgastes que são inescapáveis quando um governante precisa cortar direitos, diminuir gastos, livrar-se de empresas públicas ineficientes ou não e alterar parâmetros que funcionavam no passado, porém não servem mais para a atualidade. Bolsonaro, ao contrário, tem peito e está fazendo tudo isso, goste-se ou não do presidente, inclusive colocando em discussão a sua controvertida pauta de costumes. O que é que se tem em Goiás, parecido? Nada. O mês de agosto já está indo embora e parece que, em Goiás, ainda estamos em janeiro. Ou até antes, em setembro, época da campanha eleitoral, a se levar em conta o assombroso bateboca em que o governador está empenhado com o seu antecessor Marconi Perillo. Tudo isso é muito ruim.

20 ago

Caiado continua a trocar ofensas com Marconi e baixa o nível da linguagem com acusações graves que ele, agora, precisa comprovar sob pena de ser tachado de leviano ou faltar com o decoro do cargo

Este blog não tem conhecimento de um momento, na história de Goiás, em que um governador recorreu a uma linguagem tão pesada e a acusações tão graves contra alguém que o tenha antecedido no cargo como Ronaldo Caiado, agora, faz com Marconi Perillo.

 

É conveniente lembrar que Marconi hoje não é nada: apenas um ex-governador, que sequer reside em Goiás, tendo se transferido com a família para São Paulo, onde, segundo afirma, está trabalhando. Já com Caiado, é diferente. Ele é a maior autoridade do Estado, exercendo uma função em que não apenas encarna as responsabilidades do Poder Executivo, como também representa as goianas e os goianos, inclusive aqueles que não votaram nele. E, finalmente, alguém legalmente compelido a obedecer ao decoro exigido pela chefia do Poder Executivo.

 

Quem começou a troca de insultos entre os dois foi Caiado, ao falar – pasmem, leitora e leitor – na missa final da Romaria do Muquém. Marconi, que estava quieto no seu canto, retrucou. Caiado rebateu. Marconi devolveu. E Caiado novamente voltou a atacar, dessa vez perdendo todos os freios, abusando de uma linguagem totalmente incompatível com o fato de ser governador de Goiás e fazendo acusações gravíssimas, em meio a afirmações algumas vezes até sem o menor nexo.

 

Se for um homem sério, com noção dos deveres embutidos no mandato que conquistou e está exercendo, Caiado está na obrigação de apresentar provas ou pelo menos indícios das sérias acusações que lançou contra o ex-governador tucano. Vai aqui um resumo: 1) Marconi teria um patrimônio de bilhões de reais; 2) Seria um criminoso maior do que Sérgio Cabral, 3) Suas filhas estudaram na Suiça por conta de terceiros, 4) Da mesma forma, a festa de casamento de uma delas teria sido paga por terceiros, 5) Seu pai seria dono de uma propriedade rural sem ter recursos para isso e 6) Seu irmão também seria proprietário de uma fazenda em Mato Grosso, que na verdade seria dele, Marconi e 7) Cometeu uma infinidade de crimes, mantendo laranjas, ganhando dinheiro com todas as operações do Estado, chefiando uma quadrilha para assaltar os cofres públicos, chegando a promover uma reunião do secretariado para discutir a partilha dos recursos roubados.

 

Isso não é brincadeira. E saiu da boca de um governador, que ainda temperou as acusações com as bravatas juvenis nas quais era pródigo nos tempos de deputado federal e senador, mas havia abandonado a partir da candidatura ao governo. Caiado chamou Marconi de “frouxo”, repetiu várias vezes que ele não tem “coragem pessoal” e o desafiou para um enfrentamento em qualquer campo. Ainda desdenhou da Justiça, a que o tucano prometeu recorrer para reparar o dano moral das calúnias com que se sentiu atingido. Para Caiado, a Justiça ou é muito lenta ou não resolve nada, devendo os dois, ele e Marconi, convocar auditores fiscais para vistoriar as contas bancárias de ambos e suas respectivas faturas de cartão de crédito, a fim de se comprovar quem pagou os estudos das filhas (as de Caiado também estudaram na Suiça, conforme ele revelou no falatório). Não tem sentido.

 

No final das contas, dói ver um governador de Estado debatendo nesse nível, pior ainda quando é ele quem tomou a iniciativa de puxar a discussão para tão baixo. Na primeira das notas que divulgou para rebater Caiado, Marconi cometeu um deslize, mas um único: chamou o adversário de “canalha”, o que foi um excesso que ele parece ter percebido ao evitar expressões parecidas na segunda nota. Fora esse escorregão, os termos do ex-governador foram duros, porém aceitáveis quanto a uma polêmica essencialmente política. Quem passou dos limites e agora está devendo é Caiado. Principalmente ao voltar a encarnar o tipo valentão, que chama desafetos para resolver no braço.

 

E, sim, o governador tem que apresentar, e rápido, as provas que atestariam que nada do que ele disse foi inventado. Se não o fizer, passará por um grande mentiroso. Vale lembrar que, desde que assumiu, ele nunca apontou um caso concreto de corrupção praticado nas gestões passadas que tenha sido descoberto e apurado pela atual. O máximo a que chegou foi uma estória muito mal contada na esfera do Ipasgo, da qual até o presente instante não saiu nada de real – com um agravante, para Caiado: o Ipasgo recontratou por R$ 17 milhões, sem licitação, a empresa que o próprio instituto acusou de envolvimento nas supostas falcatruas.

 

Quer queira ou não o governador, Goiás está em um estágio civilizatório que dispensa extravagâncias inconsequentes que mostram como imaturo um homem de 70 anos (Caiado completa essa idade a 25 de setembro próximo), em cujas mãos estão depositadas as esperanças dos milhões que votaram nele na última eleição.

20 ago

Bateboca com Marconi é erro grave de Caiado, que começou a troca de insultos, não tem nada a ganhar com isso se mostra sem noção do equilíbrio que deveria ter como governador do Estado

A troca de insultos entre o governador Ronaldo Caiado e o seu antecessor Marconi Perillo, com direito a cobertura integral pelo jornal O Popular e o apelo a um vocabulário altamente ofensivo, começou, continua e, se terminar em algum momento nos próximos dias, terá um perdedor certo: o próprio Caiado.

 

Dá um gosto ruim na boca ver um governante se metendo com toda a sua energia em uma altercação pautada pela total falta de racionalidade, a começar pelo momento que Caiado escolheu para iniciar o tiroteio: a missa final da Romaria de Muquém, o que deu a Marconi a oportunidade de afirmar, não sem alguma razão, que o evento religioso teria sido profanado. O mau passo a seguir foi o conteúdo da fala do governador, ao fazer acusações graves a Marconi sem que seja possível comprovar qualquer uma delas. Mesmo respondendo a processos na Justiça, o tucano não pode ser inquinado de “ladrão” ou chamado de “bandido” por um motivo muito simples: não tem condenação transitada em julgado, aliás nem em 1ª instância, não passando réu sob investigação, que pode, no final das contas, concluir pela sua inocência. Não à toa, Marconi ganhou na justiça uma indenização de reparação moral a ser paga pelo ex-governador Alcides Rodrigues e pelo ex-secretário da Fazenda Jorcelino Braga, que o acusaram de ter “quebrado” o Estado. Como não conseguiram provar o que disseram, os dois foram punidos.

 

Agindo dentro dos seus direitos, Marconi deve chamar Caiado aos tribunais para que prove as suas denúncias. É assim que as coisas funcionam no Estado de Direito e em um país civilizado. Só que uma autoridade como Caiado deveria ter noção dessas limitações. Digamos que, em uma campanha eleitoral, ele até poderia ter dito o que disse de Marconi na missa do Muquém, em um palanque qualquer. Mas, como governador, jamais. Isso incomoda a sociedade. Se o governador age assim em relação ao seu predecessor, pode, em tese, fazer o mesmo com qualquer cidadão. Não dá para aceitar e por isso o maior perdedor com esse debate de baixo nível é quem o iniciou, ou seja, Caiado.

20 ago

Na troca de insultos com Marconi, Caiado gaba-se de ser “transparente”. Não, governador. Não é não. E se já foi, no seu passado como deputado e senador, deixou de ser quando assumiu o governo

Na infeliz troca de insultos com o ex-governador Marconi Perillo, em andamento pelas páginas do jornal O Popular, o governador Ronaldo Caiado aproveitou para se gabar de ser “transparente” – característica que pode ter tido no seu passado de deputado federal e senador, mas que perdeu em grande parte ao assumir o governo do Estado.

 

Caiado fala demais e não tem a humildade como um das suas virtudes. A transparência que alega não deveria ser autoproclamada por ele, porém, antes, reconhecida pelas goianos e goianos que ele governa. Ele dizer que é tem pouca importância, quando o que vale é ser espontaneamente avaliado como uma autoridade e um político que de fato “transparente”.

 

Vamos começar pela parte institucional. O governo Caiado não tem o menor apreço pela transparência. Seus sites de informações públicas são deploráveis. Vergonhosos. Caiado importou do Rio um coestaduano, seu parente, que estava ganhando dinheiro com uma respeitada empresa de tecnologia da informação. Esperava-se que, com a aquisição, houvesse um passo à frente na prestação de contas sistemática que o governo deve à sociedade, um serviço que depende umbilicalmente dos modernos procedimentos de internet. Passados oito meses, não deu em nada. O especialista, secretário de Desenvolvimento & Inovação Adriano Rocha Lima, está é cuidando das reclamações contra a Enel, da futura privatização da Metrobus e da edição da feira Campus Party em Goiânia (a propósito: se divulgação até agora de quanto vai custar para o governo), que vai fazer a festa para os gamers goianos. Em matéria de melhorar a comunicação com a população, Adriano Rocha Lima não se interessou.

 

Toda a ineficiente estrutura online de transparência que Caiado herdou foi mantida ou, em alguns casos, como no da Secretaria de Segurança, piorada. É coisa que um governo sério e bem intencionado resolveria em dois meses, quanto mais nos oito que praticamente já transcorreram – e, assim, foram perdidos. Há alguma luz nos dados fornecidos pelos sistemas operados pela Secretaria da Economia, de resto os mesmos dos governos passados, sem nenhum avanço ou aperfeiçoamento e mesmo assim com falhas gritantes, como ocorre no caso das informações sobre os incentivos fiscais, inexistentes. E vale registrar: fora da área institucional, o governo Caiado é rápido na divulgação de qualquer fato que represente escorregões ou irregularidades nas gestões anteriores, mas lento e geralmente omisso quando aos seus descaminhos – estando aí para quem duvidar o exemplo do acontecido na Codego, neste ano, que foi abafado e varrido para debaixo do tapete. Que houve corrupção lá, originária do atual governo, houve. Mas tudo foi escondido.

 

Sigamos. Todo governante, como Caiado, tem a obrigação de ser transparente não apenas quanto a sua administração, ponto em que ele está falhando clamorosamente, mas também relação aos seus atos individuais e vida pessoal. E aí o que está ocorrendo em Goiás é de se lamentar. Notem-se as especulações sobre o estado de saúde do governador, que caiu de cama, mas justificou tratar-se de uma febre – quando não é necessário ser formado em medicina, como Caiado, para saber que febre é sintoma e não doença. Além disso, uma sombra cinzenta paira sobre o Palácio das Esmeraldas, representada pela influência oculta às vezes, nem tanto outras, da primeira dama, da primeira filha e do primeiro genro nos negócios governamentais, sem falar na plêiade de Caiados esparramados pela administração, um deles, aliás, tendo se demitido de um cargo de chefia na Goinfra (o primo Aderbal) na semana passada sem que qualquer explicação tenha sido dada. Por que o governador mantém silêncio sobre tudo isso?

 

Se transparência for questão de diploma, Caiado está reprovado.