Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

04 abr

Orçamento impositivo e título de cidadão para Bolsonaro: chegou a hora de testar a base de Caiado na Assembleia. Mesmo com o “balcão de negócios” do governo aberto, risco é grande

Duas matérias que estão na bica para serem votadas no plenário da Assembleia Legislativa – e isso pode começar a acontecer a partir desta quinta-feira – deverão servir como teste para a suposta base de apoio parlamentar do governador Ronaldo Caiado, até hoje ainda indefinida e nenhuma aparência de solidez. Uma é o título de cidadão goianiense para o presidente Jair Bolsonaro, uma bobagem sem tamanho que acabou gerando polêmica, e outra o projeto que amplia o orçamento impositivo para 1,2% (garantindo aos deputados o direito de emendar o orçamento até esse limite, ficando o governo obrigado a pagar dentro do exercício friscal).

 

O Palácio das Esmeraldas fala em 26 deputados fechados com os interesses do governo. A oposição duvida. Uma reunião convocada para contar os votos, no início desta semana, atraiu apenas 22 parlamentares. Dois, sendo um deles o presidente da Assembleia Lissauer Vieira, sequer ficaram até o final do encontro (o outro foi o emedebista Paulo Cezar Martins). Para tentar chegar aos hipotéticos 26, abriu-se o que o deputado caiadista Major Araújo definiu como “balcão de negócios”, com a oferta de cotas de R$ 30 mil em nomeações e possibilidade de indicações para diretorias e superintendências. Seja como  for, é uma maioria precária. Na Assembleia, bases de apoio a governos, consistentes, sempre estiveram acima de 30 deputados.

 

Caiado, que prometeu dar fim aos “conchavos” na sua gestão, delegou a função de negociador ao secretário de Governo Ernesto Roller e ele tem se virado como pode, mas enfrenta dificuldades para superar um cacoete a que a classe política estadual se viciou nos 20 anos de poder do ex-governador Marconi Perillo: a atuação pessoal do governador no relacionamento do Executivo com o Legislativo e, de resto, com a própria sociedade. Caiado, ao que tudo indica, tem ojeriza a perder tempo adulando deputados, prefeitos ou qualquer tipo de lideranças, ao contrário do seu antecessor, que tinha gosto e jeito para essa tarefa. Isso faz falta e prejudica o estabelecimento de um respaldo seguro e tranquilo para a governabilidade na Assembleia.

02 abr

Goiás aguarda a palavra do procurador-chefe Ailton Vechi sobre a divulgação da denúncia anônima contra Marconi, o desembargador Nicomedes Borges, vários funcionários da Saneago e até o governo Caiado

A divulgação de uma denúncia anônima envolvendo o ex-governador Marconi Perillo, o desembargador Nicomedes Borges, uma batelada de funcionários da Saneago, ex-dirigentes da estatal e até o governo de Ronaldo Caiado, é uma das situações mais absurdas já vistas no país, em termos da atuação de uma instituição de peso e credibilidade como o Ministério Público.

 

O procurador-chefe da instituição, em Goiás, precisa se pronunciar. Com a palavra, o dr. Ailton Vechi.

02 abr

É tudo estranho na estória da denúncia anônima divulgada pelo Ministério Público, envolvendo Marconi, um desembargador, barras de ouro, uma casa de US$ 250 milhões de dólares e até o governo Caiado

Não há nada menos do que muito estranho no último, digamos assim, escândalo que acaba de ocupar as manchetes da imprensa estadual, a partir da divulgação de uma denúncia anônima que chegou ao Ministério Público, envolvendo o ex-governador Marconi Perillo , um desembargador (Nicomedes Borges, da turma do falecido Zé Gomes, de Itumbiara), barras de ouro, uma casa de US$ 250 milhões de dólares nos Estados Unidos e até o governo de Ronaldo Caiado.

 

Sim, o governo Caiado. A tal denúncia, esdruxulamente colocada em público por uma instituição do peso do MPE, sem nenhuma apuração, relata que a contratação de uma empresa para elaborar o novo logotipo da Saneago teria sido manipulada para atender a interesses de funcionários da estatal – aquela que, entregue ao paranaense Ricardo Soavinski e aos “técnicos” que trouxe de fora, escorrega pela segunda vez, sendo a primeira a recontratação de um alto funcionário, Robson Salazar, que havia sido preso pela Polícia Federal e o foi novamente, por estar no olho do esquema de desvio de dinheiro público que, segundo agora o Ministério Público Federal, continua operando dentro da Saneago.

 

Vamos lá, leitora e leitor: como pode o Ministério Público divulgar uma denúncia anônima, sem nenhuma comprovação documental, eivada de maluquices, como a acusação de que um alto funcionário da Saneago teria adquirido uma casa de US$ 250 milhões de dólares nos Estados Unidos? Isso corresponde a cerca de R$ 1 bilhão de reais e é possível que, naquele país, não exista nenhuma unidade residencial com um valor estratosférico como esse. Nem os magnatas do Google, da Apple ou da Microsoft, com todas as suas extravagâncias, são proprietários de casas com tal valor.

 

E as barras de ouro que teriam sido entregues a Marconi, em seu sítio em Pirenópolis? Não há nada mais rastreável do que ouro em espécie. Se fosse verdade, seria pinto para a polícia ou os promotores a elucidação da origem desses ativos, ou seja, onde foram comprados, por quem e como e quando foram pagos. Mas a tal denúncia, que inaugura um novo capítulo nas estrepolias do Ministério Público não só em Goiás, como também em termos de Brasil, se limita a fazer afirmações, sem, como já se disse, nenhuma comprovação. Isso, em um país sério, levaria a uma punição dos responsáveis pela propagação da notícia – em se tratando de um órgão oficial – sem um mínimo de investigação sobre a sua veracidade.

 

A promotora Villis Marra, ao que parece situada na origem de toda essa patacoada, recebia barras de ouro em seu gabinete no Ministério Público, poderia denunciar algum louco varrido e postar no site do MPE, na aba destinada à coleta de informações anônimas. Isso seria divulgado?

02 abr

Para derrubar a emenda do orçamento impositivo e criar uma base parlamentar de apoio, governo Caiado abre “balcão de negócios” e troca cargos por votos na Assembleia

Não é este blog que afirma, mas um dos principais aliados do governador Ronaldo Caiado, o deputado Major Araújo, um dos primeiros a declarar apoio ao candidato do DEM na eleição passada; segundo o Major, o Palácio das Esmeraldas abriu um “balcão de negócios” para trocar cargos por votos na Assembleia Legislativa.

 

Claro, a estratégia dos “conchavos” que o novo governador tanto condenou tornou-se a nova realidade à qual Caiado, pisoteando a própria biografia, aderiu sem o menor constrangimento. O Diário Oficial é a prova. A mãe do deputado Virmondes Cruvinel, por exemplo, foi nomeada chefe de gabinete da Emater. O irmão do deputado Humberto Aidar já está empoleirado em uma superintendência da Secretaria de Comunicação. Familiares do deputado Paulo do Trabalho ocupam cargos de confiança em órgãos governamentais na região nordeste. E por aí vai. Caiado, pessoalmente, não suja as mãos. Quem recolhe as indicações e providencia as nomeações é o secretário de Governo Ernesto Roller, que já está se incompatibilizando com os colegas importados de fora, quase todos se sentindo traídos: receberam de Caiado carta branca para escolher seus assessores, também buscados fora, mas agora substituídos pelos nomes, digamos assim, recomendados pelos deputados.

 

O governo tem consciência que a votação da emenda que amplia para 1,2% as emendas dos deputados ao orçamento e as retiram da rubrica de restos a pagar, tornando a sua quitação automática, será o grande teste para a base de apoio que o próprio Ernesto Roller reconhece, em declarações públicas, como “em formação”, mas ainda não cimentada. Até a semana que vem, a matéria será submetida ao plenário – e por enquanto dentro da perspectiva de ser aprovada contra as intenções do governo, pela independência garantida aos deputados para atender seus municípios com pequenas obras e doações. Há outras matérias importantes à vista, como a segunda parte da reforma administrativa, que, pelo seu provável caráter polêmico, estão na Casa Civil aguardando a estruturação da base de apoio para serem encaminhadas à Assembleia. Por ora, seguem engavetadas, para evitar tornar ainda mais críticas e delicadas as pontes que vão do Executivo para o Legislativo e vice-versa, enquanto o “balcão de negócios” denunciado pelo deputado Major Araújo funciona a todo vapor para pavimentar (e conspurcar) o caminho.

02 abr

Em mais um erro infantil, Caiado promove reunião para contar os deputados que estão na sua base de apoio na Assembleia e só piora as coisas: apenas 22 comparecem, número que só mostra debilidade

Embora tenha como figura principal um político que passou a sua vida atuando como parlamentar no Congresso Nacional e por isso deveria exibir experiência de sobra, o governo do Estado continua cometendo erros infantis e caminha para produzir mais uma derrota de expressão na Assembleia Legislativa – onde conseguiu a façanha de ser humilhado na eleição do novo presidente do Poder (o próximo embate é a votação do projeto que obriga o Executivo a pagar as emendas dos deputados até um limite de 1,2% do orçamento).

 

Nesta segunda-feira, os deputados estaduais supostamente dispostos a integrar a base de apoio do Palácio das Esmeraldas foram reunidos, digamos assim, para uma contagem dos votos. Ação amadorística, diga-se de passagem, já que só serviu para expor fragilidade e em hipótese alguma poderia gerar um fato positivo. É simples: basta faltar um ou outro deputado ou que algum saia antes do fim da reunião, para que se evidencie a interpretação de que a iniciativa foi um fracasso. Ou então que o quorum registrado não tenha muita expressão: em um colegiado de 41 deputados, seria uma demonstração de força o comparecimento de dois terços ou mais, algo em volta de 30 parlamentares – isso, sim, uma base de apoio realmente sólida e capaz de garantir a governabilidade.

 

Pois a reunião dos deputados pró-Caiado falhou em todos esses quesitos. Só estiveram lá 22 deputados, dos quais dois – um deles o presidente Lissauer Vieira e outro o emedebista Paulo Cezar Martins – abandonaram o encontro bem antes da sua conclusão, deixando um gosto ruim para trás. Três, considerados caiadistas de primeira hora (quer dizer, estiveram na campanha de Caiado e foram eleitos com ele) não foram sequer convidados: Iso Moreira, Major Araújo e Cláudio Meirelles. De modo que, se o conclave teve a finalidade de exibir algum tipo de apoio consistente na Assembleia, acabou gerando um efeito contrário: deixou patente que Caiado, se tiver alguma maioria legislativa, a tem em termos precaríssimos e absolutamente inconfiáveis para arriscar a apreciação de matérias polêmicas.

 

A ideia de fazer a reunião para contar os votos foi de uma ingenuidade espantosa e provavelmente deve ter contribuído para acender ainda mais os ânimos da oposição e dos deputados insatisfeitos com Caiado. Tanto que eles já programaram uma reunião para esta terça, para consolidar os 35 votos que esperam ter para a aprovação do orçamento impositivo.

01 abr

Greve mostra que Caiado brincou com os professores ao assumir compromissos com o pagamento dos salários e não cumprir, sem sequer dar explicações

Os mais de 40 mil professores da rede estadual entram em greve a partir desta quarta, 3 de abril, reivindicando o pagamento dos seus salários e o tratamento isonômico, quanto à data de quitação da folha, entre ativos e inativos. Eles vão cessar as suas atividades até sexta, voltando a se reunir na segunda vindoura para avaliar como o governo do Estado reagiu e quais serão os próximos passos. Há reclamações, ainda, sobre compromissos que o governador fez com a categoria e não cumpriu.

 

A greve é o primeiro movimento de amplitude, dentro da sociedade, a abalar o passos iniciais do governador Ronaldo Caiado – que, perto de completar 100 dias de mandato, não são mais tão iniciais assim. O movimento também coloca em xeque a secretária da Educação Fátima Gavioli, que, aliás, em sua passagem pela mesma pasta em Rondônia, também foi obrigada a enfrentar seguidas paralisações. Nem ela nem Caiado, até agora, se pronunciaram sobre a decisão dos professores estaduais de mostrar que a paciência acabou e que agora começa uma etapa de confrontação.

01 abr

Caiado prometeu pagar os salários do seu governo até o dia 30 e não cumpriu. Justiça se faça: a secretária Cristiane Schmidt sempre disse que isso não seria possível. Ficou ruim para o governador

O compromisso que o governador Ronaldo Caiado fez, anunciando com estardalhaço o pagamento dentro do mês trabalhado dos salários do funcionalismo inerentes ao seu governo, só foi levado a sério em janeiro. Em fevereiro, apenas os ativos receberam assim, ficando os inativos para o dia 10 de março. E, agora em março, o próprio Caiado transferiu a quitação da folha, na sua integralidade, para o dia 10 de abril.

 

Palavra empenhada, palavra quebrada – coisa rotineira entre os governantes brasileiros e, especialmente, goianos. Mas justiça de faça: é preciso reconhecer que a secretária da Economia, a economista carioca Cristiane Schmidt, sempre disse que cumprir o prazo estabelecido pelo governador seria muito difícil, senão impossível. Na prática, foi a subalterna ousando desmentir o chefe, mas, vê-se finalmente, coberta de razão. O Estado não tinha mesmo condições financeiras, como ela ressaltou em alto e bom tom, e continua sem ter. Não há como quitar os salários dos servidores até o dia 30 – e pior ainda com uma pendência pesada em aberto, ou seja, o restante da folha de dezembro (que começou a ser pago na última sexta-feira, dia 29 de março).

 

O episódio deixou Caiado mal e a secretária da Economia bem. Ficou claro que ela, sim, é que tem as rédeas do caixa estadual e sabe das suas possibilidades, o que leva a uma conclusão: suas opiniões deveriam ser mais ouvidas pelo Palácio das Esmeraldas. Se assim fosse, o governador teria sido poupado do vexame de fazer o que tanto condena nos governantes do passado: prometer e não cumprir, prática atrasada da velha política de sempre.

31 mar

Versão legislativa de Caiado tinha mais rigor com a palavra que a variante executiva: compromisso com o funcionalismo de pagar os salários do seu governo dentro do mês durou apenas um janeiro

O funcionalismo público estadual acorda nesta segunda-feira, 2 de março, com as contas bancárias vazias. Parte, ou pouco mais que a metade, terá o consolo de receber os atrasados de dezembro, mas o mês que acaba de vencer não será quitado, por enquanto, a ninguém. É um golpe e tanto para a imagem do governador Ronaldo Caiado, autoaplicado por ele mesmo – e o pleonasmo aqui é proposital. Em janeiro, até para compensar a pança que os servidores estavam levando quanto a dezembro, Caiado encheu o peito para apregoar, aos quatro ventos, que na sua administração a folha de pessoal seria saldada sempre até o dia 30. Repetiu isso quase que diariamente. E foi o que aconteceu em janeiro.

 

Só em janeiro, no entanto. Em fevereiro, a solidez do compromisso recebeu as primeiras trincas com o artifício da divisão do pagamento entre ativos e inativos, os primeiros de fato atendidos conforme a data jurada pelo governador, enquanto os últimos acabaram protelados para o dia 10. Agora em março, as coisas pioraram: o mês também foi esticado para o dia 10, para todos, em atividade ou aposentados. No dia 29, sexta-feira passada, dezembro foi creditado para cerca de 55% do funcionalismo. Ótimo. Foi um atenuante…  que não justifica a quebra da palavra espontaneamente empenhada por Caiado, palavra, aliás, que ele vive enaltecendo como uma das grandes qualidades suas e da sua família.

 

Infelizmente, quebrar a palavra corresponde, em termos mais duros, a mentir. E sobre uma questão crucial para os milhares de servidores estaduais, que dependem dos seus salários para sobreviver. Se alguém cometeu o erro de, já com dezembro transformado em buraco no orçamento, programar algum contrapeso com o seu sagrado dinheirinho no bolso até o fim de cada mês, fez papel de bobo.

 

É ruim e desagradável ver um político sério e responsável como o atual governador, pelo menos enquanto desenvolveu a sua versão legislativa, desconstruindo-se a si próprio ao experimentar a variação executiva. Parece até que ele, Caiado, não se importa com o que sai da sua boca – e tem vindo muita prosopopeia daí. Goiás nunca teve um governador manejando a língua tão incansavelmente, a todo momento, por toda parte, semse  lembrar que palavras e frases são filhos que colocamos no mundo e pelos quais temos que zelar, especialmente quando ocupamos funções públicas de relevância. Caiado fala demais. E como todo mundo que tem essa característica, acaba dando bom dia a cavalo.

30 mar

Klayton e Diogo, duas vidas perdidas à toa nos hospitais estaduais, são um alerta para o médico e governador Caiado: se um paciente fica sem atendimento, então todo o sistema de saúde é falho

Diogo, de cinco anos. Klayton, com apenas dois dias de existência. Ambos morreram aguardando atendimento, o primeiro no Hospital Materno-Infantil e o segundo no Hospital de Urgências de Trindade. São sacrifícios que não podem ficar em vão e deveriam servir para acordar o governador Ronaldo Caiado – e o seu secretário da Saúde Ismael Alexandrino – quanto a necessidade de implantar de fato uma mudança no sistema estadual de atendimento médico à população carente.

 

É, aliás, um assunto sobre o qual Caiado fala quase todo dia, sempre lembrando a sua condição de médico experimentado. Mas, perto de completar 100 dias de governo, ele não promoveu nenhuma intervenção na área da saúde, a não ser inaugurar uma incubadora no Materno-Infantil e leiloar dois carros de luxo para doar o dinheiro arrecadado ao hospital (o valor foi correspondente a 0,1% das necessidades financeiras do HMI). Brincadeira, dirão vocês, leitora e leitor. Sim, brincadeira. E para piorar as coisas, Caiado, que tanto fala, fala e fala, calou-se diante da tragédia dessas pequeninas vidas perdidas.

 

O sistema de saúde estadual não comporta meias medidas. É fato que avançou com a entrega da administração dos hospitais públicos às organizações sociais nos governos de Marconi. As OSs tiraram esses estabelecimentos das manchetes negativas diárias. Caiado recebeu essa herança venturosa, mas não soube o que fazer para avançar com ela. Nem tudo era ou é perfeito, comprovam as mortes de Diogo e Klayton. Na Saúde, com a vida humana em jogo, é tudo ou nada. Se um único paciente deixa de ser ou é mal atendido, então todo o complexo de prestação de serviços e atendimento é falho. Basta um. Agora, foram dois.

30 mar

Existem similaridades entre Caiado e Bolsonaro, sim, mas o presidente está em dia com os seus compromissos e já avançou muito, enquanto o governador continua em débito com os goianos

Como já anotou este blog, existem muitas similaridades entre o governador Ronaldo Caiado e o presidente Jair Bolsonaro. Ausência de base parlamentar, influência da família, predomínio da comunicação via redes sociais, distância da classe política e deserto de propostas são alguns dos pontos em comum, mas há uma diferença de timing. Bolsonaro caminha muito mais rápido que Caiado. Já fez a sua reforma administrativa, mandou um pacote anticrime ao Congresso e formalizou o projeto que é o resumo da sua presidência, a reforma da previdência. E tudo isso com dezenas de micromedidas, porém de impacto, viagem aos Estados Unidos e agora a Israel, supressão de radares nas rodovias, dispensa de visto a viajantes do primeiro mundo, prorrogação da validade da carteira de motorista e por aí vai, construindo a imagem de um governante ativo e conectado com a velocidade dos tempos modernos.

 

Caiado, enquanto isso, fez muito pouco. Não conseguiu sequer preencher todos os cargos de direção do seu governo, mesmo o de magna importância, como as diretorias operacionais da ex-Agetop, agora Goinfra. Sua reforma administrativa, por enquanto, é uma promessa, com o governo seguindo em frente saturado de cargos e órgãos desnecessários. Não apresentou ainda qualquer projeto de relevância para a vida dos goianos. Diminuiu uma taxa que o Detran cobrava dos compradores de veículos. Só. Nenhuma proposta, seja pequena seja grande. Repete diariamente que “podem confiar, agora Goiás vai ter rumo”, porém não deu a menor pista sobre que rumo seria esse. A morte de uma criança de cinco anos nos corredores do Hospital Materno-Infantil, xodó dos olhos de Caiado, jogou o seu governo contra a parede, com ele se recolhendo a um silêncio constrangedor. O que temos é um governador sorridente, de voz tonitruante, que afrouxa seus controles morais para permitir, no governo, situações incompatíveis com a sua antiga biografia ética e moral. E inoperante – classificação que ele precisa desmentir antes que seja tarde demais.

30 mar

Caiado 90 dias: como um governador espetacularmente eleito prometendo mudança vai aos poucos se transformando em mais do mesmo e em repetição dos malfeitos do passado

Não há crítica que se faça ao governador Ronaldo Caiado que não seja respondida, antes de qualquer outro argumento, pela afirmação de que ele está apenas iniciando a sua gestão, que recebeu uma herança maldita  e que é injusto cobrar resultados com tão pouco tempo de mandato. Esse lenga-lenga, nos dias de antanho, quando o mundo caminhava em marcha lenta, sem a velocidade dos modernos meios de interação e comunicação, até poderia ter algum sentido. Mas, hoje, de jeito nenhum.

 

Noventa dias são tempo demais. E, somando-se a isso os três meses anteriores, contados desde a data em que Caiado foi eleito, transformam-se em 180 dias ou seis meses. Seis meses como governador eleito e em seguida empossado. Isso, leitora e leitor, representa uma eternidade. Que, até agora, não serviu para muita coisa em relação ao que o novo governador prometeu na campanha – a tal da mudança, que, mesmo sem ser explicada em detalhes ao eleitor goiano, em termos de propostas e ideias, fez com que o resultado da eleição fosse definido em 1º turno, com votação recorde.

 

Em vez de transformação do Estado, o que se tem é uma semelhança cada vez maior com o que havia no passado. Pequenos deslizes vão se acumulando aqui e ali, em meio ao ritmo moroso de um governador que queima os dias úteis da semana atrás de um utópico apoio financeiro de Brasília – coisa que só por milagre virá. Faltou ouvir, aqui, a lição de um velho e experiente administrador, Iris Rezende: no governo, conte só com os seus meios e recursos, jamais espera nada de fora. Caiado ou nunca ouviu ou, se ouviu, não deu bola para esse ensinamento. Goiás parou aguardando que o governo federal faça o que sistematicamente tem se recusado a fazer nas últimas décadas, ou seja, abrir as arcas do Tesouro Nacional para enviar ao Estado qualquer tipo de ajuda financeira.

 

Aos poucos, o novo governador afrouxa seus controles morais e éticos e dilata a sua tolerância. Trouxe secretários em excesso de fora porque não confia em ninguém de Goiás e, de resto, neles também. Alguns já o traíram, como o presidente da Saneago, o paranaense Ricardo Soaviski, que admitiu um assessor de alto nível enrolado com falcatruas dentro da empresa, preso tempos atrás e agora engaiolado de novo (Robson Salazar, solto por um habeas-corpus na última sexta). Outros o premiaram com uma absoluta inépcia, como o titular da pasta da Saúde, Ismael Alexandrino, que se escondeu no episódio da morte de uma criança de 5 anos nos corredores do Hospital Materno Infantil.

 

Mais? Caiado nomeou para a Agehab um ex-prefeito que é réu em quatro ações de improbidade, uma delas exatamente por desvios na construção de casas populares. Para o Conselho Estadual de Educação, pediu o aval da Assembleia para seis nomes que nada têm a ver com a educação pública estadual. Um deles, acreditem, leitora e leitor, condenado em dezembro último a mais de sete anos de prisão por desviar recursos da Câmara Municipal de Crixás. E acresça-se a tudo isso a parentalha dos Ramos Caiado, que infesta o governo com a doença do nepotismo – talvez legal em alguns casos, mas imoral em todos.

 

É assim que, aos poucos, se suja uma biografia limpa. A blindagem moral de qualquer gestor público não é rompida apenas por grandes explosões, mas também através de pequenos furos, que vão se somando até romper de vez com o dique.

30 mar

Morte de criança nos corredores do Hospital Materno-Infantil, depois de 11 horas aguardando internação, soa como a hora em que Caiado deveria parar de falar, falar, falar e passar finalmente a agir

A morte de uma criança de 5 anos nos corredores do Hospital Materno-Infantil, depois de 11 horas aguardando internação, deveria servir ao menos para chamar o governador Ronaldo Caiado à realidade e fazê-lo entender que precisa parar de falar, falar, falar e finalmente passar a agir concretamente para fazer a mudança que anunciou na campanha e o fez destinatário de uma votação histórica – que deu a ele vitória no 1º turno.

 

O Hospital Materno-Infantil é emblemático para Caiado. Somente depois de tomar posse, ele o visitou quase 10 vezes, achou tempo até para inaugurar uma incubadora e envolver em uma das grandes sacadas de marketing do seu governo, ao mandar leiloar dois carros de luxo da frota do Palácio das Esmeraldas e entregar os recursos arrecadados ao estabelecimento. No saguão e na porta de entrada do HMI, o governador deu entrevistas em que lembrou aos goianos que é médico e nessa condição saberia como implantar o melhor atendimento médico possível para a população, realizando a transformação com que se comprometeu para ganhar a eleição. A morte do menino Diogo, exatamente quando Caiado completou três meses de mandato, é um tapa na cara dele e da sociedade, que tem sido complacente com uma gestão que tarda em avançar e até hoje não saiu do discurso político para apresentar medidas que realmente levem alento para a população. Três meses são muito tempo.

 

Para piorar o que já estava ruim, Caiado e seu secretário da Saúde Ismael Alexandrino calaram-se vergonhosamente sobre a tragédia que ocorreu no Hospital Materno-Infantil. Não apareceram nem para repetir o mote batido de que a culpa seria do governo anterior. Ninguém se manifestou, nem sequer para enviar flores protocolares para consolar a família. Uma tia do garoto, ouvida pela imprensa, pronunciou a frase que se transformou na manchete dos jornais e noticiosos televisivos: “Quantos Diogos terão que morrer?”, extraindo do triste episódio uma lição de dignidade que o governador e seu secretário da Saúde parece que ainda não aprenderam.

 

Quantos Diogos terão que morrer, governador Caiado?

29 mar

Fátima Gavioli imprudentemente indicou nomes que não conhecia para representar a Secretaria de Educação no Conselho Estadual de Educação, afrontando a Constituição. E Caiado aceitou

É um desastre a mensagem do governador Ronaldo Caiado à Assembleia Legislativa pedindo aprovação para seis novos nomes para o Conselho Estadual de Educação, como representantes da Secretaria Estadual de Educação. Nenhum dos indicados tem minimamente qualquer experiência com a rede estadual de ensino, como exige a Constituição do Estado de Goiás, e, pior, alguns têm óbices como condenações criminais ou formação e experiência em áreas que nada têm a ver com a Educação, como o marketing político, caso de um deles, ou, ainda, apresentam como qualificação maior o parentesco com Caiado.

 

Tudo começou com um ofício da secretária Fátima Gavioli(foto), encaminhando seis nomes ao governador, que por sua vez aceitou sem questionamentos a sugestão e os repassou à apreciação da Assembleia. Provavelmente, sem uma avaliação mais profunda ou séria. A Constituição Estadual exige que os representantes da Secretaria de Educação no Conselho Estadual de Educação tenham conhecimento e experiência na área do magistério do ensino fundamental público, coisa que nenhum deles pode exibir. Um vexame, mas que leva a assinatura de Caiado, sim, o mesmo Caiado que a cada dia repete que a Educação em Goiás vai passar por uma mudança e evoluir para uma nova realidade, mas não tem o menor pejo em indicar para o CEE um dirigente do seu partido, o DEM, condenado em dezembro último a mais de 7 anos de cadeia por corrupção – algo que pode ser definido como um péssimo exemplo, ou, no limite, como uma aprovação do governador a quem comete delitos e é erigido à condição de orientador/formulador da política educacional do Estado, exatamente o contrário do discurso que o elegeu.

 

Quem compulsa o processo que está na Assembleia sobre os novos membros do CEE – nenhum deles qualificado conforme as regras constitucionais ou diante das exigências colocada para um educador – verifica que Caiado assinou sem ler ou, se leu, agiu de má fé, no intuito de premiar aliados e familiares. Isso seria admissível, embora questionável, em qualquer espaço do governo, menos em um fórum superior como o Conselho Estadual de Educação. Não dá para aceitar. E é de se perguntar: cadê o candidato que venceu as eleições prometendo ética, mudança e correção moral para o governo de Goiás?

29 mar

Depois de empurrar um presidente goela abaixo do Palácio das Esmeraldas, Assembleia prepara-se para impor segunda derrota maiúscula a Caiado, com a ampliação do orçamento impositivo para 1,2%

Há um clima de conspiração na Assembleia Legislativa: os deputados, em sua maioria, preparam-se para aprovar o projeto que torna obrigatório e automático o pagamento das emendas orçamentárias apresentadas por eles próprios, subindo de 0,5% para 1,2% o percentual delas sobre o orçamento geral – hoje inscritas na rubricas de restos a pagar, mas de onde serão retiradas, conforme o texto do deputado oposicionista Talles Barreto já encaminhado e só não aprovado ainda diante de manobras quase que desesperadas da liderança do governo, em fase de esgotamento.

 

Será a segunda derrota de grandes proporções do Palácio das Esmeraldas, depois da eleição de Lissauer Vieira em completa dissonância com os interesses do governador Ronaldo Caiado na Assembleia. Nas últimas sessões, os poucos deputados que atendem aos interesses do governo se desdobraram em artifícios para protelar a votação da emenda, no momento retardada por um pedido de vistas de Álvaro Guimarães, do DEM, espécie de líder informal do governo, mais atuante nessa função que o oficialmente designado Bruno Peixoto, do MDB.

 

Sob coordenação do deputado Iso Moreira, a propósito, caiadista de primeira hora, deputados têm se reunido com frequência em torno de um primado que elegeu Lissauer Vieira e parece convencer a todos: a afirmação da autonomia e da independência da Assembleia deve passar ao largo da formatação da base de apoio ao governo Caiado. Assim, seria lícito a qualquer um deles aproveitar-se da cota de R$ 30 mil em cargos oferecida pelo Executivo ou mesmo indicar nomes para as duas diretorias que estão sendo disponibilizadas para cada um, desde que aceite respaldar incondicionalmente o governo, porém dando-se ao direito de não abrir mão das vantagens garantidas pela condição de detentor de uma cadeira no Legislativo.

 

Entre essas vantagens, estaria o poder de emendar o orçamento, destinando recursos para os municípios e para entidades filantrópicas independentemente da necessidade de sanção pelo governador do Estado. Isso vale ouro: implica em ajudar à vontade entidades sociais, prefeituras, viabilização de pequenas obras e mais uma imensidão de projetos que reafirmam a presença do parlamentar em suas camadas sociais de sustentação mais profundas. É uma aspiração à qual é difícil se opor. Pior ainda no caso de um governo frágil politicamente, que não consegue demonstrar que dá importância aos deputados. É derrota certa para Caiado.

29 mar

Palavras do ex-reitor da UEG Haroldo Reimer admitindo que não deveria ter nomeado parentes, calam fundo, merecem elogios e servem de alerta para Caiado, que está lotando o governo de familiares

As desculpas são as mesmas: tanto o reitor de saída de Universidade do Estado de Goiás Haroldo Reimer(foto) quanto o governador do Estado de Goiás Ronaldo Caiado deram a mesma justificativa para a nomeação de parentes para as suas administrações: seriam competentes. Um e outro permitiram que dezenas de familiares seus e de pessoas próximas fossem indicados para cargos de destaque, Caiado para o governo, Reimer para a UEG. Mas há uma diferença.

 

E ela está em que Reimer surpreendentemente admitiu com todas as letras que “apesar de não haver objeção legal para as indicações, se tivesse refletido, não teria permitido que parentes fossem selecionados para atuação na UEG. Deveríamos  ter tido o cuidado de não nomear essas pessoas, mesmo com a capacidade comprovada, para evitar esses questionamentos. Repito: não há impedimento legal, mas analisando o caso agora, deveríamos ter feito seleção para todos os cargos”, disse o ex-reitor, conforme matéria publicada nesta sexta-feira em O Popular. No caso de Caiado, que já tem comprovadamente uma dúzia ou mais de familiares ocupando posições maiores ou menores no seu governo, a desculpa é a mesma, ou seja, a suposta competência, mas soa alto e incômoda a convicção de que se trata de um tipo de nepotismo legal, porém imoral.

 

É que Caiado nomeou primos, o que não configura nenhum tipo de transgressão: a legislação proíbe a indicação de parentes até o 3º grau e primos não o são. Mas é evidente que não deixam de ser parentes. Há sobrenomes Ramos Caiado por todo lado, no governo. Com um detalhe: inclusive em posições não formais, como a filha Anna Vitória e a mulher Gracinha, que participam de reuniões oficiais e anunciam decisões de Estado. Difícil de engolir em uma gestão presidida por um político que fez o nome pregando rigor ético radical e decência extrema.

 

O mea culpa de Haroldo Reimer merece aplausos e deveria funcionar como lição para Caiado. É uma atitude rara em ocupantes de cargos públicos, pelo Brasil afora. Em vez de insistir em defender o indefensável, Reimer admitiu – vejam bem, leitor e leitor – que, se tivesse refletido melhor, jamais teria feito o que fez . Depois de atos que o fizeram pequeno, ele se engradeceu. O bom exemplo está aí e Caiado, amiudado pela parentalha empregada, que o aproveite.

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