Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

05 fev

Distanciamento entre Caiado e Lissauer é mais sério do que se imagina e vai se refletir em um relacionamento à base de crises entre Executivo e Legislativo

A eleição para presidente da Assembleia não terminou com a vitória de Lissauer Vieira e vai continuar se desdobrando nas crises que vêm aí no relacionamento entre Executivo e Legislativo – mesmo porque o governador Ronaldo Caiado engoliu, obrigado que foi, mas não digeriu a derrota.

 

Até hoje, cinco dias depois que o plenário escolheu Lissauer Vieira, ele não fez a tradicional visita protocolar ao governador que é prevista nessas ocasiões. Caiado, por sua vez, demorou o quanto pôde para apresentar seus cumprimentos ao deputado-presidente: só o fez no terceiro dia após a eleição, através de um telefonema curtíssimo, no qual praticamente entoou um seco “parabéns” e em seguida desligou.

 

Na quarta-feira anterior à eleição, Lissauer Vieira foi chamado à noite ao Palácio das Esmeraldas, onde ouviu de Caiado um pedido – quase uma ordem – para que retirasse a sua candidatura em favor de um nome preferencialmente do DEM (o governador não citou especificamente Álvaro Guimarães, que é do partido). O deputado considerou a propostas desrespeitosa, principalmente da maneira dura com que foi colocada e preferiu encerrar a conversa, que durou poucos minutos, e se retirar. Não é exagero dizer que o resultado dessa rápida reunião foi uma espécie de rompimento pessoal entre os dois.

 

Lissauer Vieira está dando o troco aos poucos. Nas entrevistas após a eleição tem repisado o tema da independência da Assembleia, acrescentando que irá exigir o duodécimo que é legalmente devido pelo Executivo e nunca foi pago, com o qual pretende tocar a obra da nova sede do Legislativo (em desacordo com a política de austeridade do Palácio das Esmeraldas). E passou a trabalhar pessoalmente junto aos demais parlamentares do seu grupo para que aceitem a indicação de nomes ligados ao ex-governador Marconi Perillo para diretorias importantes da Casa, como a de Comunicação, que deve ser entregue ao jornalista Danin Jr, ex-subchefe do Grupo de Comunicação dos governos passados, além da ex-deputada Eliane Pinheiro para a diretoria administrativa. Esteve também no aniversário do ex-prefeito de Catalão Jardel Sebba, marconista roxo, onde posou sorridente para fotos com o ex-governador tampão Zé Eliton.

 

Para Caiado, são nuvens negras que despontam no horizonte da Alameda dos Buritis.

04 fev

Fátima Gavioli é aprovada em concurso para servidora administrativa da Universidade Federal de Rondônia, com salário de R$ 4 mil. Ele vai deixar a secretária estadual de Educação para assumir?

De todos os secretários que o governador Ronaldo Caiado trouxe de fora, a que mais chama a atenção é a professora Fátima Gavioli, seja pelas suas peculiares características pessoais, seja pelo fato de ter sido conduzida para a pasta mais estratégica, do ponto de vista de contato com a população: a Secretaria estadual da Educação, com as suas 1.150 escolas, 500 mil alunos e 40 mil servidores para administrar. Com a determinação de Caiado para que todos os secretários façam um corte de 20% em suas áreas, ela está diante de um desafio e tanto, para a solução do qual está recorrendo a expoentes da administração da sua antecessora Raquel Teixeira e com isso gerando reações iradas em quem esperava uma mudança na Seduce.

 

Fátima Gavioli já disse, em uma reunião interna, que o salário  de titular da pasta, de R$ 14.991 líquidos por mês, é insuficiente para a sua manutenção em Goiás. Para complementar a renda, aceitou dar aulas em um curso de pós-graduação de uma faculdade particular instalada em Goiânia. E agora, mais uma novidade: no final do ano passado, ela prestou concurso para a área administrativa da Universidade Federal de Rondônia, cujo resultado acaba de sair. Fátima Gavioli foi aprovada para um cargo de pouco mais de R$ 4 mil mensais. E então? Ela vai assumir? É possível assegurar esse cargo e continuar como secretária do governo goiano?

 

Estão faltando explicações. De resto, o drama da legião estrangeira de Caiado é o baixo salário pago pelo governo estadual diante das despesas de mudança e do cotidiano em uma terra estranha, longe da família e das suas raízes. O caso de Fátima Gavioli não é isolado e reproduz, em última análise, as agruras que todos os demais secretários importados estão vivendo. Acrescente-se a isso a reação bairrista natural dos goianos e o desconhecimento que cada um tem da realidade do Estado. A derrota do governo na eleição para presidente da Assembleia, resultado de uma reação à marginalização da classe política regional na composição do secretariado, foi uma primeira resposta à turma de fora. Não há como não concluir que a aposta de Caiado é muito arriscada.

04 fev

Ao contrário do que pensam Talles Barreto, Lucas Calil e Gustavo Sebba, erros de Caiado não eximem Marconi e Zé Eliton da culpa por transformar o Estado em terra arrasada… e eles estão devendo explicações

A oposição oficial ao governo Ronaldo Caiado está resumida hoje aos deputados Talles Barreto e Gustavo Sebba, do PSDB, e Lucas Calil, do PSD. São eles que têm feito algum barulho, especialmente na tentativa de faturar politicamente os erros – e não são poucos – que Caiado está cometendo nos passos iniciais da sua gestão. Os três agitam a Assembleia e a mídia o quanto podem, mas partindo de um ponto de vista que afeta gravemente a credibilidade de tudo o que dizem: não interessa como Marconi Perillo e Zé Eliton entregaram o Estado, competindo a Caiado resolver os problemas sem olhar para trás e sem reclamar da herança recebida.

 

Essa tese, subjacente às críticas feitas por Talles, Gustavo e Lucas, não tem sustentação. Marconi e Zé têm culpa no cartório e estão devendo explicações. Até hoje, só se manifestaram no caso da recusa de Caiado em pagar a parte da folha de dezembro que não foi empenhada no ano passado. Zé disse que o cronograma sempre foi o de quitar os salários até o dia 10 do mês seguinte e que, portanto, estava com a consciência em paz. E Marconi soltou uma nota, exaltando a si mesmo pelo fato – verídico – de nunca ter atrasado o pagamento do funcionalismo em seus quatro governos.

 

Isso é pouco. A situação de calamidade financeira do Estado pode não ser tão danosa quanto o novo governo quer fazer crer, porém é real e foi produzida sob responsabilidade de Marconi e Zé. Houve maquiagem da contabilidade, embora permitida por uma emenda constitucional estadual e pelo Tribunal de Contas, em desacordo com as regras nacionais de responsabilidade fiscal. Gastos foram efetuados de forma leviana, a exemplo do programa Goiás na Frente, que não cumpriu com o acertado nos convênios e deixou prefeituras e empreiteiras em dificuldades. Zé, nos seus dias finais, priorizou o pagamento de obras do seu interesse pessoal. Ele e Marconi criaram com as próprias mãos o caos que acabou no colo de Caiado.

 

Ao desprezar essa realidade e centrar as críticas nos atos do novo governo como se ele estivesse começando do zero, os três deputados cometem uma injustiça e ficam sob a suspeição que atinge a qualquer um que torça a verdade. Caiado não pode passar uma borracha no passado, ao contrário, sua obrigação como autoridade maior do Estado é averiguar tudo o que houve e buscar a imputação de quem tomou as decisões que trouxeram prejuízos para os goianos – e nesse sentido deveria ser apoiado por quem quer que seja que tenha autoridade constituída, caso de Talles, Gustavo e Lucas, que estão investidos em mandatos parlamentares.

04 fev

Corra, Caiado, corra: com 4 meses desde a eleição e mais de mês após a posse, equipe de governo segue incompleta, não houve cortes de despesas, faltam ajustes e uma proposta para os próximos 4 anos

O governador Ronaldo Caiado está completando quatro meses desde que foi eleito, já passou de um mês de mandato, mas a administração segue com a sua equipe de trabalho incompleta, até agora não houve nenhum corte expressivo de despesas (apesar da decretação da calamidade financeira, o que Caiado fez foi aumentar os gastos com a folha de pessoal distribuindo benesses para faixas do funcionalismo que equivalem a mais de R$ 60 milhões/mês), fala-se em um ajuste da máquina, mas de concreto nada foi feito – e, o pior de tudo, não há uma proposta ou um conjunto de projetos para os próximos quatro anos, principalmente para tornar realidade o que foi prometido de forma genérica na campanha e motivou o voto dos goianos, ou seja, uma mudança.

 

Caiado precisa correr. A estratégia de aguardar a ajuda do governo federal, ainda que tivesse chances de se tornar realidade, não tem sentido diante do muito que o próprio Estado pode fazer. Aliás, das medidas previstas pelo Regime de Recuperação Fiscal que o governador tanto almeja, apenas duas – a suspensão do pagamento das parcelas da dívidas e a possibilidade de contratação de novos empréstimos – não são são de competência estadual. Todas as demais, como a suspensão de aumentos salariais, proibição de realização de novos concursos, leilão de pagamentos, redução de incentivos fiscais e por aí afora, podem ser adotadas quando e como Caiado quiser, dependendo apenas da sua vontade de enfrentar os desgastes que virão (para os quais o RRF seria uma bela desculpa, ao jogar a responsabilidade no colo de Brasília).

 

A eleição de 7 de outubro de 2018 foi vencida com folga em Goiás por um candidato que repetia diariamente saber o que fazer, por um lado, e que o Estado seria maior que os seus problemas, por outro. Mas, entre a campanha e o que veio depois, parece haver um descompasso muito grande e nessa marcha o enorme capital político de Caiado está sendo queimado à toa, primeiro por uma questão de inércia do poder (todo governo é obrigado a ações impopulares) e segundo em razão de decisões equivocadas mesmo (como a de não pagar uma parte da folha de dezembro do funcionalismo) ou então soluções polêmicas e impensadas (caso da manutenção da Bolsa Universitária, com o compromisso de pagar seu passivo ainda neste ano e sem uma avaliação do seu retorno para o desenvolvimento do Estado). O novo governo parece padecer de um desperdício evidente de tempo – e de dinheiro.

03 fev

Irresponsabilidade de Marconi e Zé Eliton com o programa Goiás na Frente vai muito além da falta de pagamento dos convênios: R$ 184 milhões foram desperdiçados em obras inúteis e superficiais

O jornal O Popular deste domingo publica um detalhado levantamento mostrando que o programa Goiás na Frente – aquele que, sob a capa de apoiar os municípios, tinha o propósito de criar viabilidade eleitoral para a candidatura do então governador Zé Eliton à sua própria sucessão e reforçar a de Marconi Perillo ao Senado – não cumpriu quase nada do que se propôs e só repassou aos prefeitos um terço dos recursos prometidos.

 

Prefeitos que licitaram, contrataram e executaram obras com base no dinheiro prometido pelo Goiás na Frente entraram em uma fria, arrastando para o buraco mais de 200 empreiteiras de pequeno e médio porte, que não receberam todo o devido pelos serviços prestados e nem sabem quando vão receber. Isso é grave, mas a reportagem de O Popular não tocou no que é mais preocupante: os R$ 184 milhões que foram repassados às prefeituras, dos R$ 533 milhões do valor total dos convênios firmados, foram desperdiçados em recuperação de asfalto urbano, construção de pistas de caminhada, reformas de prédios e até em eventos festivos (como festivais gastronômicos e rodeios-show). Nada disso tem retorno quanto ao desenvolvimento econômico ou mesmo quanto a redução das desigualdades sociais pelo Estado afora.

 

O pior é que os R$ 533 milhões, soma dos convênios assinados, foram comprometidos na sua integralidade, através das licitações feitas nos municípios supostamente beneficiados, embora só R$ 184 milhões tenham sido repassados. Significa que, do ponto de vista jurídico, esse dinheiro perdeu-se pelo ralo, já que o Estado está devendo esses repasses, que teoricamente terão que ser feitos, mais cedo ou mais tarde. Aparentemente, não há outra solução. Graças à irresponsabilidade de Marconi e Zé Eliton, foram e serão centenas de milhões de reais desperdiçados, em projetos que eventualmente que até podem micro atender a comunidades localizadas (a que as prefeituras estão obrigadas diretamente), mas não têm nem terão efeito nenhum para o conjunto da população do Estado.

 

É caso de polícia.

03 fev

Apesar de ter bons articuladores políticos potenciais (Roller, Tejota, Samuel Belchior e Marcos Cabral, por exemplo), Caiado não credenciou nenhum e quis eleger sozinho o novo presidente da Assembleia

É surpreendente e quase inacreditável que um veterano em mandatos parlamentares como o governador Ronaldo Caiado – mais de 30 anos como deputado federal e senador – tenha sido forçado a engolir uma derrota acachapante na eleição para presidente da Assembleia, colhido de surpresa pelas manobras contra o seu candidato Álvaro Guimarães e imobilizado durante a reta final do processou que consagrou Lissauer Vieira no cargo.

 

Caiado, ao alcance da mão, dispõe de articuladores experientes, alguns oriundos da própria Assembleia, com mais de um mandato e aparentemente capacitados a negociar com os deputados. Ernesto Roller, secretário de Governo, por exemplo. O vice-governador Lincoln Tejota. O ex-deputado Samuel Belchior, que não tem cargo, mas desde a campanha cumpre missões políticas para o novo governador. Ou o ex-prefeito Marcos Cabral, atual secretário de Desenvolvimento Social, mas habilidoso e conciliador no trato com a classe política.

 

Estranhamente, Caiado não recorreu a nenhum deles, que até atuaram na sucessão do Legislativo, mas erraticamente, com as mãos vazias, sem nada para apresentar de concreto aos parlamentares estaduais – a maioria ressentida com o distanciamento imposto pelo Executivo e também porque nunca foram chamados ou ouvidos para nada, quanto menos para discutir a ocupação de espaços na administração (aspiração básica de qualquer deputado em qualquer parte do mundo). Roller, Tejota, Belchior e Cabral não tinham em mãos qualquer credencial para falar em nome do governo, função que foi assumida – em um erro sem tamanho – pelo próprio Caiado com um rosário de equívocos (veja, leitora e leitor, em contraponto, a vitória que o presidente Jair Bolsonaro, sem se envolver diretamente, teve no Senado Federal com a eleição de Davi Alcolumbre para a presidência articulada pelo seu secretário da Casa Civil Onyx Lorenzoni).

 

Com a relação entre o Palácio das Esmeraldas e a Assembleia esgarçada no pós-eleição pela euforia dos vitoriosos e a depressão dos vencidos, Caiado será obrigado agora a tentar do zero o estabelecimento de uma relação com os deputados que dê um mínimo de governabilidade para a sua gestão. Articuladores para isso, ele tem. Resta saber se vai se lembrar do que aprendeu nos seus anos de Congresso Nacional ou se esqueceu de tudo.

02 fev

Fátima Gavioli vai dar aulas de pós-gradução em faculdade particular de Goiânia, para complementar renda e custear sua manutenção em Goiânia, drama dos secretários que vieram de fora

A secretária estadual de Educação Fátima Gavioli assinou contrato para trabalhar como professora de curso de pós-graduação em Psicopedagogia em uma faculdade particular de Goiânia (a Faculdade Delta, associada ao Colégio Delta).

 

Ela ministrará aulas em finais de semana, como é padrão em todo e qualquer curso de pós-gradução, devendo receber – no caso dela, que é doutora – entre R$ 3 e 4 mil reais por fim de semana, mas exclusivamente quando ela atuar como professora naquele período.

 

Como titular da pasta da Educação, Fátima Gavioli recebe R$ 14.999 mensais líquidos, valor com o qual ela deve fazer face às suas despesas, inclusive de mudança para Goiânia, já que ele veio de fora (morava em Rondônia, onde, inclusive, foi candidata a deputada estadual, sem sucesso,  nas últimas eleições). Não é preciso de mais informações para saber que esse salário é insuficiente ou no mínimo apertado para quem está se instalando em uma cidade onde nunca pisou antes – os gastos são pesados para qualquer um.

 

Em uma reunião com a sua assessoria na Seduce, há poucos dias, ela fez um desabafo: disse que o salário de secretária é baixo demais e que, após as despesas obrigatórias, só sobram R$ 4 mil mensais e que isso, em especial para quem está morando longe da família, acaba em sofrimento. É o mesmo drama enfrentado por todos os secretários que o governador Ronaldo Caiado trouxe de fora.

02 fev

Caiado está aprendendo o quanto é duro e difícil governar: ele promoveu e deu aumento aos soldados de 3ª classe da PM (que foi extinta), mas não há um só deles satisfeito e todos estão reclamando

Vida de governante é dura e difícil até quando, desenvolvendo a agenda positiva, distribui benesses e faz concessões. Vejam, leitora e leitor, o caso de Ronaldo Caiado, que prometeu na campanha eliminar do quadro da PM os soldados de 3ª classe, assumiu o governo e imediatamente cumpriu, mesmo às custas de aumentas as despesas e um Estado corroído por uma crise fiscal – mas o que fez foi aumentar a insatisfação dos beneficiados, que estão reclamando e acusando Caiado de não ter procedido exatamente dentro do compromisso que fez.

 

Simples: Caiado promoveu todos os soldados de 3ª classe para a 2ª classe, o que pressupõe obviamente que ainda há a 1ª classe, ou seja, que ainda são duas classes com salários diferentes. Este blog pesquisou as várias ocasiões em que o governador, na campanha e depois, inclusive no dia em que determinou a extinção da 3ª classe, e encontrou repetidas vezes o vocábulo “equiparação”. Isso mesmo, Caiado prometeu aos 2.661 soldados de 3ª classe que eles seriam “equiparados”, várias vezes detalhando que a existência de categorias na PM seria absurda e, portanto, passando a impressão cristalina de que que haveria, no seu governo, somente uma classe, única, e que todos os soldados estariam nela.

 

Não foi o que aconteceu. Vale lembrar mais uma vez: campanha é uma coisa, governo é outra. Para começo de conversa, Caiado, se fosse coerente com tudo o que fala, não assinaria nenhuma medida capaz de aumentar despesas, já que declarou Goiás em situação de calamidade financeira. Mesmo assim, ele resolveu atender a soldadesca, que vai passar de R$ 2.126  para R$ 5.766 mensais, um aumento espetacular de salário. Não, governador, disseram eles, inclusive inundando de reclamações os perfis de Caiado nas redes sociais, nós queremos é equiparação, ou seja, o salário do soldado de 1ª classe, que é de R$ 6.358 por mês. E estão certos: “equiparação” seria isso mesmo.

 

Caiado cumpriu a promessa que fez aos soldados? Na cabeça dele, deve pensar que sim. Mas os camaradas praças estão convictos de que foram traídos, mesmo ganhando a partir de agora mais do que o dobro do que ganhavam.

02 fev

Eleição do novo presidente da Assembleia deixou sequelas que só serão superadas se Caiado se dispuser a mudar o tratamento que dá aos deputados e abrir espaços no governo – coisa que ele não quer fazer

A eleição de Lissauer Vieira para presidente da Assembleia terminou com ele próprio e seus apoiadores desfiando o discurso de que não há intenção de criar problemas para o governador Ronaldo Caiado e que o Legislativo está firme na intenção de apoiar tudo o que for necessário para desenvolver o Estado e beneficiar os goianos. Embora Caiado, pessoalmente, não tenha dito um “a” sobre o episódio, além de apresentar cumprimentos formais a Lissauer Vieira através das redes sociais, portavozes do Palácio das Esmeraldas apressaram-se a anunciar que está tudo superado e que agora é trabalhar pela convergência de interesses e solidificar um bom relacionamento entre ambos os Poderes.

 

Palavras bonitas e diplomáticas, mas só isso. Lissauer Vieira foi imposto goela abaixo de Caiado pela maioria esmagadora dos deputados – 37 – unidos em torno da bandeira da independência da Assembleia e da distribuição das suas benesses entre os seus próprios integrantes, além de representar uma resposta duríssima para o desprezo que o novo governador dedicou e dedica a parlamentares, quaisquer que sejam, inclusive aqueles dispostos a perfilar na sua base de apoio. Caiado não gostou e avisou de viva voz – o que pode ser atestado por deputados como Iso Moreira, Dr. Antônio, Lucas Calil ou Diego Sorgato – que tem um sobrenome conhecido em Goiás por não levar desaforo para casa.

 

Ficaram sequelas, portanto. E é normal. Ao trazer a maior parte do seu secretariado de fora, o novo governador, como registrou o jornal O Popular, sinalizou “desprezo” pela classe política do Estado. E neste sábado, mesmo após o que aconteceu na Assembleia, o mesmo O Popular anota que o núcleo central do seu governo defende uma abertura para os deputados na estrutura administrativa, mas… Caiado é contra.

 

Round 1: Caiado ganha a eleição e monta o seu governo excluindo os parlamentares que ganharam com ele. Round 2: esses parlamentares dão o troco e impõem uma derrota de repercussão nacional a Caiado, elegendo um presidente da Assembleia desconectado com o seu comando. Round 3: é o que começa agora, com os competidores bem postados face a face. Vamos ver no que vai dar.

02 fev

Sugestões do Sindifisco para resolver a crise fiscal sem travar o Estado e com foco na eliminação dos ralos que drenam a arrecadação de ICMS mostram que a solução para Goiás está aqui mesmo e não em Brasília

O governador Ronaldo Caiado completou um mês de mandato batendo cabeça atrás de saídas para a crise fiscal em que recebeu o Estado, mas sem produzir ainda qualquer plano e apresentar alguma ideia para encontrar o caminho do reequilíbrio financeiro de Goiás – a não ser a esperança vã de receber auxílio emergencial do governo federal, que está ostensivamente com as portas fechadas para o atendimento das demandas dos entes federativos em situação de descalabro fazendário.

 

Caiado sonha com a recuperação fiscal patrocinada por Brasília, apesar de saber que ela não virá e que foram frustradas as expectativas criadas pelo ministro da Economia Paulo Guedes nesse sentido. Por outro lado, o novo governador fala sem parar em “cortar no osso”, sugerindo acreditar que pode conseguir uma expressiva redução de gastos e melhorar as condições das finanças estaduais. Só que, nos seus primeiros 30 dias, em vez de sequer arranhar de leve o esqueleto administrativo que comanda, Caiado aumentou as despesas, principalmente através da distribuição de aumentos salariais e vantagens como o auxílio alimentação para o funcionalismo.

 

É óbvio que, a continuar assim, a crise fiscal vai se agravar. Mas ela pode ser resolvida com medidas que estão ao alcance da caneta-mor do Palácio das Esmeraldas, como provam as sugestões(veja quadro acima) anunciadas pelo Sindifisco – o sindicato que representa os fiscais e auditores da Secretaria da Fazenda – para que o governo resolva suas agruras de caixa. Tudo muito simples, indo direto ao ponto, ou seja, o Estado só se ajustará pelo aumento da arrecadação (as despesas são inelásticas e, como as da folha de pessoal, crescem vegetativamente) e isso só acontecerá com a eliminação dos privilégios das empresas beneficiadas por incentivos fiscais e outras regalias tributárias, como por exemplo a farra dos créditos outorgados ou não e das concessões de créditos especiais, além da criação de uma contribuição financeira sobre as commodities estaduais (o que equivale a um novo imposto). Mexer com isso corresponde ao mesmo que cutucar um vespeiro com a vara curta, despertando a ira do setor empresarial, e aí é preciso que o governador tenha coragem sobrando.

 

Caiado tem? Deveria ter. Ele recebeu uma formidável credencial das urnas, ao vencer a eleição no 1º turno com recorde de votos. É um capital político e tanto, que até agora não foi usado para nada e está guardado no armário, deteriorando-se aos poucos, como no caso da derrota que sofreu na escolha do novo presidente da Assembleia. Mas ainda há tempo para usar o que restou, chamar os técnicos do Sindifisco e começar, de fato, a entregar o que prometeu na eleição: mudança.

01 fev

Esclarecimento: secretário de Governo Ernesto Roller não teve a mulher nomeada para a OVG

Em contato com este blog, o secretário de Governo Ernesto Roller esclareceu que não teve a mulher ou qualquer parente nomeado para a Organização das Voluntárias de Goiás nem qualquer outra área da administração, conforme circulou entre os deputados estaduais durante as conversações sobre  a definição do novo presidente da Assembleia.

 

O blog verificou e, de fato, não confirmou a informação. Nossas escusas ao secretário Roller.

01 fev

Definição do significado de “conchavo” é fundamental para que se entenda o governo Caiado e para saber se é ou não uma gestão diferente das anteriores, que ele tanto critica

Desde que ganhou a eleição e principalmente depois de empossado, o governador Ronaldo Caiado vem repetindo que acabou a era do “conchavo” em Goiás, que, segundo ele, seria a rotina das administrações passadas. Em especial no caso da extinção das 5 secretarias extraordinárias, Caiado foi muito claro ao dizer que se tratavam de pastas destinadas a abrigar apaniguados políticos, sem utilidade para o Estado, e que isso seria o que mais caracterizou o “conchavo” nos governos de Marconi Perillo e Zé Eliton.

 

O novo governador, querendo ou não, acabou chamando a atenção para os limites dos componentes políticos de todo e qualquer governo. No seu primeiro mês de mandato, ele praticamente não fez “conchavos”, entendendo-se a expressão, como ele fez ao referir-se às secretarias extraordinárias, como sinônimo da nomeação de políticos para cargos na administração. E pagou um preço alto, perdendo o apoio da maioria dos deputados no processo de escolha do novo presidente da Assembleia, praticamente todos reclamando de que não foram ouvidos ou prestigiados com “conchavos” por Caiado.

 

Mas “conchavo” é algo tão pernicioso assim ou, pragmaticamente falando, trata-se de uma necessidade vital para o andamento estável de todo e qualquer governo? E Caiado, ao nomear, por exemplo, um ex-prefeito de Americano do Brasil, cidade localizada na região onde tem fazenda, como vice-presidente da Saneago, apesar de não ter nenhum conhecimento na área de saneamento, fez um “conchavo” ou não? E nas nomeações políticas que já anunciou que fará em fevereiro, atendendo a recomendações de deputados e prefeitos, estará ou não promovendo “conchavos”?

 

Falar demais dá nisso. Não há governo, em parte alguma do mundo, sem “conchavos”. Caiado já os está fazendo e vai obrigatoriamente se afundar com centenas, talvez milhares deles. Tudo o que um governo faz fora da área técnica… é “conchavo” político. Acumulam-se na Secretaria de Governo maços e maços de ofícios de políticos indicando nomes para cargos em praticamente todas as pastas – e claro que nessa onda entram pessoas qualificadas, mas também gente sem a menor capacitação. “Conchavo” é assim mesmo. E Caiado não vai escapar de fazer. Não vai ser fácil e quem sabe será impossível fazer o seu governo diferente dos anteriores.

01 fev

Jayme Rincón assume ser o dono dos mais de R$ 1 milhão apreendidos com ele e seu motorista, mas dá à Polícia Federal uma versão que não é sustentada por Beto Rassi, sua principal testemunha de defesa

As investigações da Operação Lava Jato, com seus desdobramentos nas Operações Cash Delivery e Compadrio, prosseguem a todo vapor, na esfera das diligências e apurações que estão sendo desenvolvidas pela Polícia Federal, sob orientação do Ministério Público Federal.

 

Além do arresto dos bens imóveis do ex-governador Marconi Perillo e do ex-presidente da Agetop Jayme Rincón, há mais novidades. E uma delas é uma bomba: Rincón, em novos depoimentos à PF, admitiu ser o dono dos mais de R$ 1 milhão de reais apreendidos com ele e seu motorista, alegando ter recebido a quantia do empreiteiro Luiz Alberto Rassi, conhecido como Beto Rassi, em decorrência de negócios de venda de imóveis em Aparecida. O problema é que, chamado a se manifestar, como principal testemunha da defesa, Beto Rassi confirmou que, sim, fez o pagamento em moeda a Rincón, mas… em 2016. Como parece pouco provável que alguém guarde um numerário tão elevado por tanto tempo, a situação jurídica do ex-presidente da Agetop pode ter se complicado muito e parece tornar irreversível a sua condenação, dentre outros crimes por lavagem de dinheiro e peculato.

 

Beto Rassi é figura presente em todos os inquéritos e apurações que envolvem tanto Marconi quanto Rincón, desde a deflagração da Operação Monte Carlo, na qual apareceu em gravações discutindo negócios dentro do governo do Estado com o também empresário Carlos Cachoeira. Ele chegou a ser sócio de Marconi em aquisições de imóveis e foi também o empreiteiro responsável para construção da milionária obra do prédio que hoje abriga o Tribunal de Contas do Estado. Estranhamente, confirmou a versão de Rincón, mas deu uma data que acabou agravando as circunstâncias penais do seu ex-parceiro de negócios.

 

Pode anotar, leitora e leitor: vai ser muito difícil para Marconi e seu ex-auxiliar na Agetop escaparem de consequências mais sérias nessas ações policiais em que estão enrolados.

01 fev

Assembleia com novo presidente não submisso ao Executivo representa avanço histórico para Goiás e dará a Caiado um contrapeso e um freio que, no final das contas, serão até educativos para ele

Talvez sem muita consciência de que acabariam alcançando esse objetivo, o movimento da maioria dos deputados estaduais que na tarde desta sexta-feira, 1º de fevereiro, elegerá Lissauer Vieira como o novo presidente da Assembleia, não submisso ao Executivo, vai dar uma contribuição histórica para o desenvolvimento político de Goiás ao vestir no Legislativo o figurino da independência que servirá de contrapeso e de freio que no final das contas será positivo para o mandato do governador Ronaldo Caiado – e principalmente por se tratar de Caiado.

 

Qualquer criança, ao observar e avaliar o primeiro mês do novo governo, será capaz de dar o diagnóstico correto: é uma gestão lenta, excessivamente fechada em si mesmo, formada em sua maioria por secretários que nunca pisaram no Estado e portanto obviamente não o conhecem, com um indiscutível componente de autoritarismo personalizado no estilo do próprio governador, que não ouve e não consulta ninguém. Não existe um processo de afinamento de decisões, tomadas até agora sem um processamento padrão e muito na base do improviso, criando cada vez mais arestas e queimando à toa o formidável capital político que Caiado conquistou ao vencer em 7 de outubro com votação recordista e ainda por cima no 1º turno. Esse caminho se tornou inviável com o que aconteceu e será consolidado na tarde desta sexta no Legislativo e terá que ser substituído por algo mais palatável para os políticos e para os goianos.

 

A derrota do governo na disputa pela presidência da Assembleia não é pouca coisa e não apenas por ser inédita diante dos últimos 40 anos e mais ainda por ter sido decorrente de erros infantis de articulação política, gerados por uma certa arrogância e prepotência. Vai prejudicar a imagem de Caiado inclusive nacionalmente, pois está em sentido contrário ao que se esperava de alguém com mais de 30 anos de experiência parlamentar. Ocorre que, do ponto de vista dos interesses da sociedade, que é a beneficiária de uma gestão que se mostre equilibrada e responsável nos seus atos, pode se tratar de um avanço: a Assembleia, enfim, poderá realmente moderar a ação do Executivo, que a partir de hoje terá que se mostrar cauteloso e prudente em dobro ou em triplo com relação aos projetos e aos temas que submeterá à apreciação da Casa. Bom, mas muito bom para Goiás. E necessário para chamar Caiado de volta à realidade: se ele ganhou sozinho a eleição para governador, sozinho não governará jamais, porque são momentos diferentes e desiguais.

 

O passo que a Assembleia está dando é muito superior à mudança que Caiado propôs na campanha, mas ainda não implantou na administração do Estado. O Legislativo passou à frente do Executivo, que agora será obrigado a correr atrás, com doses extras de humildade e abertura para o diálogo. E às custas do desperdício do primeiro mês do novo governo porque, de verdade, o jogo começa a partir de agora.

01 fev

Caiado fala bobagens (fiado para funcionários com salário atrasado, concordata do Estado, vender bens de Marconi para pagar a folha) incompatíveis com quem deveria conhecer a lei e respeitar o bom senso

A coleção de besteiras que o governador Ronaldo Caiado desfiou neste seu primeiro mês de mandato é absolutamente incompatível com o elevado padrão de comportamento institucional que se exige de uma autoridade investida na chefia de um Poder Executivo estadual.

 

Tem algo errado quando um governante pede a prefeitos que avalizem funcionários públicos com salários atrasados para que comprem fiado em farmácias e supermercados. Nem factível a providência é, muito menos legal e, pior ainda, caracterizaria alguma humilhação para os servidores e além de tudo o mais, caso fosse levada adiante, estaria impondo sacrifícios a empresários que nada têm a ver com as dificuldades do Estado.

 

E a “concordata” do Estado, a que Caiado e seus secretários de Governo Ernesto Roller e da Economia Cristiane Schmidt referiram-se inúmeras vezes durante o transcorrer de janeiro, ao falar da crise fiscal em que Goiás se meteu? O instituto da concordata foi extinto da legislação brasileira há mais de uma década. Se ainda existisse, não poderia ser aplicado a entes do Poder Público, mas somente a pessoas jurídicas privadas. No caso de Ernesto Roller, vale lembrar que ele deveria saber da impropriedade de uso do termo, já que é advogado, enquanto Caiado e Cristiane ainda têm uma desculpa porque um é médico e outra economista.

 

Houve mais extravagâncias, porém a última foi a que mirou mais longe na esquisitice: após o anúncio de que a Justiça Federal tinha arrestado os bens imóveis do ex-governador Marconi Perillo e do presidente da Agetop Jayme Rincón, Caiado comemorou a decisão informando que venderia esses bens e destinaria o dinheiro arrecadado para o pagamento dos salários atrasados dos servidores estaduais. Isso, leitor, só aconteceria no mundo de fantasia da cabeça do governador, já que o arresto apenas coloca os imóveis em indisponibilidade até que haja uma sentença, transitada em julgado, reconhecendo a culpa de Marconi e Rincón e os condenando a ressarcir os prejuízos que causaram nem se tem clareza ainda a quem, se ao Estado ou se à União.

 

Bens arrestados não são vendidos, portanto, a não ser após a sentença condenatória final do processo, o que está longe de acontecer e, aliás, nem vai acontecer durante o atual mandato de Caiado, dada a lentidão da Justiça brasileira e aos meios de defesa disponíveis para qualquer acusado. Portanto, o que ele falou, falou com desconhecimento de causa. Provavelmente, quis fazer marketing às custas da infelicidade de Marconi, Rincón e do funcionalismo, o que é igualmente condenável.