Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

06 ago

Zé Eliton é o nome que Marconi quer para o PSDB lançar a prefeito de Goiânia, nas eleições do ano que vem. E se Marconi quer, Zé só não será candidato se não quiser – e ele quer

O PSDB caminha para lançar o ex-vice e ex-governador tampão Zé Eliton para disputar a prefeitura de Goiânia, no ano que vem. Essa é a vontade do senhor supremo dos tucanos em Goiás, o ex-governador Marconi Perillo, teoricamente distanciado da política estadual e morando a quase mil quilômetros da capital goiana, em São Paulo, mas de lá manipulando diariamente os pauzinhos que atendem aos seus interesses na sua paróquia.

 

Se Marconi, quer, o PSDB obedecerá fielmente, como sempre aconteceu. No primeiro semestre deste ano, surgiram vários nomes na disputa pela presidência do diretório estadual da legenda – o ex-prefeito de Catalão Jardel Sebba, o prefeito de Goianira Carlão da Fox, os deputados federal Célio Silveira e estaduais Talles Barreto e Leda Borges, além da ex-secretária da Educação e candidata derrota a vice de Zé Eliton, Raquel Teixeira. Bastou o ex-governador bater o pé e todos debandaram. O cargo sobrou para o prefeito de Trindade Jânio Darrot, escolhido a dedo por Marconi para funcionar como sua marionete no comando do PSDB. Isso mostra que a definição da candidatura em Goiânia, se houver, já que ele também analisa a hipótese de apoiar o deputado Francisco Jr., do PSD, será mais uma decisão autocrática e imposta de cima para baixo pelo tucano mor de Goiás.

 

A informação sobre a candidatura de Zé Eliton apareceu, em primeira mão, na coluna online do experimentado colunista Divino Olávio no Diário Central. Existem outros pretendentes no PSDB, como, por exemplo, o deputado estadual Talles Barreto. Mas isso não trará nenhuma dificuldade para Marconi indicar quem desejar para assumir a candidatura, dada a sua expertise em afastar dificuldades e produzir consensos. É bom lembrar que o Zé chegou a dar declarações públicas, após deixar o governo, falando em se retirar da vida pública e avaliando que o seu ciclo na política havia se encerrado. Mas não é bem assim. Sabe-se que Zé tem saudade da movimentação dos oito anos que passou no poder. Não vai haver necessidade de muita insistência para que ele aceite o desafio, já que se considera  jovem e acha que ainda tem muito a oferecer.

 

E, sim, o desafio será gigantesco. Como candidato a governador, Zé saiu-se tão mal em Goiânia quanto Marconi para o Senado. Ambos tiveram uma mixaria de votos. Zé, apenas 67 mil. Marconi, menos ainda, 53 mil. Dada a dimensão do colégio eleitoral da capital, esses números são humilhantes. Mas, por outro lado, é fato que a campanha deu visibilidade ao Zé, que hoje, provavelmente, passou a ser bem conhecido. Além disso, a estratégia de campanha dos tucanos, que é a de lembrar as obras do passado e cobrar a gratidão do eleitor, poderá ser repetida diante do volume de obras que os 20 anos do Tempo Novo construiu em Goiânia. Isso, na eleição do ano passado, não rendeu grande coisa. E vai ser menos ainda no ano que vem, quando o favorito é o atual prefeito Iris Rezende.

03 ago

“Não vou aceitar que você prejudique o governo do meu marido”. Confronto entre Gracinha Caiado e Lissauer Vieira na Cidade de Goiás foi mais grave que o divulgado inicialmente

“Não vou aceitar que você prejudique o governo do meu marido”. Foi nada menos nada mais do que isso que a primeira dama Gracinha Caiado disse cara a cara com o presidente da Assembleia Lissauer Vieira, no dia em da solenidade de instalação do governo do Estado na velha capital.

 

Inicialmente, o que se divulgou foi que Gracinha ameaçou Lissauer com a responsabilização da Assembleia caso houvesse atraso no pagamento do funcionalismo devido à recusa do Poder Legislativo em aprovar a adesão de Goiás ao Regime de Recuperação Fiscal. É fato. Ela disse isso a ele. Ameaçou. Mas depois surgiram novas informações. Gracinha teria sido encarregada de pendurar no pescoço do presidente da Assembleia a comenda da Ordem do Mérito Anhanguera e, nesse momento, o agarrou pelo colarinho e o coagiu. Mas não foi bem assim. A condecoração de Lissauer Vieira foi entregue pelo governador Ronaldo Caiado, em clima ameno(veja a foto acima). Na verdade, a conversa com a primeira dama desenrolou-se bem antes, durante a cerimônia oficial na praça principal da Cidade de Goiás, no período da manhã. As medalhas foram entregues à tarde. E, sim, Gracinha foi duríssima e não economizou palavras agressivas. “Não vou aceitar que você prejudique o governo do meu marido”, disse ela ao atônito presidente da Assembleia.

 

Manda o bom senso que não se entre em confronto com a mulher de ninguém, muito menos a do governador do Estado. Lissauer Vieira ouviu calado, apesar de estupefato. Caiado, provavelmente, nem deve ter sido informado do ocorrido. Mas abra o olho, leitora e leitor: se Gracinha interfere em todos os setores do governo, é porque conta a aprovação e permissão do governador.

03 ago

Saúde de governante é assunto de interesse público. Por isso, Caiado, que, a propósito, é médico, tem que esclarecer a sua condição – e não é aceitável a versão de que teve apenas “uma febre”

Na semana que passou, o governador Ronaldo Caiado foi objeto de uma boataria a respeito do seu estado de saúde. Tudo começou com um post nas redes do senador Jorge Kajuru, pedindo orações diante dos males que estaria enfrentando. Kajuru depois se declarou equivocado, mas enquanto isso o Palácio das Esmeraldas admitiu oficialmente que o seu habitante ilustre tinha sido tomado por “uma febre”e que o seu expediente de trabalho foi suspenso.

 

Daí em diante, a coisa desandou. Caiado teria viajado para São Paulo, em caráter de urgência, atrás de atendimento médico. A maledicência acrescentou que estaria manifestando sintomas da doença de Alzheimer, o que explicaria seu olhar distante e sorriso fixado em fotos e vídeos dos eventos e conversas de que participa – e é uma afecção que alcança em torno de 10% da população idosa do país (ele está na faixa dos 70 anos). Ou então manifestando sintomas tardios do tombo que levou de uma mula, em 2017, quando bateu a cabeça, acabou levado a uma internação em UTI e hipoteticamente a graves desdobramentos neurovegetativos. Tudo, menos a desculpa esfarrapada de “uma febre”.

 

Como se sabe, febre não é uma enfermidade, mas apenas um sintoma de que algo está agredindo o organismo. A explicação oficial, portanto, não colou. A marcação cerrada que a primeira dama Gracinha faz com o marido estimulou ainda mais as especulações. Nunca houve nem em Goiás nem no resto do Brasil uma consorte que faça questão de estar tão presente a cada passo do governante com quem é casada. Ela parece uma guardiã e uma protetora. Some-se isso a depoimentos, reservados, de aliados que relatam conversas em que Caiado se mostra distante ou então esquece-se de acertos feitos… no dia anterior.

 

Para situações análogas, não há nada melhor que a luz do sol afastando a escuridão. Ou seja: que Caiado, até dentro do seu compromisso de médico, diga a verdade e clarifique o que está acontecendo. Rápido.

03 ago

Tudo o que Caiado adiantou que o governo federal faria, em relação a Goiás, não se concretizou e por isso esperar medidas contra a Enel ou retomada da Celg é sonho de uma noite de verão

Corre um noticiário intenso sobre a probabilidade de medidas do governo federal contra a Enel, que iriam desde uma revogação da concessão para explorar a distribuição de energia em Goiás até a devolução da Celg ao governo do Estado. Logo após mais uma das suas tantas visitas a Brasília, o governador Ronaldo Caiado anunciou bombasticamente que teria obtido o apoio do presidente Jair Bolsonaro para imprensar a companhia contra a parede e fazê-la alvo de decisões radicais – como, por exemplo, uma intervenção ou, no limite, a sua expulsão do território goiano.

 

Isso não vai acontecer. Tem cheiro de bravata aí, leitora e leitor. A administração do setor elétrico, no Brasil, é guiada por motivações 100% técnicas. A influência política é zero. Se Caiado e a maioria dos goianos estão insatisfeitos com a Enel, isso jamais levaria a uma reversão de um processo de privatização que, no final das contas, comprometeria a imagem do Brasil pelo mundo afora. Sem falar que a venda da Celg foi cercada de um aparato de segurança jurídica que dificilmente poderia ser quebrado um dia. Não à toa, a atual proprietária – italiana – é uma corporação de renome mundial, listada na Bolsa de Nova Iorque. Aliás, há poucos dias, seus representantes estiveram lá para falar sobre seus investimentos brasileiros, hoje acima de R$ 15 bilhões de reais.

 

Não é pouca coisa. Uma arremetida do governo federal contra a Enel teria repercussão mundial e afetaria a imagem do país quanto as privatizações que o presidente Jair Bolsonaro pretende fazer, a principal da quais já está programada e é justamente no setor elétrico: a Eletrobrás. Não deve demorar. Mas, se algo afetar as relações com a Enel, as consequências seriam drásticas, a partir da perda da confiança do mercado internacional sobre a capacidade do Brasil de honrar seus compromissos e contratos assinados. Pior: os relatórios oficiais sobre o desempenho dos serviços prestados em Goiás são contraditórios. Há boas e más avaliações.

 

Quando a CPI sobre a Celg-Enel foi aberta na Assembleia, o então presidente do BNDES Joaquim Levy ligou para Caiado para reclamar, argumentando com uma possível repercussão negativa para o governo Bolsonaro. Isso mostra o quanto é delicada a questão. De resto, tudo o que Caiado adiantou, até hoje, sobre providências esperadas de Brasília para atender a revindicações suas, não se efetivou. Pior ainda: Bolsonaro jamais disse que vai apoiar a retomada da Celg pelo governo de Goiás. Essa foi uma conclusão apressada de um encontro que o governador teve com um general que ocupa uma secretaria no Palácio do Planalto, sem nada a ver com a administração do setor elétrico. Vá lá: se Bolsonaro o tivesse mesmo dito, o que isso seria além de mais uma das impropriedades sem consequência prática a que é dado.

 

P.S – Agradeço a citação do jornalista Nilson Gomes ao meu nome, em seu artigo no Diário da Manhã sobre a devolução da Celg para o governo de Goiás. Em especial, registro que ele me separa do blog Goiás24Horas, com o qual, de fato, não tenho nenhuma ligação, mesmo porque faço questão de assinar a minha opinião sem nenhum condicionante que não a minha própria consciência. Diz a historiadora autodidata Barbara Tuchman que um jornalista sem posição “seria como um vegetal”. Concordo e a leitora e o leitor que me acompanham sabem que jamais abordei qualquer assunto sem expressar um ponto de vista intimamente ligado à minha visão do mundo e sem amarras de qualquer ordem. É assim que penso e esse é o meu compromisso. Já estou adiantado demais na vida para me submeter, por dinheiro ou ou outro tipo de acerto, a qualquer paixão, o que só é possível graças às maravilhas da internet e da livre difusão da informação nos incríveis tempos de hoje. Sigo em frente.

02 ago

Marconi e Zé Eliton não são santos e deixaram para Caiado uma crise fiscal, aliás a mesma do resto do país. Mas daí a dizer que “quebraram o Estado” e fizeram um “mau governo” há um exagero muito grande

Verdades precisam ser admitidas e ditas em voz alta, mais ainda na política, em que cada ator se esforça para adequar a realidade à sua narrativa e visão do mundo. Assim, é pacífico reconhecer que os ex-governadores Marconi Perillo e Zé Eliton de fato deixaram para o governador Ronaldo Caiado uma crise fiscal quase sem precedentes, em que a receita não cobre as despesas da administração.

 

O problema é que esse esse modelo se repete pela maioria dos Estados brasileiros. Se há uma espécie que tem horror à disciplina de gastos e à austeridade financeira, são os governadores. Os de antigamente, os do passado recente, os de hoje e os que virão amanhã. Em sua maior parte, resistem ferozmente a adotar medidas de enxugamento e racionalização da máquina governamental, temerosos de prejuízos para o projeto político que almejam. Podem crer, leitora e leitor, Caiado também é assim, apesar do discurso diário contra os seus antecessores Marconi e Zé, a quem acusa de terem “quebrado o Estado”.

 

Em sete meses no Palácio das Esmeraldas, o atual governador ignorou olimpicamente os gargalos que minam a estabilidade fiscal em Goiás. Não mexeu, por exemplo, com os programas sociais que recebeu prontos e acabados, porém completamente insustentáveis porque não há dinheiro para bancar a todos. Aberrações como a Bolsa Universitária terminaram mantidas. No outro extremo, evitou tocar na política de incentivos tributários que drena a arrecadação do Estado, beneficiando pouco mais de 500 grandes empresas em detrimento de todo o resto da economia. Direitos dos funcionalismo? Nem pensar. Continuam como sempre foram, impondo um aumento vegetativo de mais de 3% a cada mês para a folha de pagamento, ainda que nenhum aumento seja concedido e nenhuma admissão feita. E isso sem falar no déficit de R$ 200 milhões, também mensais, da previdência dos servidores, sem perspectivas de solução.

 

Marconi e Zé, em tudo isso, têm a impressão digital, mas porque fizeram pouco para tapar esses rombos. Era assim que o mundo rodava no tempo deles e foi assim que tocaram o governo, com alguns méritos indiscutíveis, como a certeza que sempre deram de que os salários seriam – como foram – creditados em dia. Entregaram a Caiado um déficit até aceitável, abaixo dos R$ 2 bilhões, número que parece elevado, mas está na órbita de normalidade diante do tamanho do orçamento estadual, e uma dívida inteiramente cabível conforme o manual da Secretaria do Tesouro Nacional – tanto que Goiás não pode ter acesso ao Regime de Recuperação Fiscal exatamente pela sua boa condição nesse item. Caiado inventou que eles deixaram de pagar o mês de dezembro, incriminação injusta. Desde sempre, os vencimentos do funcionalismo são pagos com a arrecadação do mês seguinte e não a do mês trabalhado. No governo Caiado, a propósito, é assim que acontece.

 

Ninguém “quebrou o Estado”, portanto, como alega a monótona propaganda de uma guerra que apenas o governo luta. Estados não quebram nem a população acredita nessa versão, conforme mostrou pesquisa qualitativa da Adial há poucas semanas. Sintomaticamente, o sonho dourado de Caiado é ser presenteado pelo governo federal com uma folga financeira, objetivo para o qual o falatória sobre uma inexistente calamidade financeira é muito, mas muito conveniente, embora até agora sem produzir resultados. E aí sobrevém uma paralisia. Nos mais de 200 dias da nova gestão, o Estado não avançou nem minimamente ganhou uma proposta diferente para o seu futuro. O Estado é o mesmo que era no ano passado e nos anos anteriores. O mesmo. Só que sem Marconi e Zé. Se eles fizeram um “mau governo”, Caiado também está fazendo.

01 ago

Autorização do Tesouro Nacional para empréstimo de R$ 780 milhões é diploma de gestor nota 10 para Iris, que finalmente faz a melhor administração da sua vida e deveria ter o exemplo seguido por Caiado

Finalmente, Iris Rezende conseguiu dar efetividade para a promessa que foi o mote das suas campanhas nos últimos 20 anos, inclusive as derrotadas: dessa vez, “farei a melhor administração da minha vida” (mote que Marconi Perillo derrubou com maestria em 2010, ao vencer Iris prometendo “fazer a melhor administração da vida dos goianos”). Ninguém pode negar: o atual mandato do velho cacique emedebista na prefeitura de Goiânia é um primor de gestão e de estratégia administrativa, que acabou muito bem sucedida.

 

Iris passou os dois primeiros anos debaixo de um imenso desgaste. Não é exagero dizer que beijou a lona. Mas antes da contagem chegar ao número 10, conseguiu se reerguer. E como. Viu-se de repente que a prefeitura da capital estava inteiramente recuperada financeiramente e suas burras começaram a se encher de dinheiro. Muito dinheiro. Talvez mais de bilhão, que agora, no terceiro ano do mandato, está sendo aplicado em obras de impacto espalhadas por toda a cidade. E a cereja do bolo acabou de chegar: a Secretaria do Tesouro Nacional aprovou um financiamento de R$ 780 milhões, junto a Caixa Federal, para que Iris possa aplicar… em mais obras.

 

O empréstimo só saiu porque a prefeitura passou por um saneamento fiscal que elevou a sua nota de crédito para a categoria B, sonho dourado de todo governante pelo país afora, na medida em que possibilita a conquista do precioso aval do governo federal para operações financeiras. É tudo, por exemplo, que o governador Ronaldo Caiado deseja para o seu governo, que está classificado com a nota C – impeditiva para o tal aval. Iris é bom em receber governos desestruturados e, aos poucos, recolocar a casa nos conformes. Fez isso muitas vezes. É um exemplo que precisaria ser acompanhado, inclusive… por Caiado. Um dos ensinamentos mais característicos do prefeito é que um administrador público jamais deveria esperar qualquer apoio que venha de fora e procurar resolver seus desafios com suas próprias forças. Dizem que ele deu esse conselho ao governador, que, como se sabe, não gosta de conselhos e preferiu continuar aguardando um milagroso socorro de Brasília.

 

A autorização para que a prefeitura de Goiânia assine um empréstimo vultoso com a Caixa Federal é um troféu e tanto para Iris. Um diploma de bom gestor, talvez o melhor que Goiás já viu.

01 ago

Biruta de aeroporto: Caiado vai e vem entre o RRF e o PEF, não sabe o que fazer com as liminares do STF, está sem respaldo na Assembleia e imobilizado na missão de superar o desequilíbrio fiscal do Estado

Confusão e incerteza são as palavras que definem o atual momento do governador Ronaldo Caiado, que não sabe até hoje qual caminho tomar para superar a crise fiscal do Estado e por isso permite o surgimento de um quadro caótico, em que, por um lado, estaria se preparando para aderir ao rigoroso Regime de Recuperação Fiscal (ao qual, por sua vez, a Secretaria do Tesouro Nacional insiste em fechar as portas para Goiás), mas, por outro, continuaria aguardando a aprovação pelo Congresso do Plano de Equilíbrio Fiscal, menos exigente, porém ainda uma verdadeira quimera – uma vez que o projeto não deu um único passo quanto a sua tramitação legislativa.

 

Enquanto isso, as duas liminares que Caiado obteve no Supremo Tribunal Federal, em vez de ajudar, contribuíram para tornar o cenário ainda mais nebuloso. Arvorando-se em autoridades da área econômica federal, os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli concederam moratórias ao Estado, mas em termos praticamente inaplicáveis, além de misturar as bolas e nada deixar claro quanto ao que deve ser feito – o primeiro deu prazo de seis meses que que o governador aprove as leis exigidas pelo RRF, enquanto o segundo estipulou um prazo de cinco dias, já vencido e não cumprido, para que Goiás apresentasse um inusitado compromisso para a quitação ou redução das suas dívidas com a União. Uma barafunda.

 

Ninguém está entendendo, nem a própria secretária da Economia Cristiane Schmidt, que, mesmo recorrendo à sua alentada bagagem acadêmica, ainda não conseguiu esclarecer toda a situação e de auxiliar de Caiado que mais falava à imprensa, fechou-se em copas, exoticamente declarando-se em um instante de “introspecção” (que já dura um mês). Para piorar, em um governo dominado pela visão jurídica de uma Procuradoria Geral do Estado que espalhou seus tentáculos controladores sobre todos os cantos da máquina administrativa, ainda há dúvidas sobre as tais leis restritivas para chegar a algum tipo de recuperação fiscal, inclusive citadas nas liminares supostamente favoráveis que Caiado ganhou no STF. Seria uma só? Seriam várias? Seria tudo de uma vez ou aos poucos? A sábia PGE até hoje não tem a resposta.

 

Ruim para Caiado, pode-se concluir? Não. É muito mais. É péssimo. Complicadores aparecem de todos os lados, um deles a maratona do presidente da Assembleia Lissauer Vieira propagando aos quatro ventos que o Poder, refletindo a opinião de todos os demais envolvidos, como o Judiciário, a Defensoria Pública, o Ministério Público e os Tribunais de Contas, não concorda preliminarmente com soluções drásticas que possam afetar as políticas públicas em benefício da população e os direitos do funcionalismo, e prefere, antes, um debate mais aprofundado. O governador, diante da sensata sugestão de Lissauer Vieira, encolheu-se todo. A comissão sugerida pelo presidente da Assembleia, inclusive para visitar o Rio, onde o RRF já foi aplicado, segue na estaca zero, enquanto cresce a impressão de que Caiado não tem base nenhuma entre os deputados, menos ainda para aprovar medidas polêmicas.

 

O governo estadual, no final das contas, parece biruta de aeroporto.  Já são sete meses de mandato e quase um ano desde o resultado da eleição. É tempo demais para que um rumo estivesse definido com clareza e para que Caiado, exercendo a liderança institucional que lhe cabe, apontasse as soluções cabíveis para encerrar de vez com o modelo de desequilíbrio entre receita e despesa que herdou dos seus antecessores e que com o qual não deveria prosseguir. Todo governo obedece a uma inércia natural, lembra a historiadora Barbara Tuchman, em seu livro A Prática da História, que o leva a continuar a fazer o que sempre foi feito. Só uma força irresistível pode romper esse ciclo vicioso, no caso de Goiás a espetacular credencial que Caiado recebeu das urnas. Porém, cada vez mais desperdiçada.

30 jul

É sério: Caiado e Gracinha andam dizendo que a Assembleia retomou com Lissauer Vieira as práticas corruptas do passado e se transformou em “barril de pólvora” que pode explodir a qualquer hora

O que vocês vão ler agora, leitora e leitor, não faz parte do campo visível da política em Goiás, mas está situado numa zona cinzenta que podemos chamar de bastidores. É que o governador Ronaldo Caiado e a primeira dama Gracinha, que não engolem o presidente da Assembleia Lissauer Vieira, andam passando a interlocutores da área política que existem irregularidades graves no Poder Legislativo, repetindo situações denunciadas no passado, transformando a casa em um verdadeiro “barril de pólvora” – que pode explodir a qualquer momento e trazer para as manchetes uma nova e espetacular celeuma envolvendo os deputados estaduais.

 

Nenhum dos dois vai confirmar essa informação. Mas estão dizendo por aí. Caiado reclama de estar sendo “chantageado” pelos parlamentares, especialmente pelos da sua própria base. O que eles pedem seria inaceitável. Gracinha aborda um e outro, ameaçando com a responsabilização da Assembleia caso o salário do funcionalismo venha a atrasar e os projetos de ajuste fiscal (leia-se: a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal) não venham a ser aprovados. Por trás de tudo, uma intimidação pesada: a deflagração de um escândalo relacionado com o pagamento de diárias fictícias, funcionários fantasmas, deputados privilegiados com R$ 250 mil em cargos no Legislativo e a cereja do bolo: vantagens que teriam sido incluídas no contrato com a empreiteira que está construindo a maior obra pública do Estado no momento, ou seja, a nova sede da Assembleia no Park Lozandes.

 

Lissauer Vieira já está escaldado com Caiado: ele atribui a artimanhas do governador a denúncia que o Ministério Público Estadual fez contra ele, em Rio Verde, em razão de um show musical que patrocinou com uma emenda de sua autoria. Como se tratava de material antigo, achou-se que teria sido requentado, por artes de uma das filhas de Caiado, a advogada Anna Vitória, que tem influência entre promotores e procuradores e estaria por trás do que seria uma retaliação contra o presidente da Assembleia. Esse episódio deixou sequelas.

 

O que vem sendo cogitado, no entanto, é muito pior. Caiado está sendo alimentado por deputados da sua confiança, como Amauri Ribeiro e Delegado Humberto Teófilo, acostumados com o jogo pesado e que já andaram falando em desvios dentro da atual gestão da Assembleia. Na Casa, as tentações são de fato muito sedutoras. Não à toa, o diretor geral e um deputado em exercício do mandato, em dias passados, chegaram a ser presos. É esse espectro que Caiado e Gracinha balançam diante de Lissauer Vieira e do seu grupo de apoio, que não é pequeno. O tempo, na Alameda dos Buritis, pode ficar ruim. Com tendência a tempestades.

30 jul

Lissauer Vieira toma de Caiado o protagonismo no debate sobre o RRF, coloca a presidência da Assembleia na manchete principal de O Popular e se credencia para vôos maiores

Nesta terça-feira ainda sob temperatura amena em Goiás, O Popular traz na principal manchete de 1ª página, mais uma vez, uma informação sobre a hipótese de adesão de Goiás ao Regime de Recuperação Fiscal, mas, surpreendentemente, o sujeito da notícia não é o governador Ronaldo Caiado, como seria de esperar, e sim o presidente da Assembleia Lissauer Vieira.

 

Diz o jornal (pode ser exigido login para abrir a reportagem): “Presidente da Assembleia quer alternativa ao RRF“. Dentro, o texto repete as dúvidas que Lissauer Vieira vem levantando sobre o processo de superação da crise financeira que o governo Caiado alega enfrentar, repisa a sua definição de que se trata de um “remédio muito amargo” e relembra a proposta de uma comissão formada por representantes de todos os Poderes, para avaliar a situação e, inclusive, visitar outros Estados, em especial o Rio de Janeiro, onde os rigores do plano já foram aplicados ou estão em vias de o ser.

 

Sobre Caiado, somente uma citação: a de que receberia Lissauer Vieira nesta semana, para discutir o assunto. Esse encontro não foi ainda sequer marcado e apenas ficou subentendido a partir de uma conversa entre o deputado e o secretário de Governo Ernesto Roller, que teria sido encarregado de abrir as portas do Palácio das Esmeraldas para que o presidente da Assembleia apresentasse ao governador, de viva voz, as suas opiniões e sugestões, de resto já sobejamente conhecida através das inúmeras entrevistas que vem dando.

 

Seja qual for o desfecho dessa estória, uma conclusão se impõe: Lissauer Vieira conseguiu a façanha de se tornar protagonista do debate sobre a adesão de Goiás ao RRF, com posições mais fortes que a do próprio Caiado, de maior credibilidade diante da sociedade e também sinalizando maior responsabilidade – sempre no sentido de se buscar alternativas menos drásticas. Exatamente o que anda faltando ao governador até agora, mas que dá a impressão de sobrar no presidente da Assembleia, que vai se credenciando, assim, a vôos maiores (já que dizem que ele quer ser candidato a governador em 2022).

30 jul

O presidente da Assembleia Lissauer Vieira está certo: existem alternativas – e muitas – ao rigor de um plano como o Regime de Recuperação Fiscal para tirar Goiás da crise financeira

Parece que o governador Ronaldo Caiado está superando as suas incertezas iniciais e, pelos sinais emitidos pela primeira dama Gracinha, voz e influência decisivas sobre os rumos do Estado na atual gestão, está mesmo resolvido a arrastar Goiás para os rigores excessivos do Regime de Recuperação Fiscal – ao que tudo indica a única alternativa em cogitação pelo Palácio das Esmeraldas para superar a crise financeira alegada alardeada desde janeiro deste ano.

 

Entretanto, o RRF não é unanimidade. Há quase uma convergência de opiniões no sentido de que se trata de um remédio drástico demais para um paciente que não entrou em coma, embora padeça de males graves, o principal deles a inviabilidade de se prosseguir com o modelo de governo baseado no desequilíbrio entre receita e despesa, sendo aquela declaradamente insuficiente para cobrir o volume alcançado por essa.

 

É assim que o presidente da Assembleia Lissauer Vieira, que não reza politicamente na cartilha de Caiado, acabou se transformando em líder de um movimento que questiona a oportunidade e o cabimento de um plano rígido de recuperação fiscal para o Estado. Em uma rara demonstração de equilíbrio e independência, dada a tradição de servilismo do Legislativo goiano, Lissauer Vieira passou a levantar dúvidas sobre a conveniência do RRF, sobre a obrigatoriedade de consenso entre os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e assemelhados (Defensoria Pública, Ministério Público e Tribunais de Contas) para que se faça a adesão e sobre o exame de outras alternativas menos traumáticas. Ele mesmo acha que existem. E está certo.

 

Há, sim, outros caminhos para a recuperação fiscal do Estado. O Sindifisco já ofereceu as suas sugestões (veja aqui), mas foi completamente ignorado por Caiado e pela sua secretária da Economia. Nesta semana, em entrevista ao colunista Divino Olávio, do Diário Central, o professor da UFG Francisco Tavares relacionou outras (confira aqui). Inúmeros outros economistas e especialistas já se manifestaram sobre as opções disponíveis. O grande erro do governador é que ele não está estimulando o debate sobre o RRF, nunca ouviu ninguém sobre o assunto e sequer se dispôs a gastar tempo articulando apoio para chegar ao seu objetivo, dando a impressão de que acredita bastar… a sua vontade.

 

O que está faltando é justamente o que o presidente da Assembleia propõe: uma discussão séria e profunda sobre a situação financeira do Estado e o que pode e precisa ser feito para levá-la a uma situação, digamos assim, mais confortável. E é provável que Lissauer Vieira tenha toda razão: o RRF não é o único caminho. Há pela frente uma encruzilhada que precisa ser bem analisada para que se escolha o rumo a tomar. É esta análise, no mínimo, que ele defende.

29 jul

Governo em que a mulher do governante mete o bedelho em tudo acaba distorcido e no final das contas tem a sua própria autoridade afetada porque se trata de uma interferência ilegítima

Não é segredo para ninguém que a primeira dama Gracinha Caiado, que gosta chamar a si própria de “leoa”, tem gosto e vontade suficientes para interferir em todas as áreas do governo do seu marido Ronaldo Caiado – o que, pela tradição política brasileira, nem sempre dá certo e acaba funcionando como combustível para crises sucessivas, distorção dos atos administrativos e quebra da legitimidade de quem foi eleito, mas delega grande do seu poder.

 

Ninguém tem na memória, pelo menos em Goiás e quiçá em todo o país, uma primeira dama que tenha atuado com tanta presença e força como Gracinha Caiado. O problema é que ela tem uma visão política eivada de limitações, dada a sua pouca experiência e falta de vivência no ramo. No final de contas, isso acaba criando problemas para o andamento do governo. Nem uma única nomeação, por menor que seja, sai sem o consentimento dela. O secretário Anderson Máximo, da Casa Civil, passa até duas semanas sem falar com Caiado, mas jamais um único dia sem despachar com a senhora de todas as decisões do Palácio das Esmeraldas.

 

Caiado deve saber dos riscos que corre ao permitir que a sua companheira se dê a ousadias como puxar a orelha do presidente da Assembleia Lissauer Vieira, como ocorreu na Cidade de Goiás, durante as festividades da transferência da sede do governo para a velha capital. Gracinha tomou satisfação pelas declarações de Lissauer contra a adesão de Goiás ao Regime de Recuperação Fiscal e prometeu que a Assembleia será responsabilizada caso o salário do funcionalismo venha a atrasar se o RRF não for aprovado pelos deputados. E a ameaça não foi feita só ao presidente, mas também a outros parlamentares, como, por exemplo, Vinicius Cirqueira, fiel integrante da base caiadista que ficou estuporado – e contrariado – com o que ouviu da primeira dama.

 

Nem Lissauer nem Cirqueira retrucaram. Falar com a consorte do governador é pisar em ovos ou talvez em brasas. É preciso ter muito cuidado porque, daqui para ali, um deslize qualquer poder levar a uma questão de família, com desdobramentos imprevisíveis. É isso que Caiado está ignorando, ao permitir que uma outra força que não a sua pessoal se levante no direcionamento do seu governo, sem ter, para isso, recebido o aval das urnas e a consequente legitimidade institucional. É fora do padrão e incomoda. Provavelmente, um erro grave na medida em que cria uma distorção e um risco enorme para o governador.

27 jul

Gracinha Caiado diz a Lissauer Vieira, na Cidade de Goiás, que a Assembleia será responsável pelo atraso no pagamento do funcionalismo se não aprovar a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal

Não é novidade que a primeira dama Gracinha Caiado interfere diretamente nas decisões do governador Ronaldo Caiado e que, pelo seu suposto gênio forte (gosta de se autoproclamar como “leoa”), tem às vezes mais preponderância que o próprio marido em situações que envolvem a condução política do governo.

 

Na Cidade de Goiás, durante as festividades da transferência da sede do governo para a velha capital, Gracinha extrapolou ao manter uma conversa ácida com o presidente da Assembleia Lissauer Vieira, que a coluna Giro, de O Popular, registrou de maneira inocente na edição deste sábado de O Popular: ela apenas teria aproveitado a oportunidade para pedir ajuda a Lissauer Vieira quanto a aprovação no Legislativo para a adesão de Goiás ao Regime de Recuperação Fiscal. Tudo bem se tivesse sido só isso.

 

Mas, não. Gracinha Caiado foi mais longe. Ela ameaçou Lissauer Vieira: disse que, se a Assembleia não concordar com o RRF, o Poder será responsável pelos atrasos que, segundo ela, se sobrevirão ao pagamento do funcionalismo. O presidente da Assembleia evitou qualquer resposta. Mais: outros deputados presentes na Cidade de Goiás foram igualmente coagidos. Vinicius Cirqueira, da base de Caiado, foi um deles. Mulher de governador se metendo em política é nitroglicerina pura e, quando isso ocorre, é recomendável que os interlocutores envolvidos se finjam de mortos. Por isso, mesmo chocado, Lissauer Vieira preferiu se calar diante da primeira dama e investir em um outro diálogo que teve, também na Cidade de Goiás, com o secretário de Governo Ernesto Roller, ao qual apresentou a sensata sugestão de criação de uma comissão formada por representantes do Executivo, Legislativo e Judiciário, além dos Poderes equivalentes (Ministério Público, Defensoria Pública e Tribunais de Contas), o que tem toda lógica e pode até levar a algum tipo de resultado.

27 jul

Pela primeira vez em toda a história das solenidades de transferência da capital para a Cidade de Goiás, presidente da Assembleia não discursa. Cerimonial de Caiado cortou Lissauer Vieira

Pela primeira vez em toda a história das solenidades de transferência da sede do governo do Estado para a Cidade de Goiás, iniciada em 1988, mediante uma lei estadual (a de número 10.460), o presidente da Assembleia não teve a oportunidade de se manifestar durante a cerimônia oficial na praça principal da velha capital. Lissauer Vieira foi até homenageado pelo governador Ronaldo Caiado com uma das comendas mais graduadas da Ordem do Mérito Anhanguera, criada pelo ex-governador Marconi Perillo, mas deixou de ser chamado pelo cerimonial para usar o microfone – ao contrário do sempre aconteceu até hoje, quando o comandante do Legislativo sempre foi a segunda autoridade em importância a falar depois do governador. No bolso, estava um discurso, em tom formal, apropriado para o momento.

 

Lissauer Vieira e Caiado não se dão bem e isso não é novidade. O Palácio das Esmeraldas nunca digeriu a eleição de Lissauer para a chefia da Assembleia, quando tinha preferência ostensiva pelo deputado Álvaro Guimarães. O governador chegou a manifestar essa morrinha de viva voz ou cara a cara, em uma conversa que aquele que terminaria vencedor da disputa pela presidência da Assembleia considerou como humilhante.  Apesar de tudo, dois mantêm encontros esparsos, em que a relação passa por altos e baixos, mais baixos que altos. É a primeira vez, em mais de 60 anos, em que o Executivo, em Goiás, não tem nenhuma afinidade com o Legislativo, considerando-se as figuras das suas maiores autoridades, Caiado e Lissauer.

 

Surpreendeu, portanto, que o presidente da Assembleia não tenha sido chamado para falar na Cidade de Goiás, embora, por outro lado, o que se tenha é que o episódio não passou de mais uma manifestação da declarada indisposição do governador com Lissauer Vieira.

 

27 jul

Farra das medalhas na Cidade de Goiás repetiu governos de Marconi e Zé Eliton e desperdiçou dinheiro público em um momento de dificuldades financeiras alegadas pelo próprio governador Caiado

Nada menos do que 334 medalhas honoríficas foram entregues pelo governador Ronaldo Caiado, na semana passada, durante a solenidade de instalação do governo na Cidade de Goiás, mobilizando centenas de funcionários públicos, um grande volume de despesas com diárias e transporte, além de aluguel de tendas e palcos (e quem sabe muito mais), sem falar no custo direto das insígnias em metal dourado – compradas pela Secretaria da Casa Civil por R$ 36 mil reais, à vista.

 

Vejam bem, leitora e leitor: segundo alega insistentemente o próprio Caiado, Goiás vive uma crise financeira sem precedentes. Diz ele que não há caixa para nada, como não houve para quitar os salários do funcionalismo referentes ao mês de dezembro, até hoje sem liquidação integral. Mesmo assim, apareceram recursos para pagar os galardões entregues a mais de três centenas de pessoas, acompanhados de estojo e diplomas. E mais uma festança como poucas vezes houve, mesmo nos governos passados que tanto apreciavam esse tipo de evento. Dinheiro público jogado para cima. Ou pelo ralo.

 

Austeridade fiscal não dá margem para nada parecido. Ou se fecha a torneira ou não passa de conversa fiada. O que se gastou com a farra das medalhas na Cidade de Goiás, mais os custos da transferência da sede do governo, sem nenhum sentido prático, pode ser pouco dinheiro comparado à imensidão do rombo apregoado por Caiado. Mas é de grão em grão que a galinha enche o papo. Economia tem de ser para valer e, simbolicamente, deve ir a extremos como o corte do cafezinho. Sem falar no exemplo: um governo que pede sacrifícios para a sociedade deveria ser o primeiro a cortar na carne. Até o osso. Não patrocinar folguedos.

27 jul

Transferência do governo para uma velha capital é costume superado que não existe em nenhum outro Estado e implica em gastos de milhões em troca de nenhum benefício para o povo goiano

Como é que um Estado em forte crise financeira, segundo alega o governador Ronaldo Caiado, pode se dar ao luxo de transferir a sede do governo para a velha capital, a um custo financeiro elevado em termos de deslocamento de funcionários com as suas subsequente diárias, vôos de aviões, viagens de carro, banquetes, centenas de medalhas (acompanhadas de faixas e estojos), locação de tendas e palcos, aparatos de segurança e tudo o mais em matéria de gastos que são exigidos para uma ocasião como essa? E sem falar na paralisação do governo por praticamente uma semana?

 

Não tem sentido. Não há nenhum ganho ou benefício prático para os milhões de goianos que pagam impostos e sustentam um Estado que continua ineficiente, ao contrário do que prometeu o candidato que venceu as eleições do ano passado com um discurso forte de mudança, no final das contas gorado, pelo menos quando se consideram os sete primeiros meses da nova gestão. Mudar o governo para a Cidade de Goiás poderia, sim, acontecer, mesmo porque se trata de uma lei e leis devem ser cumpridas. Mas de forma sóbria  e condizente com o discurso de austeridade que Caiado repete sem parar, com despesas mínimas. Essa folia não existe em nenhum outro Estado ou país. É coisa da roça goiana mesmo.

 

Pior é que, nesta sexta-feira, 26 de julho, não houve expediente nas repartições estaduais por conta da tal transferência da capital. Trata-se de um desvario, que Caiado poderia ter evitado, mas preferiu manter ao repetir tudo o que os antecessores fizeram no passado, desde a farra na distribuição de medalhas até a sequência de festas nas ruas de pedra que de importante para Goiás só têm hoje um ralo potencial turístico, nada mais – é a dura verdade. O feriado é injustificável. A transferência da sede do governo, a peso de ouro, menos ainda. Nem parece que houve eleições e que o governador é outro.