Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

09 maio

Caiado alega que fez o “dever de casa”, cortando cargos, reduzindo despesas, diminuindo incentivos fiscais e por isso merece ser socorrido pelo governo federal. Mas… não é bem assim

O governador Ronaldo Caiado fala demais. Deve ser um costume que adquiriu nos bons tempos de parlamentar no Congresso Nacional, quando era estrelinha requisitada pela mídia nacional para palpitar sobre os assuntos do dia. Agora, pela primeira vez no Executivo, as coisas são diferentes. Falar, falar, não resolve nada. Vamos a um exemplo prático: ele alega quase que diariamente que fez o “dever de casa” – cortando cargos, reduzindo despesas, diminuindo incentivos fiscais – e que por isso, mais do que qualquer outro Estado, Goiás merece ser socorrido financeiramente pelo governo federal.

 

Não é bem assim. Caiado sabe que, no Parlamento, ninguém sai atrás de comprovação para o que é dito ao léu dos discursos na tribuna, nos apartes em plenário e nas entrevistas à imprensa. No Executivo, é diferente. Não há como dispensar a corroboração, digamos assim, independente, e não baseada no que o governante diz. Ninguém acredita, sem algum tipo de avaliação, no que os donos do poder repetem por aí. E também, sendo veraz uma afirmação, é preciso conferir se os seus efeitos são reais. Assim, das três alegações do governador, ou seja, 1) corte de cargos comissionados, 2) redução de despesas com contratos e 3) diminuição dos incentivos fiscais, não basta apenas a “palavra do governador”, mesmo este sendo Caiado. São necessárias planilhas, documentos, recibo e nota fiscal, como se diz, para que se aceite o que está sendo apresentado como uma verdade irrefutável.

 

Vamos lá. 1)  Os tais cortes nos cargos comissionados, já está demonstrado, representam uma gota d’água no oceano. Até o fim do governo Caiado, vão chegar a pouco mais de R$ 400 milhões, um grão de poeira quanto aos bilhões que serão gastos nesse período. 2) O encolhimento dos gastos com contratos são meramente declaratórios, configurando uma espécie de intenção quanto ao futuro. E 3) a diminuição dos incentivos fiscais, item que não passa de uma grande piada. Falou-se que R$ 1 bilhão por ano seriam acrescentados à arrecadação do Estado, número que não foi nem será atestado seriamente pela Secretaria da Economia (antiga Sefaz), tanto que até agora não foi divulgado nenhum cálculo a respeito. E, relembrando, sugerido por um projeto de lei redigido pelos próprios empresários e entregue à Assembleia, no final do ano passado, para aprovação, o que foi feito rapidamente – correspondendo ao mesmo que delegar à raposa os cuidados com o galinheiro. Caiado, apesar dos alertas da sua secretária da Economia, Cristiane Schmidt, finge que vai tudo bem quanto a arrecadação do ICMS. Não vai.

 

O “dever de casa”, assim, não depende só da palavra do governador. Desde que foi eleito, ele teve chances e mais chances de ir mais fundo e não quis. Um exemplo são os órgãos supérfluos e sem finalidade que foram mantidos, exclusivamente para abrigar apaniguados políticos em cargos com altos salários sem serventia alguma. São muitos: Goiasgás, veículos de comunicação, Celg Telecom, Goiasparcerias e outros. Até agora, nenhuma privatização, nenhuma concessão nenhuma liquidação. Tudo como dantes, menos o número de secretarias, que ele recebeu em 10 e imediatamente aumentou para 17. Isso é o contrário de fazer o “dever de casa”. Para o governo federal, leitora e leitora, enfiar mais dinheiro nessa estrutura onde abunda o desperdício é o mesmo que jogar pelo ralo.

09 maio

O pior de toda essa desgastante agonia e até humilhação que Caiado está passando ao mendigar ajuda do governo federal é que, no máximo, ganhará autorização para endividar ainda mais o Estado

A prioridade número um do governador Ronaldo Caiado, como se sabe, a que ele se refere todos os dias e que já o levou 60 vezes a Brasília desde que assumiu o mandato, é conseguir qualquer tipo de socorro financeiro do governo federal – que a equipe econômica do ministro Paulo Guedes  reluta em conceder, receosa de que, no fundo, o resultado venha a ser complicar ainda mais a situação fiscal dos Estados (área em que têm tradição de lambança). A obsessão por ganhar esse apoio transformou-se em verdadeira agonia para Caiado, assunto de todas as suas declarações públicas e trava que o impede de dar resposta aos desafios reais da sua gestão, consolidando a imagem desgastante de um governante que inutilmente mendiga recursos junto a forças externas sobre as quais ele não tem nenhum controle e que o humilham marcando datas e prometendo soluções que nunca acontecem.

 

Mas o pior não é ver um político que, no passado recente, teve grande brilho nacional, como Caiado, sendo enrolado como uma criança pelos burocratas brasilienses. Todo esse barulho que o governador vem fazendo, todo o seu desespero, a sua luta, o seu esforço, se resultar em alguma coisa de real, não passará de uma  autorização para contrair empréstimos e, no final das contas, expandir a dívida do Estado. No máximo. A leitora e o leitor sabem que pegar dinheiro a juros nunca resolve nada, só aumenta o tamanho da encrenca. É assim para as pessoas e da mesma forma é assim para uma empresa privada ou um ente público.

 

Há muita gente próxima ao governador que acredita em caminhos bem diferentes do que só aguardar o maná dos céus do governo federal para viabilizar financeiramente o governo goiano. Um deles é o ex-secretário da Fazenda Jorcelino Braga, que, nos tempos do governador Alcides Rodrigues, conseguiu a façanha de reduzir o endividamento do Estado. Nem um centavo foi tomado a título de empréstimo. Alcides Rodrigues é o único governador, nos últimos 50 anos ou mais, a entrar e sair sem assinar notas promissórias contra o futuro, façanha que deve a Braga. O mesmo Braga que foi convidado por Caiado para retornar à Sefaz, mas não quis. Sabia, desde sempre, que as suas ideias para a gestão fiscal do Estado não batiam com as do novo governador, que é claramente partidário de uma abordagem política a partir da obtenção de amparo financeiro junto ao governo federal, imaginando se ancorar no peso da sua biografia e na projeção que já teve no Congresso.

 

No fim do caminho adotado por Caiado, está o aumento da dívida de Goiás, se ele chegar lá. A mesma que, dias atrás, ele garantiu que não tem condições de pagar, ao pedir apoio dos demais Poderes para aplicar um calote que atingiria principalmente o Banco do Brasil e a Caixa Federal.

09 maio

Futuro político de Marconi é uma candidatura a deputado federal em 2022. Para prefeito de Goiânia, no ano que vem, nem ele nem ninguém do PSDB tem a menor chance

Aqui e ali, têm aparecido notinhas informando sobre uma eventual candidatura do ex-governador Marconi Perillo a prefeito de Goiânia, no ano que vem. O colunista Divino Olávio, por exemplo, apurou as opiniões de alguns tucanos obstinados: segundo eles, Marconi seria convocado pelo PSDB para representar o partido nas eleições na capital, reocupando o espaço que lhe caberia na política estadual. O Jornal Jornal Opção em sua seção Bastidores, também abordou o assunto, que estaria de fato sendo cogitado pelo que sobrou do antigo Tempo Novo, mas enfrentaria forte resistência do próprio ex-governador.

 

Mas é só uma especulação vazia. O futuro de Marconi é uma vaga de deputado federal em 2022, que ele deve conquistar com boa votação – consequência óbvia do recall que conserva quanto ao processo político em Goiás. Dificilmente haverá empecilhos legais para que ele registre a sua candidatura à Câmara, apesar da mais de dezena de processos judiciais a que responde. A Justiça brasileira é lenta. Em três anos, pouco mais, não existe a menor perspectiva de que se produza uma sentença em 2ª instância contra Marconi, tornando-o incurso na Lei da Ficha Limpa – o que o impediria de disputar eleições. E isso se for condenado.

 

Marconi será candidato em 2022, quando optará pela segurança do pleito proporcional – única saída à sua disposição para retornar ao palco do qual foi expulso pelo eleitorado. A hipótese de prefeitura, governo ou senatória não aparece no seu horizonte porque ele perdeu o perfil majoritário ao ser massacrado nas urnas do ano passado. Em Goiânia, ficou em 6º lugar para o Senado, ultrapassado até por Agenor Mariano, do MDB. Marconi conseguiu 52 mil votos, Agenor 58 mil. Vanderlan Cardoso, que arrebatou o 1º lugar, ganhou 522 mil votos dos goianienses. O recado ao ex-governador para que recolhesse as armas ficou claro e ele tanto entendeu que se mudou para São Paulo, onde mora com a família, no momento.

 

O tombo foi tão grande que nem mesmo uma debacle administrativa do governador Ronaldo Caiado será capaz de fornecer o oxigênio necessário para a ressurreição de Marconi. Sem o cerco judicial e talvez com uma derrota menos acachapante, seria até possível para o ex-governador se transformar no beneficiário direto dos desgastes de Caiado. Mas ninguém acredita nessa hipótese. Nem ele nem qualquer outro nome do PSDB têm chance alguma.

08 maio

Caiado volta com as mãos abanando de mais uma reunião de governadores, em Brasília, dessa vez com a presença até de Bolsonaro: nada, mas nada mesmo de concreto sobre ajuda financeira a Goiás

Já está ficando até meio constrangedor: quase toda semana o governador Ronaldo Caiado viaja a Brasília para audiências, reuniões e até grandes encontros entre governadores e membros da equipe econômica do governo federal sempre na esperança de que venha a ser anunciado algum tipo de ajuda financeira aos Estados e especialmente a Goiás… e nada acontece.

 

Em quase 20 semanas de governo, Caiado foi 60 vezes à capital da República. Nesta terça-feira, 7 de abril, ele deu entrevistas otimistas a O Popular, anunciando que estaria mais uma vez em Brasília no dia seguinte, esta quarta, para um café da manhã com o próprio presidente Jair Bolsonaro e os demais governadores, na casa do presidente do Senado David Alcolumbre. Ingenuamente, esquecendo-se das inúmeras ocasiões em que previu o anúncio de medidas de socorro financeiro aos Estados, Caiado chegou imprudentemente a anunciar que, nesse tal café da manhã, seriam reveladas as linhas de um hipotético plano de apoio à recuperação fiscal das unidades federativas. Pois é: tudo não passou de um novo fiasco. O presidente chegou atrasado, ficou só um pouco e antes das 9:30hs já tinha caído fora. Nem ele nem ninguém mais disse uma única palavra sobre apoiar quem quer que seja, muito menos os Estados.

 

Leia aqui sobre a reunião anterior dos governadores com o ministro da Economia Paulo Guedes.

 

Caiado quebrou a cara. A insistência dele em implorar o socorro federal chega a despertar pena. Não condiz, por exemplo, com a imagem que tinha como cabeça do Congresso, onde a experiência que acumulou durante sucessivos mandatos deveria ser suficiente para ensinar que as agendas da Câmara e do Senado não podem jamais ser fatiadas e sempre precisam se concentrar em um tema revelante – hoje, no caso, a reforma da previdência, cuja tramitação colocou em segundo plano até o importantíssimo pacote anticrime do ministro da Justiça Sérgio Moro.

 

Seria falta de juízo o Palácio do Planalto apresentar à apreciação dos deputados e senadores um projeto para a recuperação fiscal dos Estados para concorrer com a reforma da previdência. Uma matéria, inevitavelmente, seria usada como contraponto da outra, aumentando o poder de barganha dos governadores e fragilizando a articulação política do governo federal. Em Brasília, até as crianças sabem disso. Caiado, parece que não. Enquanto a questão da previdência não estiver solucionada, nada caminha. A ajuda financeira que não vem e talvez não virá nunca mantém o governo de Goiás semiparalisado, envolvido dia e noite com uma discussão estéril sobre o pagamento do funcionalismo e não só quanto ao mês de dezembro passado, porém quanto a folha já de maio, que se admite passível de não ser paga em dia. E Caiado vai ficando cada vez menor.

08 maio

Projeto que elimina 60 mil jovens do Passe Livre Estudantil – e não o da segunda parte da reforma administrativa – é que será o verdadeiro teste para a base de Caiado na Assembleia, ainda não formatada

Está claro como a luz do dia: o verdadeiro teste para a hipotética base de apoio ao governador Ronaldo Caiado na Assembleia será a votação do projeto que elimina 60 mil jovens do Passe Livre Estudantil – e não o que trata da segunda parte da reforma administrativa, como se pensava a princípio. A avaliação que sempre predominou era que o tamanho do respaldo a Caiado, entre os deputados, somente seria visível a partir da tramitação de uma matéria polêmica no Legislativo, característica que a reforma administrativa perdeu pela sua timidez e pouco efeito prático para o Estado.

 

Já com o Passe Livre Estudantil, é diferente. As mudanças propostas pelo novo governo, ao impor um corte drástico ao número de beneficiados, têm tudo para motivar uma discussão acalorada e também alta capacidade de combustão, isto é, de repercussão social, dado ao público envolvido – a juventude. Para a oposição, trata-se de uma oportunidade de ouro para impor desgastes ao Palácio das Esmeraldas, Para a situação, um drama: como se posicionar favoravelmente ao projeto e levar os deputados eventualmente dispostos ou convencidos a votar pela aprovação de um projeto que não foi debatido preliminarmente com ninguém e tem elevado potencial negativo?

 

Digamos assim: a reforma administrativa é praticamente inócua em termos políticos ou sociais, enquanto a proposta de reformulação do Passe Livre Estudantil é incendiária no seu objetivo de diminuir radicalmente os gastos coma sua manutenção, às custas da expulsão de milhares e milhares de jovens do programa. Se houver alguma base de apoio ao governo na Assembleia, agora será a hora do vamos ver.

08 maio

Reforma administrativa deve passar sem maiores problemas na Assembleia, mesmo com o governo ainda sem uma base de apoio formatada. O motivo? Não faz mudanças realmente importantes

O projeto da segunda parte da reforma administrativa deve ser aprovado pela Assembleia Legislativa, provavelmente com alguns acréscimos que os deputados farão, mas sem tocar no seu conteúdo. É que a matéria não tem nada de polêmico, promove cortes ínfimos nas despesas do Estado e basicamente se concentra em uma reorganização jurídica do quadro de funcionários comissionados – cujos cortes já foram cantados e decantados desde o primeiro dia da posse do governador Ronaldo Caiado e sempre foram sobejamente conhecidos

 

Não há novidades, portanto. E, não havendo, não existe razão plausível para que a reforma não seja ratificada pelos parlamentares. A apreciação não valerá como teste para a existência ou não de uma base de apoio ao Palácio das Esmeraldas, na Assembleia. Esperava-se um projeto que, no final das contas, diante da expectativa criada, acabaria mexendo com a estrutura administrativa do Estado, diminuindo órgãos, promovendo privatizações e extinções e, de fato, capaz de alterar de alguma forma mais radical o modelo em que a máquina governamental está hoje assentada. Fiasco. Não aconteceu nada disso. Um deputado de oposição consultado por este blog garantiu que a reforma é tão pouco ousada que não há como nem mesmo arguir alguns pontos para efeito de exploração política. “Não há por que não votar a favor. Não compensa ficar contra”, resumiu.

 

Como Caiado vive repetindo que está fazendo o “dever de casa” em termos de economia e inclusive, na sua visão, achando que estaria mais apto que qualquer ou governador de Estado a receber socorro de Brasília, imaginava-se que a segunda parte do seu arranjo administrativo teria pitadas de algo revolucionário e talvez até com alguma profundidade. Como as 257 páginas encaminhadas à Assembleia não trazem nada disso, não há motivo para debates. Do ponto de vista dos deputados, é votar a favor e ponto final.

08 maio

Inação nos primeiros meses de governo, mais falta de planejamento, custam caro para Caiado, que toca a sua gestão ao sabor de ações pontuais e muitas vezes simplesmente improvisadas

Já dentro do oitavo mês desde que foi eleito, a 7 de outubro do ano passado, o governador Ronaldo Caiado parece não dispor de nenhum planejamento para a sua gestão – nem mesmo para a contenção de gastos que anuncia ser a sua prioridade – e segue em frente com ações pontuais, fora de um contexto maior. Um exemplo são as mudanças no Passe Livre Estudantil, que vão expulsar 60 mil jovens do programa, enquanto o governo preserva projetos na área social que deveriam ter passado por uma revisão, modificados ou extintos.

 

Os programas sociais, a propósito, são uma área em que Caiado errou feio: ele deveria ter promovido uma avaliação global dessas políticas, ainda antes de assumir, o que era perfeitamente possível, para agora promover uma reorganização – na qual seriam inevitáveis cortes ou mesmo o encerramento de alguns deles. Ao longo dos 20 anos do Tempo Novo, foram implantadas iniciativas como a Renda Cidadã, a Bolsa Universitária, o Cheque Moradia e o próprio Passe Livre Estudantil, dentre outros, sem uma planificação financeira adequada e o fato é que, hoje, o Estado não tem recursos para arcar com esses gastos. Essa é a dura verdade.

 

Uma hierarquização de prioridades teria mostrado com facilidade que a população de baixa renda é que deveria ser atendida em suas necessidades básicas, sem populismo eleitoreiro, o que, fatalmente, levaria ao fim, por exemplo, da Bolsa Universitária – que consome uma fortuna por mês e foi mantida apenas porque é a OVG, dirigida pela primeira-dama Gracinha, quem a conduz. Para prestigiar a mulher, Caiado garantiu a continuidade de uma fonte de desperdício de dinheiro público, cujo investimento nunca passou por uma aferição quanto ao seu real retorno para a sociedade. A Bolsa Universitária, tal como foi perpetuada pelo novo governo, não passa de um programa assistencialista muito mal estruturado, quando deveria ser uma proposta puramente desenvolvimentista, algo com que o ensino superior tem muito a ver em qualquer parte do mundo.

 

Leia mais aqui sobre os descaminhos da Bolsa Universitária.

 

Caiado jogou fora a chance de por ordem na área social do governo de Goiás. Pior ainda ao entregar o comando para a primeira-dama Gracinha e abrir mão de uma requalificação racional de tudo o que o Estado dá hoje, de forma desordenada, a quem precisa de apoio – dever, sim, que a administração pública tem que cumprir, mas, venhamos e convenhamos, obrigatoriamente dentro das suas possibilidades. Adotar o realismo, aliás condizente com o seu discurso diário de calamidade financeira, teria sido a opção correta do governador, caminho que ele não trilhou porque, obviamente, traz desgastes e influi na popularidade do governante.

06 maio

Tropeções de Caiado, especialmente com o funcionalismo, abriram janela para a oposição, mas o PSDB perdeu a oportunidade ao se ajoelhar para Marconi e aceitar Jânio Darrot na sua presidência

Ninguém tinha a expectativa de que Ronaldo Caiado, eleito em 1º turno e com uma votação espetacular, fosse desperdiçar esse capital político em uma série de ações e omissões depois de assumir o governo, dentre as quais a principal foi a fatídica decisão de não pagar dezembro ao funcionalismo – empurrando a quitação da folha desse mês para um cruel parcelamento que irá até o início do 2º semestre.

 

De Caiado, com a consagração que teve nas urnas, esperava-se um governo beirando a perfeição. Mas ele passou e continua passando longe da promessa de mudança radical que fez na campanha e convenceu os goianos a acreditar nele. E o resultado é que se abriu uma janela para a oposição. Uma janela que a própria oposição não aguardava tão cedo. É por achar que as primeiras semanas do novo governo seriam arrasadoras que o ex-governador Marconi Perillo se refugiou em São Paulo, abrindo mão de qualquer liderança ou atuação em Goiás. O sumiço de Marconi deixou o PSDB, partido que deveria liderar o contraponto a Caiado, totalmente perdido, com vantagem para o novo governo, que ficou praticamente sozinho na área, enfrentando apenas os desgastes que impõe a si mesmo.

 

A oportunidade de crescer em cima do governo de Ronaldo Caiado surgiu, mas foi desperdiçada. Sobrou praticamente a voz crítica do deputado Talles Barreto, seus discursos na Assembleia e manobras parlamentares com a que aprovou o orçamento impositivo, derrota feia para o Palácio das Esmeraldas. Mas agora, pelo que se deduz das palavras do novo presidente do PSDB Jânio Darrot, pouco ou quase nada vai ser feito em matéria de oposição ao governo, O PSDB terá como prioridade eleger prefeitos no ano que vem e, por enquanto, tentar segurar nas suas fileiras deputados como Diego Sorgatto, eleito ao lado de Marconi, porém já tendo consumado adesão a Caiado.

 

Marconi escolheu Jânio Darrot para comandar os tucanos de Goiás para preservar o seu controle sobre o PSDB e, ao mesmo tempo, fechar as janelas para qualquer arejamento ou possibilidade de renovação, o que só poderia acontecer contra ele. Não é que a legenda vai continuar sendo a mesma de sempre – e isso já seria ruim. Vai é piorar, ao fugir do papel de apresentar alternativas e fazer contraponto ao governo do Estado, para o qual foi eleito pelas mesmas urnas que consagram o atual governador.

06 maio

Reforma administrativa de Caiado é basicamente jurídica e formal, apenas reorganiza leis, não traz mudanças estruturais e pode ser que faça alguma economia, mas, se o fizer, será ínfima

Já é possível fazer uma avaliação da reforma administrativa que o governador Ronaldo Caiado enviou à apreciação da Assembleia Legislativa, consubstanciada em um calhamaço de 257 páginas que não toca na estrutura do Estado, mas apenas reorganiza suas leis gerais quanto a aspectos jurídicos e formais e, se fizer alguma economia, será de valores que podem ser considerados ínfimos diante da grandeza a que os gastos públicos chegaram em Goiás.

 

Basicamente, o que se faz é a eliminação de cargos de baixos salários, criando-se um quadro resumido de funções comissionadas com poucas denominações, por volta de dez. Não se toca na multiplicidade de órgãos inúteis e superpostos que Caiado herdou dos governos passados, como, por exemplo, uma empresa de gás, alguns veículos de comunicação, uma companhia de ônibus urbanos e até  um braço da Celg dedicado a implantar um utópico sistema de telefonia através da rede elétrica. Tudo isso e muito mais vai continuar existindo, servindo apenas para drenar pelo ralo os preciosos recursos do Tesouro e abrigar apaniguados políticos – sim, os tais e famosos “conchavos” que Caiado, como sempre palrando em excesso, condenou durante a campanha e em seus primeiros dias de governo, porém aos quais acabou se rendendo ao instalar um “balcão de negócios” para trocar cargos e favores por votos na Assembleia e cumprir compromissos políticos celebrados antes das eleições.

 

O ganho com a reforma administrativa, conforme o projeto, será de R$ 119 milhões por ano ou um número em torno de R$ 480 milhões até o fim do governo. Muito. Não. Na verdade, como observou a jornalista Cileide Alves em comentário em O Popular, “parece uma gota no oceano”. É que, por mês, seriam mais ou menos economizados R$ 10 milhões, em um orçamento que supera R$ 1 bilhão e meio, também mensais, em gastos, quase tudo com a folha de pessoal. Uma ninharia, portanto. Só a folha de aposentados consome, em dois meses, bem mais do que esses possíveis R$ 480 milhões de poupança, valor que, de resto, está muito mais no plano das intenções do que no desenho da realidade.

 

É menos, bem menos do que o dever de casa a que Caiado estaria obrigado, como governador. Ele se propõe, no fundo, a manter em funcionamento uma estrutura administrativa modernizada em termos de nomenclatura, mas arcaica em seus fundamentos e por isso incompatível com a modernidade social e econômica de Goiás.

06 maio

Ao impor Jânio Darrot como novo presidente do PSDB, Marconi comete mais um equívoco grave, impede a renovação do partido e compromete o futuro dos tucanos de Goiás

Uma boa pessoa, mas no lugar errado e, mais ainda, na hora errada. É como pode ser definido o novo presidente estadual do PSDB, o prefeito de Trindade Jânio Darrot, nome que o ex-governador Marconi Perillo atravessou na garganta do partido em Goiás para matar no berço qualquer tentativa de renovação e assegurar o seu controle direto – mesmo na situação de fragilidade política em que se encontra, a legenda conta com um caixa mensal de R$ 300 mil reais, dinheiro que pode ser gasto à vontade com viagens, assessores, advogados, eventos e até aviões e helicópteros.

 

Empresário bem sucedido e prefeito, Jânio Darrot não precisa da estrutura do PSDB para atender aos seus interesses. Todo esse aparato, portanto, ficará à disposição de Marconi, que o usará para custear a sua sobrevivência política e enfrentar o cerco judicial de que é alvo. Na verdade, o tucano-mor de Goiás apenas repete a estratégia desastrosa de Iris Rezende quando foi apeado do poder em 1998 e, mesmo com o então PMDB em frangalhos, nunca permitiu a sua reoxigenação e o manteve sob mão de ferro – o que ajudou a construir 20 anos de derrotas consecutivas nas urnas, com exceção de três mandatos como prefeito de Goiânia que Iris conquistou para ele mesmo e de nada serviram para o partido.

 

Para enfiar Jânio Darrot goela abaixo do PSDB goiano, Marconi só precisou de algumas ligações diretamente de São Paulo, onde está morando. Alguns poucos que chegaram a falar em refundação, em autocrítica, em definir um perfil oposicionista, enfiaram rapidamente a viola no saco e dobraram os joelhos. O prefeito de Trindade foi aclamado, com um discurso em que exaltou as realizações dos governos do Tempo Novo, o que não só agrada, mas é exigência  do ex-governador (a tal defesa dolegado, mote que, repetido dia e noite na última campanha, deu a Marconi o 5º lugar na disputa pelas duas vagas senatoriais). O novo presidente, assim, mostrou qual será a sua estratégia no cargo: não só olhar para trás, mas também andar para trás.

04 maio

Caiado dá um passo atrás e reduz a influência da primeira-dama Gracinha na área política, que vinha mais atrapalhando do que ajudando o andamento do governo e a relação com a classe política

O governador Ronaldo Caiado decidiu – e comunicou a alguns interlocutores de importância – reduzir a influência da primeira-dama Gracinha na área política, que vinha mais atrapalhando que ajudando a articulação política do governo, maiormente os esforços para a constituição de uma base de apoio na Assembleia até hoje não formatada, o que coloca no plano da incerteza a aprovação de projetos fundamentais como a segunda parte da reforma administrativa, já entregue ao Legislativo para apreciação.

 

Mulher de governador interferindo, por exemplo, nas relações com os deputados, é o mesmo que usar gasolina para tentar apagar incêndios. Raramente dá certo e cria situações incômodas, que o bom senso manda que sejam evitadas para o bem de todos e notadamente no caso de um homem de vida austera como Caiado. No Brasil, o histórico de primeiras-damas se metendo na política corresponde aos Estados do nordeste, não por acaso a região mais atrasada do país. Em Goiás, não há registro, pelo menos nos últimos 50 ou 60 anos, de nada parecido com a atuação da atual primeira-dama em todas as frentes do governo. Nem mesmo dona Iris, que inclusive se lançou na política e chegou a se eleger deputada federal, foi tão longe quanto dona Gracinha (que, a propósito, parece também aspirar a uma carreira própria e também disputar eleições).

 

Ela assumiu, por exemplo, as delicadas funções de recebimento e filtragem das indicações de políticos, principalmente deputados, para cargos no governo. Trata-se de um terreno pantanoso e delicado, ainda mais quando a primeira-dama defende a “nova política”, isto é, que o governador, tendo sido eleito em um processo de mudança, não enverede pelo mesmo caminho fisiológico que torrou o prestígio dos seus antecessores e acabou condenado pelos goianos nas urnas. Além disso, é uma espécie de “segunda” voz da gestão, diante da qual o secretariado e demais envolvidos se quedam indefesos e, de vez em quando, em choque com as ordens do próprio chefe do Executivo.

 

Caiado resolveu afastar Gracinha mais para preservar a sua família e menos para melhorar a articulação política do governo. É que ele tem ojeriza especial por críticas ou colocações, de políticos ou na mídia em geral, que citam parentes próximos seus em qualquer circunstância, caso do deputado Alysson Lima, do PRB, que bateu o bumbo sobre um evento festivo no Palácio das Esmeraldas promovido pelas filhas do governador e pediu a abertura de uma investigação sobre as despesas a respeito. “Esse está na lista de desafetos de Caiado para sempre” disse a este blog um amigo dos dois.

03 maio

Faça o que eu falo, não o que eu faço: deputado do chapéu criticou parentes em cargos na Assembleia, mas indicou o próprio irmão para uma diretoria da Codego (e Caiado já nomeou)

O deputado estadual Amauri Ribeiro, aquele da polêmica do chapéu, que, a propósito, ele venceu, sendo autorizado a se apresentar no plenário da Assembleia ostentado o seu precioso acessório, transformou-se rapidamente em típico exemplo de político moralista… quando se trata dos outros. Ele indicou e o governador Ronaldo Caiado nomeou o seu irmão Alexandre Ribeiro para a diretoria financeira da Codego, órgão que, se a nova gestão tivesse juízo, já teria extinguido para fechar mais um ralo por onde se esvai o dinheiro público em Goiás.

 

Amauri Ribeiro, antes de tomar posse, teve os seus 15 minutos de glória ao conceder entrevistas denunciando o descalabro administrativo e financeiro dentro da Assembleia, onde, segundo suas palavras textuais, “a maioria dos cargos são de indicações de governadores, deputados e outros políticos. Compõem o quadro de funcionários da Assembleia Legislativa: filhos e primos de ex-governadores; irmãos de vereadores e ex-deputados; filhos e irmãos de deputados; e, irmãos de ministros. Todos nomeados com remuneração de até R$ 20 mil”. Na época, ele prometeu que confirmaria sua denúncia com documentos assim que assumisse e levaria um dossiê ao Ministério Público, para as devidas providências.

 

Com menos de dois meses investido no mandato, o deputado mudou hipocritamente de ideia. Encostou a barriga no balcão de negócios aberto por Caiado para negociar cargos por apoio na Assembleia e tratou de indicar entre os beneficiados o próprio irmão.

03 maio

Reforma administrativa de Caiado, em uma primeira análise, tem roupagem essencialmente jurídica e parece não economizar tanto quanto está sendo anunciado

Já dentro do oitavo mês desde que foi eleito, o governador Ronaldo Caiado finalmente deu à luz a sua reforma administrativa, um projeto caudaloso com mais de duas centenas de páginas que ele entregou nesta quinta, 2 de maio, à Assembleia Legislativa – onde já recebeu, em menos de uma hora de tramitação, um primeiro parecer favorável, na Comissão de Constituição e Justiça (o que mostra que os deputados da atual Legislatura seguem repetindo os maus hábitos das antigas).

 

Apelidada de “segunda parte”, a reforma administrativa que chegou aos parlamentares tem um foco muito forte na reorganização jurídica do Estado, até aqui determinada por um cipoal de leis – tanto que o projeto revoga quase três dezenas delas, de uma tacada só, já que se sobrepunham, às vezes se repetiam ou, mesmo, estavam em contradição umas com as outras. É um passo importante essa racionalização, embora, na prática, restrito a uma exagerada preocupação com a forma e não com o conteúdo. É fácil entender o porquê: no governo Caiado, a Procuradoria Geral do Estado cresceu em poder e hoje controla com mão de ferro todos as secretarias e órgãos, mantendo em cada uma, no mínimo, um representante que dá a palavra final sobre qualquer ato ou decisão. Isso, no final das contas, resulta em uma visão essencialmente jurídica dos processos governamentais, que pode ser identificada com clareza na segunda parte da reforma administrativa.

 

Caiado havia prometido cortes, que acabaram limitados ao quantitativo de cargos, ainda a conferir, porque o governador tem por costume ser exageradamente otimista com os valores que frequentemente anuncia estar economizando, sem maiores comprovações. Na primeira etapa da reforma, o Palácio das Esmeraldas comemorou uma redução de despesas que, em poucos dias, viu-se que era ilusória e não passava de R$ 10 mil reais por mês e mesmo assim número que tem que ser avaliado com alguma benevolência. No novo projeto, não houve extinção ou liquidação de setores do governo que geram gastos, mas não correspondem a nenhum tipo de finalidade pública, como a Goiásgás, a Celg Telecom, a Agência Brasil Central e muitas outras estruturas que sobrevivem apenas para ajudar a drenar o precioso dinheiro dos goianos, daí a impressão de que o governador foi moderado e sem ousadia no que chamou de redesenho da máquina administrativa em Goiás.

 

De pronto, é possível afirmar – e as críticas e o exame profundo que será feito nos próximos dias sobre o projeto vão confirmar ou não – que é fantasiosa a economia de R$ 400 milhões, até o fim do seu mandato, propagandeada pelo próprio Caiado nas primeiras entrevistas sobre a reforma. Ele errou nas contas na primeira parte e pode estar errando de novo, na segunda. Aliás, enquanto ele fala em R$ 400 milhões, a sua equipe cita algo em torno de R$ 480 milhões. As divergências, como se vê, vêm do berço.

03 maio

Paulo Beringhs volta a comentar e a analisar a política em Goiás. Veja o vídeo de apresentação

O apresentador Paulo Beringhs sempre se notabilizou pela língua ferina e originalidade das análises e abordagens que faz sobre a política em Goiás. No ano passado, ele postou vídeos curtos, quase que diários, comentando o andamento da campanha eleitoral e, depois, os resultados. Neste ano, esteve afastado até agora, mas já está de volta com uma nova rodada, que começa no próximo dia 13 de maio.

 

Veja o primeiro vídeo, em que ele anuncia e dá detalhes sobre a série, que vai se chamar “A Minha Opinião”, que será postada em parte também aqui neste blog.

02 maio

Adesão a Caiado de jovens deputados eleitos ao lado de Marconi surpreende e mostra que a velha política sobrevive independentemente da idade dos seus protagonistas

Eleitos ao lado do ex-governador Marconi Perillo e depois de iniciar a carreira apoiando entusiasticamente os governos do PSDB, os deputados estaduais Diego Sorgatto (PSDB), de 28 anos; Virmondes Cruvinel, (Cidadania, ex-PPS), de 39 anos; e Thiago Albernaz (ex-PSDB, atual Solidariedade), também de 28 anos, (fotos acima nesta ordem), confirmam que a presença de jovens na política nem sempre tem compromisso com a renovação e muitas vezes se pauta pelas velhas práticas do fisiologismo: eles aderiram ao governador Ronaldo Caiado em troca de vantagens oferecidas pelo “balcão de negócios” instalado pelo Palácio das Esmeraldas para conseguir votos na Assembleia (um exemplo: Virmondes Cruvinel indicou e Caiado nomeou sua mãe Rose para a chefia de gabinete da Emater).

 

Fosse um processo de ideias e propostas, ninguém diria nada. Possivelmente, os três seriam até aplaudidos. Nem toda adesão embute um componente de questionamento moral e, embora raramente, pode ter a ver com o interesse público e um eventual redirecionamento a favor das forças que fazem a história avançar. Não é o caso. Diego, Virmondes e Thiago (este deve ter feito o avô Nion Albernaz se revirar no túmulo) pularam para as hostes caiadistas apenas para se beneficiar de cargos e nomeações – nenhum deles, até agora, deu qualquer palavra para explicar a mudança de posição e, pior, em tão pouco tempo.

 

Adesões, como se sabe, pegam mal para quem adere e igualmente a quem se adere. Caiado, apesar dos seus quase 70 anos (que completará em 29 de setembro próximo), se diz um defensor da “nova política” e, é preciso reconhecer, teve uma carreira de pouco toma-lá-dá-cá e menos ainda jamais trocou suas convicções por qualquer benesse, mas também nunca foi uma virgem imaculada transitando pelo bordel da política. Tanto que, investido pela primeiras vez em funções executivas, não hesitou e mandar seus articuladores oferecerem a deputados cotas de R$ 30 mil em nomeações e direito a indicações de diretores e superintendentes, inclusive com liberdade para apontar parentes – item em que ele mesmo se tornou um exemplo, designando Caiados a granel para a sua equipe de auxiliares, inclusive marido e mulher (caso de Aderbal, diretor da Agetop, e sua esposa Adriana, superintendente da OVG, ambos… Caiados).

 

Mas a verdade é que governo algum sobrevive sem a “velha política”. Nem os que são eleitos contra. Sobre familiares no governo Caiado, leia mais aqui.

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