Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

08 maio

Projeto que elimina 60 mil jovens do Passe Livre Estudantil – e não o da segunda parte da reforma administrativa – é que será o verdadeiro teste para a base de Caiado na Assembleia, ainda não formatada

Está claro como a luz do dia: o verdadeiro teste para a hipotética base de apoio ao governador Ronaldo Caiado na Assembleia será a votação do projeto que elimina 60 mil jovens do Passe Livre Estudantil – e não o que trata da segunda parte da reforma administrativa, como se pensava a princípio. A avaliação que sempre predominou era que o tamanho do respaldo a Caiado, entre os deputados, somente seria visível a partir da tramitação de uma matéria polêmica no Legislativo, característica que a reforma administrativa perdeu pela sua timidez e pouco efeito prático para o Estado.

 

Já com o Passe Livre Estudantil, é diferente. As mudanças propostas pelo novo governo, ao impor um corte drástico ao número de beneficiados, têm tudo para motivar uma discussão acalorada e também alta capacidade de combustão, isto é, de repercussão social, dado ao público envolvido – a juventude. Para a oposição, trata-se de uma oportunidade de ouro para impor desgastes ao Palácio das Esmeraldas, Para a situação, um drama: como se posicionar favoravelmente ao projeto e levar os deputados eventualmente dispostos ou convencidos a votar pela aprovação de um projeto que não foi debatido preliminarmente com ninguém e tem elevado potencial negativo?

 

Digamos assim: a reforma administrativa é praticamente inócua em termos políticos ou sociais, enquanto a proposta de reformulação do Passe Livre Estudantil é incendiária no seu objetivo de diminuir radicalmente os gastos coma sua manutenção, às custas da expulsão de milhares e milhares de jovens do programa. Se houver alguma base de apoio ao governo na Assembleia, agora será a hora do vamos ver.

08 maio

Reforma administrativa deve passar sem maiores problemas na Assembleia, mesmo com o governo ainda sem uma base de apoio formatada. O motivo? Não faz mudanças realmente importantes

O projeto da segunda parte da reforma administrativa deve ser aprovado pela Assembleia Legislativa, provavelmente com alguns acréscimos que os deputados farão, mas sem tocar no seu conteúdo. É que a matéria não tem nada de polêmico, promove cortes ínfimos nas despesas do Estado e basicamente se concentra em uma reorganização jurídica do quadro de funcionários comissionados – cujos cortes já foram cantados e decantados desde o primeiro dia da posse do governador Ronaldo Caiado e sempre foram sobejamente conhecidos

 

Não há novidades, portanto. E, não havendo, não existe razão plausível para que a reforma não seja ratificada pelos parlamentares. A apreciação não valerá como teste para a existência ou não de uma base de apoio ao Palácio das Esmeraldas, na Assembleia. Esperava-se um projeto que, no final das contas, diante da expectativa criada, acabaria mexendo com a estrutura administrativa do Estado, diminuindo órgãos, promovendo privatizações e extinções e, de fato, capaz de alterar de alguma forma mais radical o modelo em que a máquina governamental está hoje assentada. Fiasco. Não aconteceu nada disso. Um deputado de oposição consultado por este blog garantiu que a reforma é tão pouco ousada que não há como nem mesmo arguir alguns pontos para efeito de exploração política. “Não há por que não votar a favor. Não compensa ficar contra”, resumiu.

 

Como Caiado vive repetindo que está fazendo o “dever de casa” em termos de economia e inclusive, na sua visão, achando que estaria mais apto que qualquer ou governador de Estado a receber socorro de Brasília, imaginava-se que a segunda parte do seu arranjo administrativo teria pitadas de algo revolucionário e talvez até com alguma profundidade. Como as 257 páginas encaminhadas à Assembleia não trazem nada disso, não há motivo para debates. Do ponto de vista dos deputados, é votar a favor e ponto final.

08 maio

Inação nos primeiros meses de governo, mais falta de planejamento, custam caro para Caiado, que toca a sua gestão ao sabor de ações pontuais e muitas vezes simplesmente improvisadas

Já dentro do oitavo mês desde que foi eleito, a 7 de outubro do ano passado, o governador Ronaldo Caiado parece não dispor de nenhum planejamento para a sua gestão – nem mesmo para a contenção de gastos que anuncia ser a sua prioridade – e segue em frente com ações pontuais, fora de um contexto maior. Um exemplo são as mudanças no Passe Livre Estudantil, que vão expulsar 60 mil jovens do programa, enquanto o governo preserva projetos na área social que deveriam ter passado por uma revisão, modificados ou extintos.

 

Os programas sociais, a propósito, são uma área em que Caiado errou feio: ele deveria ter promovido uma avaliação global dessas políticas, ainda antes de assumir, o que era perfeitamente possível, para agora promover uma reorganização – na qual seriam inevitáveis cortes ou mesmo o encerramento de alguns deles. Ao longo dos 20 anos do Tempo Novo, foram implantadas iniciativas como a Renda Cidadã, a Bolsa Universitária, o Cheque Moradia e o próprio Passe Livre Estudantil, dentre outros, sem uma planificação financeira adequada e o fato é que, hoje, o Estado não tem recursos para arcar com esses gastos. Essa é a dura verdade.

 

Uma hierarquização de prioridades teria mostrado com facilidade que a população de baixa renda é que deveria ser atendida em suas necessidades básicas, sem populismo eleitoreiro, o que, fatalmente, levaria ao fim, por exemplo, da Bolsa Universitária – que consome uma fortuna por mês e foi mantida apenas porque é a OVG, dirigida pela primeira-dama Gracinha, quem a conduz. Para prestigiar a mulher, Caiado garantiu a continuidade de uma fonte de desperdício de dinheiro público, cujo investimento nunca passou por uma aferição quanto ao seu real retorno para a sociedade. A Bolsa Universitária, tal como foi perpetuada pelo novo governo, não passa de um programa assistencialista muito mal estruturado, quando deveria ser uma proposta puramente desenvolvimentista, algo com que o ensino superior tem muito a ver em qualquer parte do mundo.

 

Leia mais aqui sobre os descaminhos da Bolsa Universitária.

 

Caiado jogou fora a chance de por ordem na área social do governo de Goiás. Pior ainda ao entregar o comando para a primeira-dama Gracinha e abrir mão de uma requalificação racional de tudo o que o Estado dá hoje, de forma desordenada, a quem precisa de apoio – dever, sim, que a administração pública tem que cumprir, mas, venhamos e convenhamos, obrigatoriamente dentro das suas possibilidades. Adotar o realismo, aliás condizente com o seu discurso diário de calamidade financeira, teria sido a opção correta do governador, caminho que ele não trilhou porque, obviamente, traz desgastes e influi na popularidade do governante.

06 maio

Tropeções de Caiado, especialmente com o funcionalismo, abriram janela para a oposição, mas o PSDB perdeu a oportunidade ao se ajoelhar para Marconi e aceitar Jânio Darrot na sua presidência

Ninguém tinha a expectativa de que Ronaldo Caiado, eleito em 1º turno e com uma votação espetacular, fosse desperdiçar esse capital político em uma série de ações e omissões depois de assumir o governo, dentre as quais a principal foi a fatídica decisão de não pagar dezembro ao funcionalismo – empurrando a quitação da folha desse mês para um cruel parcelamento que irá até o início do 2º semestre.

 

De Caiado, com a consagração que teve nas urnas, esperava-se um governo beirando a perfeição. Mas ele passou e continua passando longe da promessa de mudança radical que fez na campanha e convenceu os goianos a acreditar nele. E o resultado é que se abriu uma janela para a oposição. Uma janela que a própria oposição não aguardava tão cedo. É por achar que as primeiras semanas do novo governo seriam arrasadoras que o ex-governador Marconi Perillo se refugiou em São Paulo, abrindo mão de qualquer liderança ou atuação em Goiás. O sumiço de Marconi deixou o PSDB, partido que deveria liderar o contraponto a Caiado, totalmente perdido, com vantagem para o novo governo, que ficou praticamente sozinho na área, enfrentando apenas os desgastes que impõe a si mesmo.

 

A oportunidade de crescer em cima do governo de Ronaldo Caiado surgiu, mas foi desperdiçada. Sobrou praticamente a voz crítica do deputado Talles Barreto, seus discursos na Assembleia e manobras parlamentares com a que aprovou o orçamento impositivo, derrota feia para o Palácio das Esmeraldas. Mas agora, pelo que se deduz das palavras do novo presidente do PSDB Jânio Darrot, pouco ou quase nada vai ser feito em matéria de oposição ao governo, O PSDB terá como prioridade eleger prefeitos no ano que vem e, por enquanto, tentar segurar nas suas fileiras deputados como Diego Sorgatto, eleito ao lado de Marconi, porém já tendo consumado adesão a Caiado.

 

Marconi escolheu Jânio Darrot para comandar os tucanos de Goiás para preservar o seu controle sobre o PSDB e, ao mesmo tempo, fechar as janelas para qualquer arejamento ou possibilidade de renovação, o que só poderia acontecer contra ele. Não é que a legenda vai continuar sendo a mesma de sempre – e isso já seria ruim. Vai é piorar, ao fugir do papel de apresentar alternativas e fazer contraponto ao governo do Estado, para o qual foi eleito pelas mesmas urnas que consagram o atual governador.

06 maio

Reforma administrativa de Caiado é basicamente jurídica e formal, apenas reorganiza leis, não traz mudanças estruturais e pode ser que faça alguma economia, mas, se o fizer, será ínfima

Já é possível fazer uma avaliação da reforma administrativa que o governador Ronaldo Caiado enviou à apreciação da Assembleia Legislativa, consubstanciada em um calhamaço de 257 páginas que não toca na estrutura do Estado, mas apenas reorganiza suas leis gerais quanto a aspectos jurídicos e formais e, se fizer alguma economia, será de valores que podem ser considerados ínfimos diante da grandeza a que os gastos públicos chegaram em Goiás.

 

Basicamente, o que se faz é a eliminação de cargos de baixos salários, criando-se um quadro resumido de funções comissionadas com poucas denominações, por volta de dez. Não se toca na multiplicidade de órgãos inúteis e superpostos que Caiado herdou dos governos passados, como, por exemplo, uma empresa de gás, alguns veículos de comunicação, uma companhia de ônibus urbanos e até  um braço da Celg dedicado a implantar um utópico sistema de telefonia através da rede elétrica. Tudo isso e muito mais vai continuar existindo, servindo apenas para drenar pelo ralo os preciosos recursos do Tesouro e abrigar apaniguados políticos – sim, os tais e famosos “conchavos” que Caiado, como sempre palrando em excesso, condenou durante a campanha e em seus primeiros dias de governo, porém aos quais acabou se rendendo ao instalar um “balcão de negócios” para trocar cargos e favores por votos na Assembleia e cumprir compromissos políticos celebrados antes das eleições.

 

O ganho com a reforma administrativa, conforme o projeto, será de R$ 119 milhões por ano ou um número em torno de R$ 480 milhões até o fim do governo. Muito. Não. Na verdade, como observou a jornalista Cileide Alves em comentário em O Popular, “parece uma gota no oceano”. É que, por mês, seriam mais ou menos economizados R$ 10 milhões, em um orçamento que supera R$ 1 bilhão e meio, também mensais, em gastos, quase tudo com a folha de pessoal. Uma ninharia, portanto. Só a folha de aposentados consome, em dois meses, bem mais do que esses possíveis R$ 480 milhões de poupança, valor que, de resto, está muito mais no plano das intenções do que no desenho da realidade.

 

É menos, bem menos do que o dever de casa a que Caiado estaria obrigado, como governador. Ele se propõe, no fundo, a manter em funcionamento uma estrutura administrativa modernizada em termos de nomenclatura, mas arcaica em seus fundamentos e por isso incompatível com a modernidade social e econômica de Goiás.

06 maio

Ao impor Jânio Darrot como novo presidente do PSDB, Marconi comete mais um equívoco grave, impede a renovação do partido e compromete o futuro dos tucanos de Goiás

Uma boa pessoa, mas no lugar errado e, mais ainda, na hora errada. É como pode ser definido o novo presidente estadual do PSDB, o prefeito de Trindade Jânio Darrot, nome que o ex-governador Marconi Perillo atravessou na garganta do partido em Goiás para matar no berço qualquer tentativa de renovação e assegurar o seu controle direto – mesmo na situação de fragilidade política em que se encontra, a legenda conta com um caixa mensal de R$ 300 mil reais, dinheiro que pode ser gasto à vontade com viagens, assessores, advogados, eventos e até aviões e helicópteros.

 

Empresário bem sucedido e prefeito, Jânio Darrot não precisa da estrutura do PSDB para atender aos seus interesses. Todo esse aparato, portanto, ficará à disposição de Marconi, que o usará para custear a sua sobrevivência política e enfrentar o cerco judicial de que é alvo. Na verdade, o tucano-mor de Goiás apenas repete a estratégia desastrosa de Iris Rezende quando foi apeado do poder em 1998 e, mesmo com o então PMDB em frangalhos, nunca permitiu a sua reoxigenação e o manteve sob mão de ferro – o que ajudou a construir 20 anos de derrotas consecutivas nas urnas, com exceção de três mandatos como prefeito de Goiânia que Iris conquistou para ele mesmo e de nada serviram para o partido.

 

Para enfiar Jânio Darrot goela abaixo do PSDB goiano, Marconi só precisou de algumas ligações diretamente de São Paulo, onde está morando. Alguns poucos que chegaram a falar em refundação, em autocrítica, em definir um perfil oposicionista, enfiaram rapidamente a viola no saco e dobraram os joelhos. O prefeito de Trindade foi aclamado, com um discurso em que exaltou as realizações dos governos do Tempo Novo, o que não só agrada, mas é exigência  do ex-governador (a tal defesa dolegado, mote que, repetido dia e noite na última campanha, deu a Marconi o 5º lugar na disputa pelas duas vagas senatoriais). O novo presidente, assim, mostrou qual será a sua estratégia no cargo: não só olhar para trás, mas também andar para trás.

04 maio

Caiado dá um passo atrás e reduz a influência da primeira-dama Gracinha na área política, que vinha mais atrapalhando do que ajudando o andamento do governo e a relação com a classe política

O governador Ronaldo Caiado decidiu – e comunicou a alguns interlocutores de importância – reduzir a influência da primeira-dama Gracinha na área política, que vinha mais atrapalhando que ajudando a articulação política do governo, maiormente os esforços para a constituição de uma base de apoio na Assembleia até hoje não formatada, o que coloca no plano da incerteza a aprovação de projetos fundamentais como a segunda parte da reforma administrativa, já entregue ao Legislativo para apreciação.

 

Mulher de governador interferindo, por exemplo, nas relações com os deputados, é o mesmo que usar gasolina para tentar apagar incêndios. Raramente dá certo e cria situações incômodas, que o bom senso manda que sejam evitadas para o bem de todos e notadamente no caso de um homem de vida austera como Caiado. No Brasil, o histórico de primeiras-damas se metendo na política corresponde aos Estados do nordeste, não por acaso a região mais atrasada do país. Em Goiás, não há registro, pelo menos nos últimos 50 ou 60 anos, de nada parecido com a atuação da atual primeira-dama em todas as frentes do governo. Nem mesmo dona Iris, que inclusive se lançou na política e chegou a se eleger deputada federal, foi tão longe quanto dona Gracinha (que, a propósito, parece também aspirar a uma carreira própria e também disputar eleições).

 

Ela assumiu, por exemplo, as delicadas funções de recebimento e filtragem das indicações de políticos, principalmente deputados, para cargos no governo. Trata-se de um terreno pantanoso e delicado, ainda mais quando a primeira-dama defende a “nova política”, isto é, que o governador, tendo sido eleito em um processo de mudança, não enverede pelo mesmo caminho fisiológico que torrou o prestígio dos seus antecessores e acabou condenado pelos goianos nas urnas. Além disso, é uma espécie de “segunda” voz da gestão, diante da qual o secretariado e demais envolvidos se quedam indefesos e, de vez em quando, em choque com as ordens do próprio chefe do Executivo.

 

Caiado resolveu afastar Gracinha mais para preservar a sua família e menos para melhorar a articulação política do governo. É que ele tem ojeriza especial por críticas ou colocações, de políticos ou na mídia em geral, que citam parentes próximos seus em qualquer circunstância, caso do deputado Alysson Lima, do PRB, que bateu o bumbo sobre um evento festivo no Palácio das Esmeraldas promovido pelas filhas do governador e pediu a abertura de uma investigação sobre as despesas a respeito. “Esse está na lista de desafetos de Caiado para sempre” disse a este blog um amigo dos dois.

03 maio

Faça o que eu falo, não o que eu faço: deputado do chapéu criticou parentes em cargos na Assembleia, mas indicou o próprio irmão para uma diretoria da Codego (e Caiado já nomeou)

O deputado estadual Amauri Ribeiro, aquele da polêmica do chapéu, que, a propósito, ele venceu, sendo autorizado a se apresentar no plenário da Assembleia ostentado o seu precioso acessório, transformou-se rapidamente em típico exemplo de político moralista… quando se trata dos outros. Ele indicou e o governador Ronaldo Caiado nomeou o seu irmão Alexandre Ribeiro para a diretoria financeira da Codego, órgão que, se a nova gestão tivesse juízo, já teria extinguido para fechar mais um ralo por onde se esvai o dinheiro público em Goiás.

 

Amauri Ribeiro, antes de tomar posse, teve os seus 15 minutos de glória ao conceder entrevistas denunciando o descalabro administrativo e financeiro dentro da Assembleia, onde, segundo suas palavras textuais, “a maioria dos cargos são de indicações de governadores, deputados e outros políticos. Compõem o quadro de funcionários da Assembleia Legislativa: filhos e primos de ex-governadores; irmãos de vereadores e ex-deputados; filhos e irmãos de deputados; e, irmãos de ministros. Todos nomeados com remuneração de até R$ 20 mil”. Na época, ele prometeu que confirmaria sua denúncia com documentos assim que assumisse e levaria um dossiê ao Ministério Público, para as devidas providências.

 

Com menos de dois meses investido no mandato, o deputado mudou hipocritamente de ideia. Encostou a barriga no balcão de negócios aberto por Caiado para negociar cargos por apoio na Assembleia e tratou de indicar entre os beneficiados o próprio irmão.

03 maio

Reforma administrativa de Caiado, em uma primeira análise, tem roupagem essencialmente jurídica e parece não economizar tanto quanto está sendo anunciado

Já dentro do oitavo mês desde que foi eleito, o governador Ronaldo Caiado finalmente deu à luz a sua reforma administrativa, um projeto caudaloso com mais de duas centenas de páginas que ele entregou nesta quinta, 2 de maio, à Assembleia Legislativa – onde já recebeu, em menos de uma hora de tramitação, um primeiro parecer favorável, na Comissão de Constituição e Justiça (o que mostra que os deputados da atual Legislatura seguem repetindo os maus hábitos das antigas).

 

Apelidada de “segunda parte”, a reforma administrativa que chegou aos parlamentares tem um foco muito forte na reorganização jurídica do Estado, até aqui determinada por um cipoal de leis – tanto que o projeto revoga quase três dezenas delas, de uma tacada só, já que se sobrepunham, às vezes se repetiam ou, mesmo, estavam em contradição umas com as outras. É um passo importante essa racionalização, embora, na prática, restrito a uma exagerada preocupação com a forma e não com o conteúdo. É fácil entender o porquê: no governo Caiado, a Procuradoria Geral do Estado cresceu em poder e hoje controla com mão de ferro todos as secretarias e órgãos, mantendo em cada uma, no mínimo, um representante que dá a palavra final sobre qualquer ato ou decisão. Isso, no final das contas, resulta em uma visão essencialmente jurídica dos processos governamentais, que pode ser identificada com clareza na segunda parte da reforma administrativa.

 

Caiado havia prometido cortes, que acabaram limitados ao quantitativo de cargos, ainda a conferir, porque o governador tem por costume ser exageradamente otimista com os valores que frequentemente anuncia estar economizando, sem maiores comprovações. Na primeira etapa da reforma, o Palácio das Esmeraldas comemorou uma redução de despesas que, em poucos dias, viu-se que era ilusória e não passava de R$ 10 mil reais por mês e mesmo assim número que tem que ser avaliado com alguma benevolência. No novo projeto, não houve extinção ou liquidação de setores do governo que geram gastos, mas não correspondem a nenhum tipo de finalidade pública, como a Goiásgás, a Celg Telecom, a Agência Brasil Central e muitas outras estruturas que sobrevivem apenas para ajudar a drenar o precioso dinheiro dos goianos, daí a impressão de que o governador foi moderado e sem ousadia no que chamou de redesenho da máquina administrativa em Goiás.

 

De pronto, é possível afirmar – e as críticas e o exame profundo que será feito nos próximos dias sobre o projeto vão confirmar ou não – que é fantasiosa a economia de R$ 400 milhões, até o fim do seu mandato, propagandeada pelo próprio Caiado nas primeiras entrevistas sobre a reforma. Ele errou nas contas na primeira parte e pode estar errando de novo, na segunda. Aliás, enquanto ele fala em R$ 400 milhões, a sua equipe cita algo em torno de R$ 480 milhões. As divergências, como se vê, vêm do berço.

03 maio

Paulo Beringhs volta a comentar e a analisar a política em Goiás. Veja o vídeo de apresentação

O apresentador Paulo Beringhs sempre se notabilizou pela língua ferina e originalidade das análises e abordagens que faz sobre a política em Goiás. No ano passado, ele postou vídeos curtos, quase que diários, comentando o andamento da campanha eleitoral e, depois, os resultados. Neste ano, esteve afastado até agora, mas já está de volta com uma nova rodada, que começa no próximo dia 13 de maio.

 

Veja o primeiro vídeo, em que ele anuncia e dá detalhes sobre a série, que vai se chamar “A Minha Opinião”, que será postada em parte também aqui neste blog.

02 maio

Adesão a Caiado de jovens deputados eleitos ao lado de Marconi surpreende e mostra que a velha política sobrevive independentemente da idade dos seus protagonistas

Eleitos ao lado do ex-governador Marconi Perillo e depois de iniciar a carreira apoiando entusiasticamente os governos do PSDB, os deputados estaduais Diego Sorgatto (PSDB), de 28 anos; Virmondes Cruvinel, (Cidadania, ex-PPS), de 39 anos; e Thiago Albernaz (ex-PSDB, atual Solidariedade), também de 28 anos, (fotos acima nesta ordem), confirmam que a presença de jovens na política nem sempre tem compromisso com a renovação e muitas vezes se pauta pelas velhas práticas do fisiologismo: eles aderiram ao governador Ronaldo Caiado em troca de vantagens oferecidas pelo “balcão de negócios” instalado pelo Palácio das Esmeraldas para conseguir votos na Assembleia (um exemplo: Virmondes Cruvinel indicou e Caiado nomeou sua mãe Rose para a chefia de gabinete da Emater).

 

Fosse um processo de ideias e propostas, ninguém diria nada. Possivelmente, os três seriam até aplaudidos. Nem toda adesão embute um componente de questionamento moral e, embora raramente, pode ter a ver com o interesse público e um eventual redirecionamento a favor das forças que fazem a história avançar. Não é o caso. Diego, Virmondes e Thiago (este deve ter feito o avô Nion Albernaz se revirar no túmulo) pularam para as hostes caiadistas apenas para se beneficiar de cargos e nomeações – nenhum deles, até agora, deu qualquer palavra para explicar a mudança de posição e, pior, em tão pouco tempo.

 

Adesões, como se sabe, pegam mal para quem adere e igualmente a quem se adere. Caiado, apesar dos seus quase 70 anos (que completará em 29 de setembro próximo), se diz um defensor da “nova política” e, é preciso reconhecer, teve uma carreira de pouco toma-lá-dá-cá e menos ainda jamais trocou suas convicções por qualquer benesse, mas também nunca foi uma virgem imaculada transitando pelo bordel da política. Tanto que, investido pela primeiras vez em funções executivas, não hesitou e mandar seus articuladores oferecerem a deputados cotas de R$ 30 mil em nomeações e direito a indicações de diretores e superintendentes, inclusive com liberdade para apontar parentes – item em que ele mesmo se tornou um exemplo, designando Caiados a granel para a sua equipe de auxiliares, inclusive marido e mulher (caso de Aderbal, diretor da Agetop, e sua esposa Adriana, superintendente da OVG, ambos… Caiados).

 

Mas a verdade é que governo algum sobrevive sem a “velha política”. Nem os que são eleitos contra. Sobre familiares no governo Caiado, leia mais aqui.

02 maio

Acordo que aprovou o orçamento impositivo é derrota para Caiado e meia vitória para a oposição (e o bloco independente): por insegurança, ninguém quis testar a sua força no plenário

Governo e oposição (mais o bloco independente) chegaram a um acordo na Assembleia e aprovaram uma nova configuração para o orçamento impositivo, que prevê a obrigatoriedade do pagamento das emendas apresentadas pelos deputados ao Orçamento Geral do Estado. Nenhum dos lados tinha convicção sobre a sua força no plenário, todos cederam alguma coisa e, no final das contas, ficou estabelecido que o percentual reservado aos parlamentares será de 0,7% em 2020, exclusivamente nas rubricas da Saúde e da Educação; de 0,9% em 2021, sendo 70% para Saúde e Educação e os 30% restantes a livre escolha: e de 1,2% em 2022, divididos da mesma forma.

 

Além disso, as emendas foram retiradas da coluna de “restos a pagar”, lugar onde estavam e que permitiria ao Executivo pagar ou não. Ou então escolher quais pagar. No novo projeto, elas terão que ser quitadas automaticamente. E, em 2022, ano eleitoral, isso terá que acontecer até julho, dando aos deputados que se candidatarem à reeleição a chance de colher resultados positivos antes da data do pleito. Cá entre nós, é motivo de festa, principalmente para os oposicionistas

 

Sim, ficou bom para todos, na Assembleia, embora não como a oposição e o bloco independente desejavam. Mesmo assim, uma meia vitória. Para a base governista, sobrou um gosto ruim. Em qualquer Parlamento do mundo, toda vez que as forças da situação são obrigadas a engolir  alguma solução, trata-se de uma derrota. A ordem era rejeitar o projeto, mas parece que faltou confiança para levar a decisão para o voto. O acordo impôs um desgaste ao Palácio das Esmeraldas, que mais uma vez não conseguiu o que queria no Legislativo, mas não um tropicão ostensivo e acachapante como quando Lissauer Vieira foi eleito para a presidência garganta abaixo de Caiado. E deu algum tempo para que articuladores como o secretário de Governo Ernesto Roller continuem tentando formatar a margem de segurança necessária para que questões importantes como a segunda parte da reforma administrativa sejam submetidas à Assembleia.

02 maio

Falência do Hospital Materno-Infantil, que visitou uma dezena de vezes, e assassinato de professor em Valparaíso, mostram a Caiado que é hora de menos discurso e mais ação

Com o início do oitavo mês desde que foi eleito, a 7 de outubro do ano passado, o governador Ronaldo Caiado está sob o impacto de dois fatos tão tristes quanto desgastantes, que, a rigor, não são da sua total responsabilidade direta, mas de alguma forma dizem respeito às suas obrigações para com a sociedade: o fechamento do Hospital Materno-Infantil, em Goiânia, e o assassinato de um professor, dentro de uma escola, em Valparaíso, no Entorno de Brasília.

 

São situações que têm pouco a ver com política e muito com a presença do governo na vida dos cidadãos goianos, garantindo o atendimento à saúde e a segurança, deveres mínimos de qualquer governo. Mas, vá lá, admita-se que parte tem a ver com os erros e as omissões dos governos passados. Parte. Não há como isentar a atual gestão – ainda mais quando Caiado desde a posse, fez questão de visitar várias vezes o Hospital Materno-Infantil, leiloar carros de luxo do Palácio das Esmeraldas para repassar os recursos ao estabelecimento e até achar tempo para inaugurar uma incubadora. O governador também esteve em Valparaíso, no mês passado, cidade que fica em uma região notoriamente marcada pelo descontrole da violência e falta de ação efetiva das forças policiais, principalmente em operações de repressão. Nem no caso do HMI nem no da criminalidade, no Entorno e no resto de Goiás, foram adotadas providências fortes e convincentes o suficiente para evitar tragédias, valendo registrar que, há um mês, morreu uma criança de cinco anos nos corredores do hospital, sob o silêncio e falta de reação da Secretaria de Saúde.

 

O escritor Paulo Coelho é um místico que acredita que a vida envia sinais e que devemos nos esforçar para entendê-los e atuar de acordo. Acredite nisso quem quiser. Caiado, que fala demais e desenvolve dia a noite a teoria de um Estado mergulhado em calamidade financeira e administrativa, além de passar muito, mas muito tempo mesmo em Brasília, andando pelo Senado e visitando autoridades do governo federal atrás de uma ajuda que ainda não veio nem se sabe quando virá, se é que virá, recebeu os seus sinais através do fechamento do HMI e da morte desnecessária do professor – e não é preciso doses de misticismo para acreditar neles. São sinais claros. Está passando da hora de dar passos à frente na gestão, diminuir um pouco o discurso e oferecer para a sociedade o cardápio que foi prometido na campanha: mudança.

30 abr

Com Jânio Darrot na presidência, PSDB goiano abre mão de se renovar e se propõe a ser mais do mesmo, continuar na rabeira de Marconi e fugir do debate sobre o futuro de Goiás

Depois de 20 anos como o mais importante partido político de Goiás, o PSDB terminou dando com os burros n’água: tomou uma tunda sem precedentes na última eleição e foi reduzido a pouco mais que pó de traque, mas, com a eleição agora do prefeito de Trindade Jânio Darrot para a sua presidência, mostra que não aprendeu a lição e se propõe a andar para trás, longe de se esforçar pela reconciliação com o eleitorado goiano e menos ainda disposto a qualquer tipo de discussão sobre o futuro de Goiás.

 

Jânio Darrot no comando mostra que o partido preferiu sucumbir ao controle do ex-governador Marconi Perillo e à defesa do seu suposto legado, uma ilusão que, já nas urnas do ano passado, mostrou ser deletéria e catastrófica. Tanto que as entrevistas que ele, Jânio, está dando e os releases que distribui apenas repetem mantras superados do falecido Tempo Novo, como a afirmação de que “Marconi revolucionou Goiás com as suas obras”, “Marconi fez o melhor governo da história”, “Marconi é o maior político da história de Goiás, “O PSDB tem uma história bonita” e outras bobagens que não dizem nada aos goianos que observam o governo de Ronaldo Caiado e se preocupam com os temas que ele, Caiado, coloca na mídia como consequência da nova realidade que ele representa para o Estado.

 

É simples: com Jânio Darrot, os tucanos fogem do debate que realmente interessa e que passa pelas propostas para o futuro de Goiás, assunto sobre o qual, depois de 20 anos de poder, até teriam credencial para dar palpites. Em vez disso, a escolha é puramente o culto à personalidade Marconi e a celebração do passado.

30 abr

Massacrado nas urnas, PSDB goiano segue em marcha à ré, recusa qualquer autocrítica e vai eleger Jânio Darrot como presidente para fugir da renovação e preservar a influência de Marconi

Um partido que elegeu apenas um deputado federal, somente seis estaduais e viu os seus candidatos majoritários – Marconi Perillo e Zé Eliton – humilhados por uma surra histórica nas urnas, teria obrigatoriamente que se propor um processo de reoxigenação, discutindo os erros do passado e procurando se reposicionar para tentar recuperar a confiança dos eleitores e verdadeiramente discutir rumos para Goiás. Esse deveria ser o PSDB goiano, que na próxima sexta-feira, dia 3, no auditório Costa Lima da Assembleia Legislativa, das 8hs ao meio dia, vai eleger o seu novo comando regional, que, de novo, não tem nada.

 

Jânio Darrot, prefeito de Trindade, será eleito para a presidência dos tucanos estaduais. Ele é o nome que o ex-governador Marconi Perillo escolheu, com a missão de preservar os seus interesses e garantir que a estrutura do partido e a cota de R$ 300 mil mensais que recebe do fundo partidário continuem a seu serviço. Marconi, acossado por um cerco judicial pesado, com mais de uma dezena de denúncias por improbidade e pelo menos um inquérito criminal por recebimento de propinas, não quer saber de nenhuma renovação e menos ainda não aceita ficar relegado a segundo plano em uma eventual refundação do partido – passo que seria correto, mas que não virá.

 

O PSDB deixou de ter inteligência em Goiás há muito tempo. Não aconteceu por acaso a dura derrota que o partido colheu nas últimas eleições. Foram erros e mais erros, a começar pelo lançamento de um candidato a governador sem nenhum apelo eleitoral, Zé Eliton, com uma vice, Raquel Teixeira, idem. Nem um nem outro tinham qualquer apelo político, a não ser se prestar ao papel de extensão de Marconi, mesma função que Jânio Darrot está aceitando agora. É mais um equívoco e caminho para novas e futuras derrotas.