Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

31 dez

31 de dezembro de 2018: depois de 20 anos e deixando legado polêmico, Tempo Novo chega ao fim com as suas lideranças destroçadas e o sistema político que criou transformado em pó

Tudo passa, nada fica para sempre.

 

Lugar comum? Chavão? Talvez. Mas na manhã desta segunda-feira fria e nublada, é provavelmente nisso que estão pensando as centenas ou milhares de beneficiários do chamado Tempo Novo, o sistema político criado por Marconi Perillo a partir da sua revolucionária vitória eleitoral em 1998 e que as urnas deste ano reduziram a pó, destroçando impiedosamente as suas lideranças – inclusive o próprio Marconi, hoje exilado em São Paulo e sem a menor condição de aparecer em público em Goiás sem correr riscos de constrangimento pessoal.

 

Fala-se em “legado” desse Tempo Novo, a exemplo do governador findante Zé Eliton, que deu entrevista neste último fim de semana sugerindo ao que sobrou do PSDB se empenhar mais na defesa do que foi feito no Estado nas últimas duas décadas. Só que não existe engano maior, mas apenas a persistência de um erro. Todo e qualquer governo acerta muito, como também equivoca-se muito. Faz parte. Não há “legado” capaz de ser reconhecido unanimemente como excepcional ou superior à média de qualquer administração, geralmente medíocres. Exigir o agradecimento da sociedade em razão de programas como Cheque Moradia, Renda Cidadã, Vapt Vupt ou Bolsa Universitária, de resto custeados com dinheiro público, levou os tucanos ao aniquilamento pelo voto popular na última eleição. Para quê insistir nesse caminho?

 

O mais sólido núcleo de poder jamais constituído em Goiás esfumaçou-se no ar, não sabe o que fazer com os cacos que restaram e não tem nenhum futuro. Passou.

29 dez

Não se iluda, leitora e leitor, em cada esquina há um João de Deus vendendo relações com o sobrenatural para colocar a mão no seu dinheiro ou… em algo mais sensível

João de Deus não é um fenômeno isolado: no Brasil e pelo mundo afora há um em cada esquina, vendendo relações privilegiadas com o sobrenatural para colocar a mão no seu dinheiro ou, principalmente se tratando de você, leitora, em algo mais delicado ou sensível.

 

A exploração da credulidade do ser humano é um ótimo negócio, seja para faturar materialmente seja para satisfazer instintos que deveriam estar sob controle em uma sociedade civilizada. Centenas, milhares de pastores evangélicos vendem até na televisão a cura milagrosa ou uma vida financeiramente melhor. Um deles, Valdemiro Santiago, apresentou ha poucos dias uma proposta sedutora para os seus equivocados fiéis: se você quer um salário melhor, então pague o dízimo sobre esse salário desejado e em breve Jesus o proverá. Isso mesmo: Jesus, em nome de quem se praticam as maiores barbaridades, as mesmas que ele, ao caminhar sobre a terra, tentou coibir ao chicotear os vendilhões do templo – episódio que provavelmente nunca aconteceu e em que pode ter se enganado, ao espancar pequenos comerciantes para atrapalhadamente favorecer os grandes negociantes da época.

 

Mas não são só os evangélicos. Outras religiões também concorrem, quase todas, menos os budistas, que não têm um deus a quem prestar contar. Vejam o caso do Santuário do Divino Pai Eterno, em Trindade, máquina de fazer dinheiro sem pagar impostos e sem prestar contas a ninguém, administrada por um demiurgo que voa em uma frota de Kings Air e que em breve estará na ante-sala do governador Ronaldo Caiado para pedir o vil metal, assim como sempre esteve atrás de Marconi Perillo para transformar o seu apoio político em retorno financeiro.

 

Um João de Deus foi preso e está fora do jogo. Outros, talvez milhares, continuam soltos por aí.

29 dez

O triste fim de Zé Eliton, inventado para a política por… Caiado, que Marconi cometeu o erro de cooptar, virou coveiro do mais sólido sistema político que jamais houve em Goiás e agora é nada mais que pó

Daqui a três dias, em uma rápida cerimônia no Palácio das Esmeraldas, Zé Eliton dirá palavras protocolares, debaixo de muita tensão, entregará o governo a Ronaldo Caiado e sairá – já disse que será pela porta de frente – para enfrentar as vaias e retornar ao destino que nunca deveria ter abandonado, o de advogado eleitoralista competente e atuante.

 

Zé voltará à planície sem deixar nada pelo que ser lembrado algum dia, a não ser o equívoco da sua candidatura, que acabou o transformando em coveiro do Tempo Novo, nada mais nada menos que o mais sólido e duradouro sistema político que jamais houve em Goiás… e agora virou pó.

 

Esse é o “legado” do Zé, o que restou da sua pretensão de fazer um “governo” de nove meses, que acabou no desastre da candidatura à própria sucessão classificada em 3º lugar, com pouco mais de 13% dos votos dos goianos, um número ridículo diante da força e grandeza da base política que representou. E o pior: com índices escandalosos de rejeição, que a essa altura devem ser muito maiores devido à revelação de que o discurso de campanha, que apresentava um Estado forte e atuante, não passava de uma mentira corroída pelo bolor do que verdadeiramente se passava nos bastidores do governo – um descalabro financeiro e administrativo, só.

 

Marconi Perillo, talvez o maior experiente líder do político de Goiás, caiu no engodo do Zé, bancando a sua candidatura ao governo, da mesma forma que, antes, Ronaldo Caiado também. Sim, foi Caiado quem inventou o Zé para a política, ao tomar a decisão sem pé nem cabeça de indicá-lo como vice de Marconi em 2010. Um antecedente que só traz preocupação, agora que Caiado, com a mesma imprevidência, pode estar escolhendo outros “Zés” para a sua equipe de governo – e olha, leitor, que alguns dos secretários anunciados têm muita semelhança.

 

Zé parte sem deixar saudades.

29 dez

Deputados que defendem “zerar” a Assembleia, eliminar a influência de Marconi e limpar o Poder, podem não ganhar a presidência, mas convenceram a maioria de que esse é o caminho certo

O movimento deflagrado por um grupo de deputados que defende “zerar” a Assembleia, eliminar a influência do ex-governador Marconi Perillo e seus aliados, limpando o Poder das irregularidades que ali se multiplicam há anos e anos, pode não ganhar a presidência, mas convenceu a maioria dos parlamentares estaduais de que esse é o caminho certo.

 

Tudo começou com um erro estratégico cometido por Álvaro Guimarães, candidato da preferência do governador eleito Ronaldo Caiado para ser o próximo presidente do Legislativo. Álvaro saiu negociando a torto e a direito, deixando vazar que estava se comprometendo – por exemplo – com a bancada do PSDB para manter a influência que Marconi sempre teve nas nomeações de diretores de casa (descobriu-se que tucanos derrotados, como Francisco de Oliveira e Eliane Pinheiro, seriam nomeados para cargos importantes de controle administrativo).

 

Além disso, espaços continuariam reservados para ex-presidentes, todos aliados de Marconi, no preenchimento de cargos gratificados. O atual presidente, Zé Vitti, também manteria, com Álvaro, diretorias e funcionários comissionados. Foi o que bastou para que deputados como Major Araújo, Amauri Ribeiro, Delegado Humberto Teófilo e Paulo do Trabalho botassem a boca no trombone, rebelando-se contra a imposição de Álvaro Guimarães e lançando a proposta de “zerar” o Legislativo, com a distribuição dos seus espaços entre os seus próprios integrantes e não a forças políticas externas. E também suprimindo os seus focos de corrupção.

 

O grupo lançou até um candidato alternativo, o Dr. Antônio, que rapidamente angariou as simpatias iniciais de mais de duas dezenas de deputados, viabilizando-se potencialmente para superar Álvaro Guimarães e conquistar a presidência. A ideia de uma “limpeza geral” no Poder, principalmente a partir dos escândalos de fim de mandato de Zé Vitti, como funcionários de limpeza ganhando mais de R$ 9 mil reais e distribuição à larga de diárias e viagens internacionais inexplicáveis, contaminou a maioria dos 41 parlamentares da Casa.

 

Se, no final das contas, Álvaro Guimarães ou qualquer outro deputado que não o indicado pelo grupo rebelde vier a vencer a disputa pela presidência, uma certeza haverá: a Assembleia terá efetivamente chances de ser “zerada” e se adequar aos novos ventos que soprarão com a chegada de Caiado ao governo, coroando um processo de ruptura com a velha política que era a rotina em Goiás.

29 dez

Por que o discurso de posse de um governador é importante e por que, no caso de Caiado, que assume na próxima terça, 1º de janeiro, é mais importante ainda

O discurso de posse de um governante que está assumindo o cargo para o qual foi eleito tem importância porque é o momento em que alinha os seus compromissos, esclarece as suas intenções e apresenta as ideias que tem na cabeça e que irão nortear o seu mandato.

 

Não é – ou não deveria ser – apenas uma peça vazia de retórica, a ser usada para lançar chavões e frases de efeito. Para isso, o momento certo é a campanha eleitoral, que já passou. Mais: no caso em que o governante foi eleito representando um processo de ruptura, como aconteceu com Ronaldo Caiado, o pronunciamento de posse é muito mais importante que o normal, pela expectativa que gera quanto aos fatos novos que virão junto com o início de um governo desalinhado com o que estava no poder.

 

Discursos, no mundo de hoje, parecem superados e identificados com um tipo de comunicação meio détraqué diante a modernidades consagradas como as redes sociais ou a difusão acelerada de informações e conhecimentos pelos canais da internet. Mesmo assim, em uma ou outra ocasião, ainda têm o que oferecer, o que acontece, por exemplo, quando o empossado fala na sua solenidade de investidura. Caiado vai ter o seu momento para dizer, com clareza e objetividade, o que não disse até hoje, desde que foi eleito: o que vai fazer e como vai fazer.

29 dez

Ao discursar na posse, na terça, 1º de janeiro, Caiado terá mais uma chance para detalhar o que vai fazer no governo – e espera-se que ele não apenas repita as generalidades que falou na campanha

Ninguém sabe até hoje o que o governador eleito Ronaldo Caiado vai fazer na sua gestão, quais serão as medidas iniciais, que rumos tomará na Educação, na Saúde e na Segurança – que são os principais campos de atuação do governo do Estado, mas evidentemente não os únicos.

 

Caiado, depois de ganhar nas urnas prometendo mudança radical, mas genérica, continuou repetindo essa parlenga e nunca avançou grande coisa sobre o que vai ser a sua administração, trafegando assim em sentido contrário a todos os demais governadores, que mal passado o pleito já saíram adiantando as suas definições políticas e administrativas.

 

O novo governador de Goiás terá agora mais uma chance, embora tardia, para deixar claros seus primeiros passos: na manhã do dia 1º de janeiro, terça-feira próxima, ele será o orador número um da sua solenidade de posse, no plenário da Assembleia Legislativa. Pela lógica e pela tradição, esse discurso deveria ser aproveitado para que Caiado apresente a sua concepção sobre o que será a sua gestão – a menos que ele, mais uma vez, decida desperdiçar a oportunidade com mais abstrações e sonegar aos goianos a satisfação das suas expectativas sobre o que vem por aí para o Estado, que, para o autor deste blog, é um direito inerente à cidadania de cada um.

 

Por enquanto, não há o que fazer a não ser aguardar.

28 dez

Reconstrução do governo de Goiás exige medidas que ainda não se sabe se Caiado está disposto a adotar, embora seja a mudança que prometeu e justificou a sua eleição com 60% dos votos, no 1º turno

Ronaldo Caiado foi espetacularmente eleito em 1º turno, com 60% dos votos dos goianos, anunciando uma mudança que não especificou em detalhes, mas que os goianos entenderam como necessária e urgente para o governo de Goiás – depois de 20 anos do Tempo Novo de Marconi Perillo e seus agregados.

 

A poucos dias da sua posse como o próximo governador do Estado, a pergunta que se faz não poderia ser outra: Caiado vai entregar o que prometeu?

 

Os dois primeiros movimentos concretos de Caiado não foram animadores: consultado sobre projetos que estavam na Assembleia, quanto a reinstituição dos incentivos fiscais e sobre a anistia aos devedores de ICMS, ele aprovou soluções prejudiciais ao Estado, claramente receoso de iniciar a sua gestão sob ataque do empresariado – aceitou que a barafunda dos incentivos fiscais prosseguisse e também que dívidas tributárias com o Estado fossem quitadas com títulos podres emitidos por um grupo privilegiado de empresas, que faturam mais com créditos de ICMS do que com as suas operações produtivas.

 

Ações convencionais não vão atender ao que os goianos que elegeram Caiado esperavam, ou melhor, esperam.  A questão que se coloca é: Caiado governador corresponderá ao Caiado candidato?

28 dez

Marconi não consegue se afastar da política de Goiás, na verdade não sabe o que fazer depois da derrota histórica que sofreu nas urnas, piorada pela prisão, e passa os dias pendurado no celular

O ex-governador Marconi Perillo vive dias que nunca imaginou, depois de 20 anos de poder contínuo, rodeado por uma corte de bajuladores e com todas as despesas pagas, além de um exército de empregados, prontos para atender todas as suas necessidades.

 

Isso acabou. Marconi agora é um cidadão comum. Ou talvez um pouco abaixo, já que não pode se expor em público, pelo menos em Goiás, sem correr o risco de ser hostilizado. Para se resguardar, quando vem a Goiânia – está morando em São Paulo – ele pega um vôo comercial para Brasília e de lá para cá se desloca em carro. Desde que perdeu a eleição e foi preso, fez isso duas ou três vezes. No mais, dedica-se oficialmente ao “trabalho” de consultoria que está prestando à Companhia Sideúrgica Nacional, ajeitado pelo seu amigo João Dória – que faturou milhões do governo de Goiás com anúncios nas suas revistas e em cotas de patrocínio das reuniões do LIDE, esquema de faturamento que o governador eleito de São Paulo mantinha ativos antes de se aventurar na política.

 

Diariamente, o ex-governador liga para prefeitos, autoridades e personalidades goianas que fazem aniversário. Quando estava no poder, tinha esse mesmo hábito, mas cumprimentava com rapidez e objetividade, mal dando tempo a qualquer extensão da conversa. Agora, não: Marconi perdeu a pressa. Quem define o tempo da conversa é o interlocutor.

 

O tucano-mor de Goiás, que saiu da eleição como um caco, dá sinais claros de que não sabe o que fazer da vida.

28 dez

Caiado terá prazo curto para mostrar porque representa a mudança e mais: a questão fiscal, que ele prioriza absolutamente, mesmo que bem resolvida, não representa a resposta que a sociedade espera dele

O governador eleito Ronaldo Caiado saiu completamente do padrão dos demais eleitos no último pleito e, da abertura das urnas até aqui, pouco adiantou sobre o que pretende fazer na sua gestão, a não ser falar insistentemente em resolver o drama fiscal do Estado – com a ajuda de um secretariado que está longe de ser excepcional e pouco impressiona em termos de qualidade técnica e política.

 

Caiado venceu com propostas genéricas e sem qualquer detalhamento. Do dia da sua vitória até hoje, não acrescentou quase nada ao seu discurso de campanha. Só se aprofundou na questão fiscal, que prioriza acima de qualquer outra coisa, mas falhou, nas duas ocasiões em que foi chamado a intervir, ao praticamente manter a barafunda dos incentivos fiscais no mesmo status quo e ao aprovar um programa de refinanciamento de dívidas tributárias que aceita papeis podres para a quitação de impostos em atraso.

 

Sinalização ruim, portanto. No discurso, uma linha. Na prática, outra. Mas, para o grosso do eleitorado que votou em Caiado, o problema fiscal, mesmo que venha a ser bem resolvido, não é o que interessa. Desenvolvimento, emprego, fim da corrupção, menos burocracia, mais oportunidades, desigualdades sociais menores – são temas assim que interessam à sociedade. Sobre eles, o novo governador nunca disse uma palavra depois que foi eleito.

 

Antigamente, um governante eleito dispunha de um ou até dois anos de crédito. Mas em um mundo diferente, que andava devagar, sem redes sociais e sem o que a internet e os smartphones significam em termos de transferência de informações e de conhecimento. Portanto, Caiado não terá muito tempo. Seu prazo para afirmação será curto, antes que sobrevenha a decepção. O mantra que ele repetiu a partir da sua vitória, o de que não tinha pressa para anunciar as suas definições, não vai valer um centavo furado.

28 dez

Novo governo tem interesse em embananar a folha de dezembro para ajudar na caracterização de Goiás como apto a ser incluído no Regime de Recuperação Fiscal, sonho dourado de Caiado

O governador eleito Ronaldo Caiado, que é pecuarista, é capaz de dar um boi e uma boiada para realizar o seu sonho dourado, que é começar a sua gestão com o enquadramento de Goiás no Regime de Recuperação Fiscal – categoria que dá a um Estado privilégios inimagináveis na sua gestão financeira (principalmente o apoio do Tesouro Nacional) e, mais ainda, fornece uma desculpa perfeita para um endurecimento da gestão, que se obriga a privatizar estatais e fica proibida de conceder aumentos salariais ou sequer realizar novos concursos.

 

O problema é que, sob o rigor da legislação que criou o RRF, Goiás não tem como ser incluído no programa, que até hoje só contemplou o Rio de Janeiro, comprovadamente afundado em um buraco fiscal de proporções gigantescas, muito diferente do que ocorre aqui no Estado, que sequer está com o pagamento do funcionalismo atrasado.

 

O RRF é uma espécie de maná dos céus ao dar a um governo estadual em dificuldades o aval que precisa para impor um ajuste severo. Ao ser admitido, o Estado passa para um regime de absoluto rigor, que deveria ser a praxe das administrações estaduais, tem que reduzir incentivos fiscais, privatizar empresas estatais, fica impedido de contratar pessoal, conceder auxílios e reajustes a servidores além da data-base, realizar concurso público, aprovar planos de carreira, criar cargos com aumento de despesas, conceder novos incentivos fiscais, gastar com publicidade e também celebrar novos convênios para transferência de recursos (a municípios, por exemplo). Ou seja: tudo que um governador entrante gostaria de fazer, mas nunca tem condições políticas, passando, com o RRF, a ter uma desculpa para endurecer o seu fluxo de caixa. Em contrapartida, recebe autorização para contrair empréstimos, fica livre temporariamente do pagamento das parcelas da dívida e ainda se habilita a receber ajuda direta do Tesouro Nacional.

 

Dos três requisitos exigidos para a inclusão no programa, Goiás só se enquadra em dois: 1) o somatório das despesas com pessoal, juros e amortizações ser igual ou maior que 70% da receita líquida corrente e 2) o valor total de obrigações ser superior às disponibilidades de caixa. Quanto ao terceiro item, receita corrente líquida anual menor do que a dívida consolidada ao final do último exercício, no caso do governo goiano ainda estamos com uma relação de 0,93, ou seja, a RCL é maior que a dívida consolidada e aí o RRF está descartado.

 

Caiado, como se sabe, tem andado de joelhos atrás do superministro da Economia Paulo Guedes, que indicou a ele, inclusive, a economista Cristiane Schmidt para cuidar da Secretaria da Fazenda (a ser fundida com a Segplan e renomeada Secretaria de Economia). Ele aposta todas as fichas na hipótese de receber apoio do governo federal para viabilizar o seu governo, o que não bate com a lógica: facilitar e cobrir o rombo de Estados e vai contra a lógica liberal que deve ser a tônica do presidente Jair Bolsonaro. O noticiário sobre a folha de dezembro em aberto faz parte da estratégia para tentar convencer o ministro a afrouxar as regras.

28 dez

Polêmica sobre o pagamento da folha de dezembro é um caso clássico em que os dois lados estão errados, o governo que sai e o governo que entra

A polêmica sobre o pagamento de dezembro do funcionalismo estadual é um caso clássico em que os dois lados – o governo que sai e o governo que entra – estão certos, por um lado, e muito errados, por outro. .

 

Na verdade, o debate sobre o assunto deveria partir de uma premissa que as duas partes precisam respeitar acima de tudo: os servidores têm direito incontestável a receber os salários, não só de dezembro, mas de todos os meses do ano, desde que tenham trabalhado. As manobras jurídicas e financeiras para que isso aconteça interessam menos, desde que o objetivo de pagar a folha seja cumprido, preferencialmente em dia, conceito elástico que hoje em dia implica em cinco a 10 dias de atraso.

 

A discussão instalada entre as duas gestões é meramente política. Para o governo entrante, que representa um processo de ruptura, interessa ao máximo caracterizar a administração findante como incompetente e desastrosa. Para o governo que está acabando, o objetivo é salvar o que for possível da sua imagem, já comprometida por um acúmulo de desacertos como se viu poucas vezes em outros momentos da história de Goiás. Na prática, tanto uma gestão como a outra dispõem dos meios necessários para garantir os vencimentos de dezembro dos servidores, desde que… haja dinheiro para isso.

 

E parece que há. O governador Zé Eliton prometeu pagar quem ganha até R$ 3,5 mil mensais até o último dia de dezembro. Na sequência, caberá ao seu sucessor Ronaldo Caiado quitar os salários de valor superior, o que, nos últimos quatro anos, aconteceu sempre no dia 10, com o dinheiro da arrecadação que entra entre dia 1º e dia 10 e assim acontecerá no mês de janeiro.

 

É muito simples. Fora disso aí, o que acontecer dará margem a algum tipo de suspeita.

26 dez

Mau sinal: cancelada a reunião desta quarta em que os deputados que apoiam Álvaro Guimarães para a presidência da Assembleia iriam contar os seus votos

A reunião convocada pelos deputados que apoiam a candidatura de Álvaro Guimarães para a presidência da Assembleia, marcada para esta quarta-feira, 26 de dezembro, foi cancelada.

 

É um mau sinal. Seja qual for a desculpa, fica a impressão de que o encontro foi suspenso por receio de não atrair um número expressivo de parlamentares. E isso especialmente depois que os partidários da candidatura do Dr. Antonio fizeram a sua reunião, com a presença de 23 deputados.

 

Segundo a turma de Álvaro Guimarães, não faria sentido que os adeptos do seu nome se sentassem para discutir estratégias depois o governador eleito Ronaldo Caiado anunciou que só vai tratar de assuntos pertinentes à Assembleia Legislativa depois que tomar posse, na semana que vem.

 

Pode ser que sim, pode ser que não. O fato é que o risco de comparecimento de um número pífio de deputados falou mais alto. E aí a agenda foi cancelada.

22 dez

Quatro deputados de perfil agressivo e sem papas na língua – Major Araújo, Amauri Ribeiro, Delegado Humberto Teófilo e Paulo do Trabalho – formam o núcleo pró-mudança radical e histórica na Assembleia

Quatro deputados estaduais que terão cadeiras na Assembleia na próxima Legislatura – um veterano, Major Araújo, e três novatos: Amauri Ribeiro, Delegado Humberto Teófilo e Paulo do Trabalho – têm em comum a agressividade na atuação política e a disposição para falar o que dá na telha, qualidades que estão sendo decisivas para imprimir um novo rumo ao Poder Legislativo em Goiás.

 

São eles que apresentaram a proposta de que a Assembleia deve ser “zerada”, ou seja, precisa ser submetida a uma “limpeza geral” que a liberte das influências do ex-governador Marconi Perillo e dos seus últimos ex-presidentes, que ainda conservam domínio sobre de contratos, diretorias e principalmente cargos comissionados e, pior de tudo, parece que manteriam esses espaços no caso da eleição de Álvaro Guimarães para a presidência.

 

Não há nada de convencional no perfil desses quatro deputados: são radicais mesmo, jacobinos e dispostos a levar as ideias em que acreditam às últimas consequências. Não são diplomatas na linguagem e nem se preocupam se vão melindrar ou não os colegas. O fato é que começaram com o pé direito, já que não se pode tirar deles o mérito de levantar uma discussão que, em última análise, ao defender a depuração política da Assembleia, acaba também alcançando a correção de práticas irregulares e imorais que sobrevivem incólumes há anos e anos dentro do Poder. Foram os quatro também que se rebelaram e praticamente mataram a candidatura de Álvaro Guimarães, ao denunciar compromissos para a nomeação de deputados tucanos derrotados para diretorias da Assembleia e assim eternizar a manutenção no controle de forças políticas varridas do mapa pela última eleição. A partir daí, surgiu a candidatura alternativa do Dr. Antônio, hoje em condições de pleno favoritismo para vencer a disputa.

 

Major Araújo, Amauri Ribeiro, Delegado Humberto Teófilo e Paulo do Trabalho estão fazendo muito pela moralização do Legislativo em Goiás, acompanhando os ventos de renovação que sopram no país. O que prova que, às vezes, um copo de cólera faz bem para esquentar os ânimos e sacudir o palco onde se decide a política estadual.

22 dez

Marconi desmente interferência na Assembleia, mas o fato é que pelo menos para um deputado ele ligou, sim, para defender a candidatura de Álvaro Guimarães como a melhor para o PSDB e aliados

O ex-governador Marconi Perillo, exilado em sua residência em São Paulo e oficialmente dedicado a um serviço de consultoria que está prestando à Companhia Siderúrgica Nacional, não conseguiu manter a decisão de cumprir um período sabático – ou seja, afastado da política em Goiás.

 

Segundo a coluna Giro, em O Popular, Marconi estaria ligando para deputados estaduais do PSDB e aliados, defendendo a candidatura de Álvaro Guimarães para a presidência da Assembleia como a que melhor atenderia aos interesses do seu grupo. É claro que a notícia teve grande repercussão: Álvaro, antes praticamente “nomeado” como o próximo presidente do Poder, vem sendo queimado por supostamente representar a continuidade da influência dos tucanos no Legislativo, o que levou ao surgimento de uma outra candidatura, a do Dr. Antônio, sob o lema de que é preciso “zerar” a Casa, isto é, livrá-la da ingerência de Marconi e dos seus últimos ex-presidentes.

 

Na sequência, Marconi apressou-se a desmentir a notícia e a garantir que continua longe de Goiás, muito mais ainda da disputa pela presidência da Assembleia – chegando até a argumentar que em seus governos nunca teve ingerência em assuntos internos dos deputados, conto da carochinha em que ninguém obviamente acredita. Mas pelo menos para um deputado – Tiago Albernaz, tucano P.O., que deixou o PSDB apenas para viabilizar a sua eleição – o ex-governador ligou, sim, e sem meias palavras orientou a opção por Álvaro Guimarães. Se buscou contatar outros deputados, além de Tiago, este blog não pode afirmar.

 

22 dez

Caiado reclama e classifica como “preconceito” as críticas à legião estrangeira que chamou para o secretariado. Mas como essa opção é incomum e nunca foi tentada, é natural que tenha provocado reações

Em O Popular, neste sábado, o governador eleito Ronaldo Caiado reclama e classifica como “preconceito” as críticas à legião estrangeira que chamou para integrar o seu secretariado – já são seis os nomes de fora convocados, mas, em especial, o que causou mais repercussão foi o da professora e ex-secretária de Educação de Rondônia Fátima Gavioli para a Secretaria Estadual de Educação, escolha que pareceu sem sentido diante de dois fatores: os antecedentes políticos e ideológicos dela e a sua experiência em um Estado onde a Educação é, por tudo, diferente da que existe em Goiás.

 

Caiado está errado em sua queixa. O que ele chama de “preconceito” é apenas a resposta natural à sua decisão de priorizar quadros estranhos a Goiás para ocupar os principais cargos da sua gestão. Isso é incomum e nunca foi tentando antes no Estado. Governos anteriores, no máximo, chegaram a trazer um ou dois forâneos como auxiliares de proa. E com uma baixa taxa de sucesso. No volume assumido por Caiado, é algo absolutamente inédito e tem os seus significados, o primeiro dos quais a impressão de que ele ou não confia ou não acredita na existência de goianos qualificados para trabalhar em funções importantes na sua administração. Não é de se admirar, portanto, que as reações não tenham se pautado pelo que o novo governador provavelmente esperava e que, em vez dos tradicionais elogios, tenham sido de desconfiança e em certos casos de decepção, visto que haveria talentos no Estado em igualdade ou superioridade de condições.

 

De resto, as declarações de Caiado sinalizam a sua falta de segurança sobre o caminho que adotou. Pessoalmente, ele não conhecia nenhum dos seis secretários que está importando, tendo se baseado em recomendações de ministros atuais e futuros, colegas do DEM nacional e, no caso de Fátima Gavioli, em sugestão da cada vez mais influente (na Educação brasileira) da Fundação Lemman, organização mantida pelo multibilionário Jorge Paulo Lemann com pretensões de abrir uma fenda liberal no ensino nacionale formar pensadores fora do marxismo das universidades federais.

 

Mais que escolhas, são apostas que podem ou não dar retorno. E apostas de alto risco.

 

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