Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt e convidados sobre política, cultura e economia

15 mar

Leilão dos 2 carros de luxo que serviam aos governos passados: micromedida acertada, que simboliza o fim do desperdício e o início de um Estado enxuto e austero, como deve ser. Mas é preciso mais

Do ponto de vista do marketing, foi genial a jogada do governador Ronaldo Caiado ao leiloar os dois veículos de luxo que estavam na frota do Palácio das Esmeraldas e, até dezembro último, garantiam o conforto do governador e da primeira dama em seus deslocamentos. Mas sejamos justos: o lance vai muito além dos seus efeitos publicitários, ao simbolizar o momento em que, em Goiás, pode ter sido iniciada uma era de menos desperdícios e da imposição de uma certa austeridade a um Estado cansado de escândalos e de dinheiro público atirado pelo ralo.

 

Trata-se de uma micro-ação. Ou seja, não há efeito nenhum sobre as dificuldades de caixa do governo e a resolução do seu rombo financeiro. No entanto, descartar os dois supercarros carrega uma formidável semiótica. Palavra difícil? Bem, é fácil de entender. O leilão tem muito significado e não só para a sociedade, como para o próprio governo e seus integrantes. Vamos gastar menos com as nossas vaidades e mais com as políticas públicas que atendem às demandas da população.

 

Rápido para se livrar do incômodo dessas duas luxuosas máquinas de rodar, Caiado tem sido incrivelmente lento quanto ao resto. Daqui a alguns dias, completará três meses de mandato sem ter cortado despesas a fundo e sem começar a imprescindível reforma que o Estado reclama. Tal como os carrões declarados supérfluos, pululam sob o manto do governo órgãos sem nenhuma finalidade que não a de torrar o precioso dinheiro do povo, só quem em valores muito, mas muito superiores. Exemplos? A Goiásgás. A Celg Telecom. A Goiásparcerias. A Agência ABC, com suas estações de rádio e de TV que ninguém ouve ou assiste. Ou os escritórios de representação que Goiás tem em Brasília e em São Paulo. Para quê tudo isso? Para nada.

 

Caiado tem uma escolha: por um lado, pode ser o governador que levou o Estado ao reequilíbrio financeiro, mantendo a estrutura e as premissas que recebeu dos seus antecessores, por outro, tem tudo para se transformar no político que revolucionou Goiás e levou ao Brasil o novo paradigma de uma máquina pública eficaz, enxuta e 100% comprometida com os interesses do povo.

15 mar

Primeiro debate entre membros da CPI da Celg-Enel é de uma pobreza e falta de rumo que só confirma: a Assembleia não tem a menor condição de investigar nem privatizações nem incentivos fiscais

O jornal O Popular desta sexta-feira publica um resumo do “debate” entre quatro dos cinco deputados que compõem a Comissão Parlamentar de Inquérito que tem a finalidade de esclarecer a privatização da Celg e as milionárias vantagens fiscais e outras concedidas pelo governo de Goiás à nova proprietária da empresa, a Enel.

 

Engalfinharam-se em plenário o presidente da CPI, Henrique Arantes (PTB); o relator, Cairo Salim (PROS); o candidato derrotado a relator da comissão, Alysson Lima (PRB), que segue como seu integrante e Diego Sorgatto (PSDB), também integrante. O quinto membro, Chico KGL, prudentemente, não se manifestou, no que fez muito bem. O resumo exibido reportagem da jornalista Bruna Aidar, na página 6 de O Popular, é desanimador: só houve troca de acusações, ironias, alfinetadas e nada, mas absolutamente nada, relacionado com o verdadeiro objetivo da investigação.

 

Deputados que compõem uma CPI não têm necessariamente que conhecer a fundo o objeto da devassa de que estão encarregados. Isso é normal, principalmente no cenário atual da Assembleia, onde não se pode localizar entre os deputados talentos extraordinários. Mas devem, antes de mais nada, providenciar assessoramento qualificado e, por uma questão de bom senso, estudar minimamente o tema sobre o qual se debruçarão. CPI, assim, é faca de dois gumes. Pode chegar a bons resultados e consagrar seus componentes e a instituição parlamentar, como muitas vezes acabam dando em nada e terminam desmoralizando a todos. A última alternativa parece, por enquanto, ser o destino mais provável dessa.

 

O que está errado? Inicialmente, deveriam ser contratados técnicos e peritos independentes que entendam do que vai ser investigado e a requisição todos – rigorosamente todos – os documentos envolvidos. Não adianta pedir ajuda ao Ministério Público e aos Tribunais de Contas, que geralmente também não possuem esse conhecimento especializado e são pautados por uma visão formal das coisas. Pior ainda é a Procuradoria da Assembleia, que sempre se imiscui no andamento das CPIs da Casa e impõe a primazia do tratamento jurídico, inclusive na redação do relatório final, que toma para si, em um completo desvirtuamento do que seria realmente o recomendável. A CPI da Celg-Enel não está levando nenhum desses itens em consideração e deu partida no seu funcionamento meio que destrambelhadamente, aprovando a convocação dos ex-governadores Marconi Perillo e Zé Eliton para depor. Sim, será preciso, em algum momento, que eles falem, mas por enquanto a oitiva é totalmente inoportuna – uma vez que os parâmetros e focos que pautariam as averiguações sequer foram definidos e qualquer um dos dois que aparecer lá vai deixar os deputados sem saber o que dizer.

14 mar

Gosto de Caiado pela criação de grupos de trabalho, comissões, juntas e comitês gestores emperra o governo e adia indefinidamente decisões que já deveriam ter sido tomadas

Talvez produto de uma insegurança quanto as decisões que cabem ao Poder Executivo, natural em quem nunca exerceu atividades públicas a não ser como parlamentar, e também pela ausência de um planejamento quanto ao que fazer em suas semanas iniciais de gestão, o fato é que o governador Ronaldo Caiado tem um gosto acentuado pela formação de grupos de trabalho, comissões, juntas e comitês gestores aos quais ele atribui a responsabilidade de desenvolver estudos e avaliações sobre passos importantes que a sua gestão já deveria ter dado.

 

Desde o seu primeiro dia no Palácio das Esmeraldas que Caiado assina decretos sucessivos instituindo equipes para examinar assuntos estratégicos do governo e encaminhar sugestões, além de formular ideias para setores e situações estratégicas, como, por exemplo, a redução de despesas ou a definição de uma nova estrutura administrativa para o Estado. Só no último dia 12 de março, em um único decreto publicado no Diário Oficial, o de número 9.412, Caiado formou três grupos de trabalho, para apresentar mecanismos para mudar a gestão dos imóveis do Estado, mudar o funcionamento das atuais estatais e, mais uma vez, diminuir gastos – este último item já objeto de outro grupo criado na esfera da Secretaria da Economia.

 

Fora isso, já foi implantada na Secretaria de Planejamento uma turma para analisar a estrutura das atuais pastas e propor mudanças. E mais um comitê na esfera da Segplan e da Controladoria Geral, para coordenar o compliance que Caiado resolveu adotar para todos os órgãos governamentais. E ainda dois comitês: um para políticas públicas em geral e outro para o combate à violência contra as mulheres. Há mais, às vezes, como foi dito, uns sobrepondo-se a outros. E todos esses grupos receberam do governador prazos generosos para apresentar resultados, entre 90 a 120 dias. A consequência inevitável é que nada de concreto, até agora, foi feito em suas respectivas áreas, nem ações mínimas para economizar despesas. A leitora e o leitor já sabem: quando não se quer, resolver, cria-se uma comissão.

14 mar

Como é que um Estado em situação de calamidade financeira paga 44% da dívida herdada do governo passado em apenas dois meses? A única resposta é que não há calamidade financeira alguma

O governador Ronaldo Caiado, como se sabe, fala demais e não passa um dia sem despejar declarações e mais declarações em posts nas redes sociais, entrevistas a veículos de comunicação e discursos em solenidades oficiais ou não. Dentro dessa sua característica, chamou uma entrevista coletiva um anúncio, feliz, ao lado da secretária da Economia Cristiane Schmidt(foto acima): ao completar dois mandatos conseguiu pagar 44% da dívida herdada do governo passado, ou seja, quitou cerca de R$ 1,5 bilhões que estavam atrasados com os servidores, com fornecedores e com parcelas de empréstimos.

 

Louvável e sem dúvidas motivo para comemoração. Mas tem algo nessa notícia que incomoda: como é que um Estado declarado por decreto do governador em situação de calamidade financeira consegue liquidar quase a metade do seu rombo em apenas dois meses de trabalho do novo governo? Calamidade financeira é calamidade financeira, isto é, uma condição de falta de dinheiro para custear as obrigações mais básicas da administração, tipo liquidar pontualmente a folha, garantir a segurança dos cidadãos, manter as escolas em funcionamento e os hospitais atendendo a população. De tudo isso, só se registrou em Goiás o atraso de parte dos salários de dezembro, mesmo assim compensado pela antecipação do mês de janeiro e pagamento em dia quanto a fevereiro. Quanto ao resto, nenhum serviço público entrou em colapso, nada negativo aconteceu de extraordinário e para a maioria dos goianos, exceto os que levaram pança nos seus vencimentos de dezembro, a vida segue normal.

 

O decreto de calamidade financeira assinada por Caiado foi um tiro no pé. Projetou, para o país, uma imagem contraproducente de Goiás, transformado em Estado supostamente atolado no caos – o que não é verdade. E, juridicamente, tem a consistência de um papo de anjo, não servindo para bulhufas além de fazer barulho, o que abalou a credibilidade do novo governo. Estabeleça-se uma comparação com o Rio de Janeiro e ver-se-á a distância entre uma crise de verdade e outra, digamos, nem tanto assim. Ou com o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, em relação aos quais Goiás se coloca anos-luz à frente em matéria de equilíbrio financeiro. É claro que não estamos navegando em  mar de rosas ou voando em céu de brigadeiro, porém daí a proclamar aos quatro ventos um quadro de calamidade financeira vai, como demonstrou a quitação de 44% da dívida, uma distância enorme. Caiado desmentiu o próprio Caiado.

14 mar

Base de Caiado na Assembleia, se existir alguma, é precária e não dá suporte para a aprovação de qualquer matéria minimamente polêmica. Só dois deputados (neófitos) defendem o governador

O governador Ronaldo Caiado está completamente sem cobertura na Assembleia, mesmo depois da informação de que a sua base de apoio contaria com 23 deputados e mais três em negociação. Na verdade, o que se sente no Legislativo é um clima adverso para os interesses do governo – que, hoje, não tem nenhuma condição de levar matérias minimamente polêmicas à apreciação da Casa, a exemplo da segunda parte da reforma administrativa, que o Palácio das Esmeraldas, percebendo que a barra está pesada na Alameda dos Buritis, adiou para abril.

 

Basta acompanhar uma sessão qualquer para deduzir que o Executivo não conta com uma sustentação parlamentar sólida. A oposição aproveita todas as oportunidades para falar mal de Caiado, praticamente sem defesa porque, a seu favor, só abrem a boca os deputados neófitos Amauri Ribeiro e Delegado Humberto Teófilo, os dois ainda incapazes de concatenar um discurso de salvaguarda da nova administração. Não que debates na Assembleia tenham importância ou repercussão. É quase tudo palavrório à toa, mas, se for possível aproveitar alguma coisa para a partir daí avaliar as tendências para futuras votações no plenário, as perspectivas são as piores possíveis.

 

Caiado e a Assembleia, onde ele esteve raras vezes em sua trajetória política (só exerceu mandatos de deputado federal e de senador), parecem não se dar bem. Digamos que ele é um governador que não gosta ou não tem paciência para adular deputados e ouvir suas reivindicações. Mecanicamente, mandou o secretário de Governo Ernesto Roller oferecer cotas de R$ 30 mil reais em nomeações, para angariar alguma simpatia. Roller também colheu listas de indicações para cargos mais graduados. Um pouco disso tem saído. Mas a seco, sem que os nobres parlamentares se sintam valorizados – no máximo, engolidos goela abaixo.

 

A fórmula 23+3 que comporia a base de apoio do governo tem um pouco de ficção e mesmo se fosse real não oferece garantia nenhuma, dada a margem reduzida de maioria. Isso significa que o Palácio das Esmeraldas teria que negociar caso a caso e jamais poderia contar com a aprovação automática de projetos que tenham importância. Aliás, é isso que a Assembleia espera, com se estivesse em uma tocaia: que caia nas suas garras alguma matéria, como por exemplo a segunda parte da reforma administrativa, na qual o governo tenha interesse capital. Só aí é que vamos ver se existe ou não base e a aposta, por enquanto, é que não existe.

14 mar

Despreparo da Assembleia e dos 41 deputados para investigar a Celg-Enel e os incentivos fiscais é evidente e tanto que as CPIs estão começando errado e sem um rumo claro

A Assembleia Legislativa do Estado de Goiás e os seus 41 deputados estão se propondo a uma tarefa para a qual não têm o menor preparo ou conhecimento: em uma CPI, investigar a privatização da Celg e as regalias que foram concedidas à Enel e, em outra, fazer uma apuração sobre a política de incentivos fiscais e suas aberrações nos últimos 20 anos. Nem o Poder nem os parlamentares, individualmente, possuem qualificação para esse tipo de trabalho, que aborda temas complexos  e de difícil compreensão, extrapola as fronteiras do Estado e tem a ver com desafios agudos colocados para o desenvolvimento econômico em Goiás.

 

A primeira dessas duas CPIs a se instalar, a da Celg-Enel, já saiu fazendo besteira. Afoitamente, aprovou a convocação dos ex-governadores Marconi Perillo e Zé Eliton – medida necessária, mas que só poderia ser tomada depois de alguns passos fundamentais para a investigação, como, por exemplo, o acesso aos documentos que embasaram a privatização e uma primeira avaliação sobre o seu conteúdo. A antecipação do chamamento aos dois tucanos politizou a comissão mais cedo que o devido, tanto que o seu presidente Henrique Arantes (experiência zero no setor elétrico e mais ainda quanto a questões jurídicas) se apressou a dar declarações prometendo fazer o possível para evitar exploração tanto do governo quanto da oposição. Essa CPI, como se sabe, provocou um telefonema do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Joaquim Levi, ao governador Ronaldo Caiado, reclamando da má repercussão junto aos investidores e interessados nas privatizações que a gestão do presidente Jair Bolsonaro deve iniciar em breve.

 

No caso da CPI dos Incentivos Fiscais, é de dar dó a inaptidão dos deputados que a compõem para discutir o assunto. E, coitados, não é culpa deles: as benesses e regalias fiscais que drenaram a arrecadação de ICMS em Goiás nos últimos assuntos resultam de um emaranhado de leis, decretos, portarias e outras decisões herméticas e intrincadas, que somente especialistas em matéria tributária podem compreender a fundo. Para piorar, o relator Humberto Aidar anunciou que vai pedir ajuda a quem não tem condições ideais de ajudar: o Ministério Público e os Tribunais de Contas, que, sim, conhecem o problema, mas por viés apenas legal ou jurídico e mesmo assim superficialmente, estando longe de captar a essência desse quebra-cabeças que, de qualquer maneira, tem importância estratégica para a economia estadual.

 

Dizem que os novos donos da Celg, de seu lado, e os empresários beneficiados pelos incentivos fiscais, do seu, estariam preocupados com essas duas CPIs. Não deveriam. Se forem largadas para lá, não chegarão a lugar algum.

13 mar

Mudança de Marconi para São Paulo, do ponto de vista da estruturação da nova oposição que emergiu das urnas do ano passado, foi ideia infeliz que hoje está prejudicando até a defesa do ex-governador

Poucas vezes em sua vitoriosa carreira política o ex-governador Marconi Perillo terá tomado uma decisão tão infeliz quanto a de se mudar para São Paulo logo após o trágico resultado que colheu nas urnas do ano passado, acompanhado pela deflagração do cerco judicial de que está sendo alvo – uma provação e tanto para qualquer político, mais ainda para quem passou 20 anos no topo do poder em Goiás e no Brasil.

 

É fácil deduzir que Marconi calculou mal. Ele supôs que a derrota eleitoral e os processos o haviam encurralado e que seria estratégico se afastar do palco principal para cuidar na surdina da reorganização do seu campo político e da sua defesa forense. Mais: julgou que Ronaldo Caiado, consagrado pelo voto popular, assumiria o governo em um processo de ascensão política ainda maior, ocupando todos os espaços e não deixando a menor margem aos adversários que aniquilou no pleito de sete de outubro. E ainda: acostumado a ser tratado como um semideus, o ex-governador teve um baque pessoal muito forte ao se ver repentinamente transformado em uma espécie de Geni em que todos atiram pedras, como imortalizado na canção de Chico Buarque.

 

Tudo errado. A fuga para São Paulo só trouxe prejuízos. Os tucanos goianos e seus aliados, mesmo reduzidos a um pequeno número, ficaram sem orientação e sem a energia que emanava do seu líder de sempre e ainda não conseguiram se estruturar como oposição. Caiado, de seu lado, não correspondeu à mudança que prometeu e hoje é um governador que reúne a imprensa para anunciar que o número de bêbados presos no carnaval foi menor que o do ano passado. Salários do funcionalismo e buracos nas rodovias estaduais são a sua pauta diária. Politicamente, abriu-se uma clareira onde menos se esperava, com o novo governo na defensiva e momentaneamente tonto, sem se afirmar com propostas e projetos realmente inovadores para Goiás e sem uma agenda objetiva para a reorganização do Estado e a recuperação do seu equilíbrio financeiro, pelo menos até agora.

 

À distância, pelo telefone e pelo WhatsApp, Marconi faz o que pode para coordenar as suas tropas, sem grandes resultados. Ou melhor: até conseguiu alguma coisa, ao influir decisivamente na derrota que Caiado teve na disputa pela presidência da Assembleia, com a eleição de Lissauer Vieira – produto da intuição excepcional que o ex-governador tem em matéria de assuntos políticos. Mas foi um tiro isolado, aliás tiro não, balaço de canhão contra o Palácio das Esmeraldas. Mesmo assim, a lacuna aberta pela sua ausência fala alto. E, se continuar em São Paulo, os danos só vão se ampliar.

13 mar

Governo de Caiado não começou com a força que se imaginava, cometeu uma coleção de erros e hesita em tomar as decisões necessárias. A sorte é que a oposição também está sem rumo e igualmente fraca

Não adianta tapar o sol com a peneira; o governador Ronaldo Caiado quebrou as expectativas sobre um início de mandato arrasador, quando cumpriria uma agenda 100% positiva de reorganização do Estado e definição de novos rumos para o desenvolvimento de Goiás, e acabou tragado por um desempenho pouco mais que medíocre ou no máximo rotineiro, envolvido o tempo todo com um debate estéril sobre os salários do funcionalismo e agora consumindo o seu tempo procurando soluções paliativas para a buraqueira que, com as chuvas, tomou conta das rodovias estaduais.

 

Não era o que se esperava de quem saiu das urnas com uma vitória histórica, no 1º turno, com mais de 60% dos votos. Caiado não conseguiu esconder as suas dificuldades com os desafios administrativos, mostrou-se um governante que fala muito, muito mesmo, mas não dialoga com a sociedade e até hoje – quase seis meses depois de eleito e completando três meses de governo – não colocou nas mesas as suas propostas e muito menos as soluções que são urgentes para diminuir as despesas, aumentar a arrecadação e conduzir Goiás ao reequilíbrio financeiro.

 

A sorte de Caiado é que a oposição também patina e ainda não exibiu qualquer capacidade para  cumprir o dever e a obrigação de se contrapor de forma inteligente ao governo. O grupo que mandou no Estado nos últimos 20 anos esfacelou-se com uma rapidez inusitada após a derrota eleitoral e hoje, dos seus escombros, restam pouquíssimas e tímidas vozes, incapazes de críticas consistentes. Para piorar as coisas, o líder natural da nova oposição, ou seja, o ex-governador Marconi Perillo, cometeu o grave equívoco de mudar-se para São Paulo e passar a fazer política pelo telefone (e WhatsApp). É induvidável que Marconi acreditou que Caiado, em seus passos iniciais, decolaria como um foguete, aumentando ainda mais a aprovação que ganhou no pleito e que, daí, seria estratégico mergulhar e ceder todos os espaços ao novo governador, à espera de um momento mais oportuno. Crasso engano: o governo enredou-se em miudezas com rapidez, caminhou e caminha a passo de cágado, só trouxe mudanças no discurso e com isso abriu um vácuo que deveria ser, porém não foi ocupado pela oposição nem aproveitado por Marconi para fazer a sua defesa.

 

É uma situação nunca vista antes em Goiás: governo e oposição fracos.

12 mar

Governo federal pressiona Caiado e argumenta que CPI sobre a venda da Celg e a revogação benefícios fiscais e vantagens concedidas à Enel afetam negativamente as privatizações do governo Bolsonaro

A CPI da Assembleia Legislativa sobre a operação de venda da Celg e os projetos de lei que revogam isenções fiscais concedidas à Enel (em tramitação) e modificam cláusulas do contrato de privatização da empresa (matéria encaminhada pelo Executivo e já aprovada pelo Legislativo) podem afetar negativamente a política de privatizações do governo federal, ao passar aos investidores nacionais e internacionais uma imagem de insegurança jurídica e de quebra de contratos que seria nociva para a confiança no Brasil.

 

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDEs Joaquim Levi telefonou a Caiado(na foto acima, os dois em evento recente em Brasília) para reclamar do que está acontecendo em Goiás, segundo ele com repercussão internacional, extremamente prejudicial para a reputação do país e com potencial para prejudicar a política de transferência de ativos para a iniciativa privada que o presidente Jair Bolsonaro está prestes a deflagrar.

 

Esses acontecimentos – a CPI e os dois projetos, o aprovado e o ainda em andamento – enfraqueceram a autoridade de Caiado frente a equipe econômica liderada pelo ministro da Economia Paulo Guedes ao mostrar que governador foi imprudente ao não fazer consultas preliminares sobre uma decisão tão importante quanto a de impor novas responsabilidades à Enel, e ainda por cima mostrou falta de controle sobre a Assembleia, ao permitir a CPI que vai investigar a privatização da Celg e ao deixar que seja criada a expectativa de revogação das regalias fiscais que foram essenciais para que a companhia italiana adquirisse a estatal goiana de energia. O governo goiano, como se sabe, tem passado o chapéu em Brasília atrás de apoio financeiro para o seu reequilíbrio financeiro.

 

Conforme o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás Sandro Mabel, a CPI sobre a Celg-Enel, com o acréscimo de outra sobre os incentivos fiscais, além das iniciativas que modificaram e podem aprofundar ainda mais as alterações colocadas na época da privatização da Celg, representam claramente uma quebra de contrato e abalam a credibilidade do Estado quanto ao seu potencial para atração de investimentos. Vê-se agora que tudo isso vai mais longe e pode afetar a estratégia de privatizações do governo Bolsonaro, pelo menos segundo o presidente do BNDEs Joaquim Levi.

12 mar

Caiado quer ajuda da Polícia Federal e do Ministério da Justiça para investigar os incentivos fiscais nos últimos 20 anos e já comentou que pode haver aí mais corrupção que o apurado pela Operação Lava Jato

O governador Ronaldo Caiado ainda não sabe como, mas estuda pedir a colaboração da Polícia Federal e do Ministério Justiça, através da sua divisão de rastreamento de crimes financeiros, para investigar em profundidade os incentivos fiscais concedidos nos últimos 20 anos em Goiás.

 

A Assembleia Legislativa está instalando uma CPI com o mesmo objetivo, mas Caiado parece não acreditar que essa averiguação possa proporcionar resultados confiáveis, diante das pressões sobre os deputados que virão da parte dos empresários beneficiados – e todos eles são de grosso calibre monetário. Uma CPI com fins semelhantes, em Mato Grosso, terminou com a troca de acusações de recebimento de propinas entre os seus integrantes, relacionadas com a proteção das empresas envolvidas.

 

Os incentivos fiscais são o item mais delicado e sensível da agenda do novo governo, que se divide entre duas vertentes: uma, comandada pela secretária da Economia Cristiane Schmidt, favorável a uma revisão radical nessas benesses para conquistar o reequilíbrio das finanças estaduais, e outra, sob liderança do secretário da Indústria & Comércio Wilder Morais, que defende abertamente a manutenção do status quo, senão a sua ampliação. O governador, pessoalmente, parece inclinado a algum tipo de alteração nessa política, mas, de qualquer modo, em decorrência da sua natureza, pretende passar um pente fino em todas as isenções de ICMS e demais regalias distribuídas nas últimas duas décadas para localizar irregularidades ou até mesmo eventos criminais – Caiado já comentou que por trás da concessão desenfreada de vantagens tributárias pode haver um escândalo em valor muito maior que os casos de corrupção desvendados pela Operação Lava Jato.

12 mar

Secretários de fora viajaram para casa no carnaval e muitos até hoje não reassumiram, como a professora Fátima Gavioli – ela e o grande número de assessores que foi importado de Rondônia

Uma consequência do grande número de secretários que o governador Ronaldo Caiado trouxe de fora é que, no final das contas, todos eles aproveitam feriados e demais oportunidades – como o carnaval, que não é feriado oficial – para viajar para as suas casas espalhadas por todo o país.

 

Com a prolongada paralisação das festas de Momo, muitos deles se abalaram para os seus Estados de origem e, como por exemplo a professora Fátima Gavioli, titular da Secretaria da Educação, até hoje não retornaram ao batente.

 

Mais grave: junto com Gavioli, em um fenômeno repetido nas demais pastas, viajaram também os assessores que cada um trouxe e continua trazendo de outra regiões do Brasil. Na Educação, pelo menos seis cargos de importância foram ocupados por convidados que vieram de Rondônia, Estado onde a atual secretária desenvolveu a sua carreira profissional e esteve em igual posição: Márcia Matheus Teixeira Gouveia, que ficou com o cargo mais importante depois da secretária, ou seja, a Superintendência Executiva; Etel de Souza Júnior, superintendente de Gestão, Planejamento e Finanças; Giordani dos Santos Lima, superintendente de Gestão de Pessoas; Carla Simone Oliveira Nóbrega, gerente de Melhoria de Processos e Capacitação de Recursos; Pedro Aurélio Gusman de Figueiredo, superintendente de TI; e Thais Gomes Monvailer, chefe do Núcleo de Integração de Dados e Informações Estratégicas (mas, na verdade, encarregada das redes sociais de Fátima Gavioli, em desvio de função para se habilitar a um salário maior, infelizmente ocupando um cargo chave para os objetivos da Seduce). Do menor, que é a chefia de Núcleo, até o maior, a Superintendência Executiva, esses rondonianos recebem salários entre R$ 10 a 18 mil mensais.

 

Resta saber se essas viagens estão sendo custeadas pelo Estado.

12 mar

Dividindo espaço na mídia com a questão dos salários, excesso de buraco nas rodovias estaduais é a nova agenda negativa do governo Caiado – também sem perspectiva de solução a curto prazo

A questão dos salários do funcionalismo – o não pagamento de grande parte do mês de dezembro e a divisão da folha entre ativos e inativos, os primeiros recebendo dentro do mês e os demais no mês seguinte – ganhou concorrência no espaço negativo da mídia regional: cresceu e apareceu o noticiário sobre o excesso de buracos nas rodovias estaduais, com trechos em situação de verdadeira catástrofe diariamente destacados pela mídia.

 

Há um quê de descuido do governador Ronaldo Caiado com essa nova polêmica. Ele alega que, quando assumiu, os serviços de manutenção das estradas não estavam sendo prestados pelas empreiteiras em razão do atraso no pagamento das suas faturas. Pode ser. Porém, em vez de atacar o problema com medidas concretas e eficazes, Caiado optou por procurar prefeituras e propor convênios para que elas se encarregassem da operação tapa-buracos – com o claro propósito de reforçar o seu discurso de calamidade financeira e de falta de recursos. Não deu certo, é evidente. Municípios não têm dinheiro para nada. E, de resto, gastar com rodovias que estão fora da sua jurisdição tem o risco de vir a ser declarado ilegal e, mais tarde, trazer a responsabilização pessoal dos prefeitos.

 

Houve uma combinação de amadorismo com ingenuidade, enquanto as chuvas iam se intensificando e destruindo a malha viária pelo Estado afora. Para completar esse quadro danoso, a antiga Agetop, transformada em Goinfra, praticamente entrou em colapso, com a troca do seu presidente – saiu um Caiado, Aderbal, entrou outro Caiado, Ênio – em menos de 20 dias de governo e, fatidicamente até hoje, as suas três diretorias operacionais ainda sem titulares. Esse impasse prejudicou a a busca de uma solução para as estradas, que, agora, chegaram a uma condição de grave comprometimento e passaram a alimentar uma guerra de versões entre o atual governo e o passado que ressuscitou até o ex-presidente da Agetop Jayme Rincon, afeito a um bom bate-boca. Enquanto isso, o que interessa para os usuários, ou seja, tráfego seguro e liberado, segue piorando a olhos vistos.

11 mar

Segundo maior erro de Caiado (o primeiro é a decisão de não pagar a folha de dezembro) foi deixar de fazer uma operação de manutenção e largar as estradas estaduais se deteriorando com as chuvas

O governador Ronaldo Caiado vai completar o terceiro mês da sua gestão sem providências consistentes quanto ao efeito deletério que as chuvas desta época do ano têm sobre as rodovias estaduais. Caiado não organizou nenhuma operação de reparos de emergência nas estradas e o resultado é que os buracos não só proliferam, como vão se emendando uns aos outros, praticamente destruindo trechos da malha asfáltica mais utilizados. O que aconteceu com um ponto da GO-060, nas proximidades de Israelândia, tragado pelas águas e sem condições de tráfego, é só um aperitivo do que vem por aí, em razão do abandono ou inexistência de serviços de manutenção – que seriam de competência da Goinfra, antiga Agetop.

 

Em vez de deflagrar uma operação de emergência assentada na contratação de empreiteiras para dar algum tipo de conservação às rodovias, Caiado preferiu apelar para a ajuda dos prefeitos, pedindo que enviassem homens e máquinas para fazer os consertos – ideia infeliz, já que os municípios, em sua maioria, não têm recursos nem para tapar buracos nas suas ruas urbanas nem para quase nada. Em consequência, as estradas ficaram ao deus dará, situação que deve se agravar, neste março, com a intensificação das chuvas que sempre ocorre na reta final da temporada das águas em Goiás. Não vai adiantar desfiar, como justificativa, o discurso de que a culpa é do governo anterior.

 

Tudo isso vai gerar consequências que vão levar o novo governo a se arrepender da sua inação: trechos que poderiam ter sido resguardados terão que ser reconstruídos, a um custo muito maior, obviamente, além dos pesados desgastes que serão impostos à imagem de Caiado e sua administração, que, a propósito, até hoje não completou o comando da Goinfra, onde três diretorias ainda estão em aberto.

 

Esse erro, em escala de grandeza, pode ser comparado pelos seus desdobramentos com a decisão de não pagar a maior parte da folha de dezembro do funcionalismo, responsável por abrir brechas profundas na aceitação popular do governo – é fato que existem pelo menos três pesquisas de avaliação, desenvolvidas por um instituto de credibilidade em Aparecida, Catalão e Caldas Novas, em que Caiado aparece com no máximo 33% de bom e ótimo.

10 mar

Um vendeu a usina de Cachoeira Dourada. Outro botou fora a Celg. Ambos pulverizaram o dinheiro que entrou. Esses dois crimes contra Goiás e os goianos nivelam por baixo os governos do MDB e do PSDB

O MDB e o PSDB, tecnicamente adversários históricos em Goiás, estão nivelados por baixo na semelhança dos crimes que cometeram, ao vender, um, a usina de Cachoeira Dourada, outro, a Celg, igualando-se na irresponsabilidade administrativa que levou à pulverização dos recursos apurados, sem repercussão no desenvolvimento do Estado.

 

A privatização de Cachoeira Dourada, pelo governador Maguito Vilela, e em seguida a da Celg, pelo seu sucessor Marconi Perillo, proporcionaram o ingresso de montanhas de dinheiro no caixa governamental, mas tudo foi torrado em seguida graças à falta de planejamento e de visão dos dois governantes. Não houve, nos dois casos, planejamento algum sobre o destino dos recursos que seriam arrecadados e o resultado é que esses dois portentos do patrimônio público dos goianos se esvaíram pelo ralo.

 

Neste domingo, O Popular publica um detalhado levantamento sobre o esfarinhamento dos mais de R$ 1 bilhão que entraram por conta da venda da Celg. Exaustivamente, no passado, já se mostrou como a fortuna recebida por Cachoeira Dourada foi estilhaçada em gastos banais, quando, como se demonstrou na época, poderia ter rendido um espetacular aumento de 1 ponto na evolução do PIB estadual – e, acreditem, leitora e leitor, 1 ponto parece numericamente pouco, mas é muita, muita coisa em termos de cenário econômico. Nos dois casos, desperdiçou-se a hipótese de um precioso financiamento para levar o Estado a um avanço significativo, com benefícios sem conta para a sua população. Um e outro. Outro e um. MDB e PSDB sem qualquer diferença quanto a imprudência dos seus atos de governo, marcados para sempre pela história pelo tamanho dos equívocos cometidos.

10 mar

Crítica de Maguito é correta: Caiado está sem projeto para Goiás e isso é ruim. Mas parar de falar das malfeitorias do passado, aí não. O que se fez de errado tem de ser exposto para nunca mais se repetir

Em uma rara entrevista de uma página ao jornal O Popular, neste domingo, o ex-prefeito de Aparecida Maguito Vilela(acima, na foto do competente Diomício Gomes que ilustra a matéria) dispara críticas acertadíssimas ao governador Ronaldo Caiado, a quem acusa de ainda não ter mostrado o seu projeto para Goiás e conclama a atuar com mais eficiência para tirar o Estado da paralisação. É mais ou menos o que o seu filho Daniel Vilela, que perdeu a eleição para Caiado, vinha dizendo, com um acréscimo: segundo Maguito, Caiado “deveria trabalhar e não ficar chorando e falando no passado”.

 

Vamos lá: não há como não concordar com a afirmação de que o novo governo ainda não apresentou o que pretende para Goiás. E isso quase seis meses depois da eleição e também quase três meses após a posse. Caiado fala demais, provável cacoete adquirido nos seus longos anos como parlamentar, porém faz pouco, agarrando-se a miudezas como o balanço supostamente positivo das ocorrências policiais no carnaval ou a discussão diária sobre o paga-não-paga dos salários do funcionalismo, com destaque para a pança que os respectivos levaram quanto ao mês de dezembro. Propostas substanciais para o Estado, nenhuma. Medidas concretas para atenuar a crise fiscal do governo, que se alardeia aos quatro ventos, não foram tomadas até hoje – anunciando-se que estão proteladas para abril.

 

Ponto para Maguito, portanto, muito embora tenha dito o que até as pedras portuguesas da Praça Cívica já sabiam. A penúria de ideias da nova gestão é patente. Ocorre que o ex-prefeito de Aparecida entende ainda que Caiado estaria perdendo tempo ao denunciar o caos financeiro e administrativo que encontrou. Que isso seria improdutivo. Ou seja: que todos os erros (e inclusive crimes, porque os há) dos últimos governos deveriam ser esquecidos e que uma borracha precisa ser esfregada em tudo que houve. Nesse ponto não dá para concordar com Maguito. Apagar o desmazelo e a incúria dos últimos governantes – e Maguito está entre eles – seria faltar com a responsabilidade de quem assumiu o cargo mais importante de Goiás e precisa revelar quem contribuiu e como a situação do Estado chegou a esse grau de calamidade.

 

De Caiado, espera-se que cumpra o seu dever e a missão que recebeu das urnas, resumida na obrigação de fazer um bom governo. Está incluído aí rasgar a fantasia que foi vendida aos goianos sobre um Estado maravilhoso, navegando em mar de rosas. Não era verdade. Quem não quer que isso seja desvendado é só quem tem culpa no cartório.

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