Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

21 ago

Caiado baixou o nível contra Marconi alegando que a sua família foi atacada por aliados do ex-governador. Pode ser, mas ele aceitou um jogo perigoso ao permitir mulher, filha e genro interferindo na gestão

Na entrevista de 14 minutos a uma rádio de Catalão, em que desferiu os maiores impropérios possíveis contra o ex-governador Marconi Perillo, inclusive envolvendo filhas, mulher, pai e irmão do tucano, o governador Ronaldo Caiado alegou que estava sendo obrigado a baixar o nível diante dos ataques promovidos contra a sua família por aliados de Marconi.

 

Vamos analisar, deixando de lado o fato de que não é aceitável que uma autoridade como o governante de um Estado se arvore ao direito de recorrer a insultos e ofensas para se referir a um adversário. Ora, permitir a interferência de familiares em qualquer governo é sempre um erro que leva a graves consequências. Quando se trata da própria mulher, pior ainda. Este blog vem fazendo essa constatação desde fevereiro último, quando começou a ficar claro que a esposa de Caiado, Gracinha, não se contentou com o papel quase que decorativo de uma primeira dama. Ela queria mais. Um deputado federal ligadíssimo ao Palácio das Esmeraldas testemunhou que, hoje, Goiás tem um governador e uma governadora.

 

Não há precedentes, em termos de Brasil e nem mesmo em se tratando de países pelo mundo afora, de uma primeira dama atuando com a força e a presença de Gracinha no governo de Goiás. No passado, houve governadores nordestinos que chegaram perto disso, como Geraldo Bulhões, de Alagoas – que levava toalhadas molhadas da mulher Denilma quando não permitia que ela decidisse em seu nome – ou José Reinaldo Tavares, cuja mulher Alexandra metia a colher de pau em todas as ações do governo do Maranhão. Em nenhum dos dois casos, nada próximo da intromissão de Gracinha em Goiás, muito mais atuante – o que, no final das contas, expõe não só a sua pessoa como também a do seu marido Caiado.

 

Uma outra Alexandra, czarina da Rússia, assumiu o reinado do marido Nicolau e com uma sequência de desacertos trágicos empurrou a dinastia dos Romanov, depois de 300 anos de duração, para a sepultura – literalmente, já que ela, o marido e os sete filhos foram assassinados pelos bolcheviques. Quer dizer: não é por ser mulher, mas na verdade por se tratar de uma ingerência indevida e quase sempre de alguém que não experiência nem tato político. Gracinha, como se sabe, não foi eleita nas urnas e portanto não tem a legitimidade necessária para receber deputados, determinar nomeações ou presidir reuniões ao lado do governador, falando mais do que ele.

 

Ao concordar passivamente com o protagonismo da sua mulher, Caiado deveria também que admitir que ela se transformou em peça do jogo político e, a partir daí, exposta a críticas e avaliações, tal qual ele próprio. É o que ele, pelo que disse à rádio de Catalão, não quer engolir. Se alguém falar de Gracinha, está envolvendo a sua família. Mas está equivocado. Família é família só quando não se enfia nos negócios de Estado. Se entrar, é um agente público como qualquer outro. É lícito que deputados, na Assembleia, façam considerações sobre dona Gracinha ou que veículos de comunicação façam análises, até em tom de deboche, às vezes, sobre os seus atos e condutas. Se quiser preservar a sua mulher, Caiado deveria retirá-la do palco principal do governo. O mesmo vale para a sua filha Anna Vitória e para o seu genro Alexandre Hsiung, figuras que são flagradas com frequência nos bastidores oficiais, sabe-se lá fazendo o quê.

21 ago

Se comparado com o governo Bolsonaro, Caiado (para usar um termo que ele gosta) é “frouxo” quando ao poder de iniciativa para enfrentar problemas e estabelecer uma agenda de reformas

Os dois começaram seus mandatos no mesmo dia, herdando de seus antecessores estruturas administrativas desequilibradas quanto ao seu aspecto financeiro e sob pressão de realizar o mais rápido possível as mudanças que prometeram na campanha eleitoral e que convenceram a população a sufragar os seus nomes. Mas, passados oito meses, as diferenças de ritmo e estilo entre e outro tornaram-se abismais: enquanto o presidente Jair Bolsonaro tem uma agenda clara e definida, parte da qual já está implantando, o governador Ronaldo Caiado patina no mesmo pântano onde pôs os pés em 1º de janeiro, sem sair do lugar.

 

Não é exagero, leitora e leitor. Bolsonaro acelera, Caiado continua em ponto morto. O capitão, por exemplo, já privatizou oito estatais e acaba de anunciar uma lista com mais 15 para vender à iniciativa privada, incluindo portentos como os Correios, a Eletrobrás e até a Casa da Moeda. Em alguns casos, neste ano ainda. Caiado, além de não ter se desfeito até agora de nenhum ativo, mesmo os que dão prejuízos ao Estado, como a Metrobus e a Iquego, não tem data marcada nem prazo para qualquer privatização, nem da Saneago, que vale muito dinheiro e pode ser leiloada por uma pequena fortuna ou então ter parte das suas ações disponibilizadas no mercado.

 

Bolsonaro praticamente já resolveu o principal problema fiscal do país, que é o rombo da previdência. A sua reforma está nos trâmites finais no Senado e não há dúvidas de que será aprovada até no máximo início de outubro. Goiás também precisa de uma, já que o governo goiano torra R$ 200 milhões, a descoberto, todos os meses, com a aposentadoria dos seus servidores. Quando Caiado vai atacar de frente essa adversidade? Ninguém sabe. Diz-se que um consultor estaria sendo contratado para redigir um projeto de reforma de previdência para Goiás. Mas… apenas diz-se. Não há informações mais concretas a respeito.

 

Um terceiro desafio que exige a atenção de Caiado, até agora sem resposta, está nas modificações que se impõem para eliminar, ao menos, os exageros da política vigente de incentivos fiscais. Esse pepino não existe para Bolsonaro, já que a política tributária da União é muito mais dura e ajustada que a dos Estados. De qualquer forma, o governador não se mexeu, apesar da pregação quase que diária da sua secretária da Economia, Cristiane Schmidt, garantindo que essa estratégia – os incentivos fiscais – já está esgotada em Goiás e não produz mais resultados para a população. Por ora, fica tudo como era, ou seja, o que existia nos governos passados como privilégios para as grandes empresas do Estado, está mantido por Caiado.

 

Conclusão: Caiado, para usar um termo a que ele mesmo recorreu nesta semana, faz uma gestão “frouxa”, que não mostra a coragem necessária para assumir os desgastes que são inescapáveis quando um governante precisa cortar direitos, diminuir gastos, livrar-se de empresas públicas ineficientes ou não e alterar parâmetros que funcionavam no passado, porém não servem mais para a atualidade. Bolsonaro, ao contrário, tem peito e está fazendo tudo isso, goste-se ou não do presidente, inclusive colocando em discussão a sua controvertida pauta de costumes. O que é que se tem em Goiás, parecido? Nada. O mês de agosto já está indo embora e parece que, em Goiás, ainda estamos em janeiro. Ou até antes, em setembro, época da campanha eleitoral, a se levar em conta o assombroso bateboca em que o governador está empenhado com o seu antecessor Marconi Perillo. Tudo isso é muito ruim.

20 ago

Caiado continua a trocar ofensas com Marconi e baixa o nível da linguagem com acusações graves que ele, agora, precisa comprovar sob pena de ser tachado de leviano ou faltar com o decoro do cargo

Este blog não tem conhecimento de um momento, na história de Goiás, em que um governador recorreu a uma linguagem tão pesada e a acusações tão graves contra alguém que o tenha antecedido no cargo como Ronaldo Caiado, agora, faz com Marconi Perillo.

 

É conveniente lembrar que Marconi hoje não é nada: apenas um ex-governador, que sequer reside em Goiás, tendo se transferido com a família para São Paulo, onde, segundo afirma, está trabalhando. Já com Caiado, é diferente. Ele é a maior autoridade do Estado, exercendo uma função em que não apenas encarna as responsabilidades do Poder Executivo, como também representa as goianas e os goianos, inclusive aqueles que não votaram nele. E, finalmente, alguém legalmente compelido a obedecer ao decoro exigido pela chefia do Poder Executivo.

 

Quem começou a troca de insultos entre os dois foi Caiado, ao falar – pasmem, leitora e leitor – na missa final da Romaria do Muquém. Marconi, que estava quieto no seu canto, retrucou. Caiado rebateu. Marconi devolveu. E Caiado novamente voltou a atacar, dessa vez perdendo todos os freios, abusando de uma linguagem totalmente incompatível com o fato de ser governador de Goiás e fazendo acusações gravíssimas, em meio a afirmações algumas vezes até sem o menor nexo.

 

Se for um homem sério, com noção dos deveres embutidos no mandato que conquistou e está exercendo, Caiado está na obrigação de apresentar provas ou pelo menos indícios das sérias acusações que lançou contra o ex-governador tucano. Vai aqui um resumo: 1) Marconi teria um patrimônio de bilhões de reais; 2) Seria um criminoso maior do que Sérgio Cabral, 3) Suas filhas estudaram na Suiça por conta de terceiros, 4) Da mesma forma, a festa de casamento de uma delas teria sido paga por terceiros, 5) Seu pai seria dono de uma propriedade rural sem ter recursos para isso e 6) Seu irmão também seria proprietário de uma fazenda em Mato Grosso, que na verdade seria dele, Marconi e 7) Cometeu uma infinidade de crimes, mantendo laranjas, ganhando dinheiro com todas as operações do Estado, chefiando uma quadrilha para assaltar os cofres públicos, chegando a promover uma reunião do secretariado para discutir a partilha dos recursos roubados.

 

Isso não é brincadeira. E saiu da boca de um governador, que ainda temperou as acusações com as bravatas juvenis nas quais era pródigo nos tempos de deputado federal e senador, mas havia abandonado a partir da candidatura ao governo. Caiado chamou Marconi de “frouxo”, repetiu várias vezes que ele não tem “coragem pessoal” e o desafiou para um enfrentamento em qualquer campo. Ainda desdenhou da Justiça, a que o tucano prometeu recorrer para reparar o dano moral das calúnias com que se sentiu atingido. Para Caiado, a Justiça ou é muito lenta ou não resolve nada, devendo os dois, ele e Marconi, convocar auditores fiscais para vistoriar as contas bancárias de ambos e suas respectivas faturas de cartão de crédito, a fim de se comprovar quem pagou os estudos das filhas (as de Caiado também estudaram na Suiça, conforme ele revelou no falatório). Não tem sentido.

 

No final das contas, dói ver um governador de Estado debatendo nesse nível, pior ainda quando é ele quem tomou a iniciativa de puxar a discussão para tão baixo. Na primeira das notas que divulgou para rebater Caiado, Marconi cometeu um deslize, mas um único: chamou o adversário de “canalha”, o que foi um excesso que ele parece ter percebido ao evitar expressões parecidas na segunda nota. Fora esse escorregão, os termos do ex-governador foram duros, porém aceitáveis quanto a uma polêmica essencialmente política. Quem passou dos limites e agora está devendo é Caiado. Principalmente ao voltar a encarnar o tipo valentão, que chama desafetos para resolver no braço.

 

E, sim, o governador tem que apresentar, e rápido, as provas que atestariam que nada do que ele disse foi inventado. Se não o fizer, passará por um grande mentiroso. Vale lembrar que, desde que assumiu, ele nunca apontou um caso concreto de corrupção praticado nas gestões passadas que tenha sido descoberto e apurado pela atual. O máximo a que chegou foi uma estória muito mal contada na esfera do Ipasgo, da qual até o presente instante não saiu nada de real – com um agravante, para Caiado: o Ipasgo recontratou por R$ 17 milhões, sem licitação, a empresa que o próprio instituto acusou de envolvimento nas supostas falcatruas.

 

Quer queira ou não o governador, Goiás está em um estágio civilizatório que dispensa extravagâncias inconsequentes que mostram como imaturo um homem de 70 anos (Caiado completa essa idade a 25 de setembro próximo), em cujas mãos estão depositadas as esperanças dos milhões que votaram nele na última eleição.

20 ago

Bateboca com Marconi é erro grave de Caiado, que começou a troca de insultos, não tem nada a ganhar com isso se mostra sem noção do equilíbrio que deveria ter como governador do Estado

A troca de insultos entre o governador Ronaldo Caiado e o seu antecessor Marconi Perillo, com direito a cobertura integral pelo jornal O Popular e o apelo a um vocabulário altamente ofensivo, começou, continua e, se terminar em algum momento nos próximos dias, terá um perdedor certo: o próprio Caiado.

 

Dá um gosto ruim na boca ver um governante se metendo com toda a sua energia em uma altercação pautada pela total falta de racionalidade, a começar pelo momento que Caiado escolheu para iniciar o tiroteio: a missa final da Romaria de Muquém, o que deu a Marconi a oportunidade de afirmar, não sem alguma razão, que o evento religioso teria sido profanado. O mau passo a seguir foi o conteúdo da fala do governador, ao fazer acusações graves a Marconi sem que seja possível comprovar qualquer uma delas. Mesmo respondendo a processos na Justiça, o tucano não pode ser inquinado de “ladrão” ou chamado de “bandido” por um motivo muito simples: não tem condenação transitada em julgado, aliás nem em 1ª instância, não passando réu sob investigação, que pode, no final das contas, concluir pela sua inocência. Não à toa, Marconi ganhou na justiça uma indenização de reparação moral a ser paga pelo ex-governador Alcides Rodrigues e pelo ex-secretário da Fazenda Jorcelino Braga, que o acusaram de ter “quebrado” o Estado. Como não conseguiram provar o que disseram, os dois foram punidos.

 

Agindo dentro dos seus direitos, Marconi deve chamar Caiado aos tribunais para que prove as suas denúncias. É assim que as coisas funcionam no Estado de Direito e em um país civilizado. Só que uma autoridade como Caiado deveria ter noção dessas limitações. Digamos que, em uma campanha eleitoral, ele até poderia ter dito o que disse de Marconi na missa do Muquém, em um palanque qualquer. Mas, como governador, jamais. Isso incomoda a sociedade. Se o governador age assim em relação ao seu predecessor, pode, em tese, fazer o mesmo com qualquer cidadão. Não dá para aceitar e por isso o maior perdedor com esse debate de baixo nível é quem o iniciou, ou seja, Caiado.

20 ago

Na troca de insultos com Marconi, Caiado gaba-se de ser “transparente”. Não, governador. Não é não. E se já foi, no seu passado como deputado e senador, deixou de ser quando assumiu o governo

Na infeliz troca de insultos com o ex-governador Marconi Perillo, em andamento pelas páginas do jornal O Popular, o governador Ronaldo Caiado aproveitou para se gabar de ser “transparente” – característica que pode ter tido no seu passado de deputado federal e senador, mas que perdeu em grande parte ao assumir o governo do Estado.

 

Caiado fala demais e não tem a humildade como um das suas virtudes. A transparência que alega não deveria ser autoproclamada por ele, porém, antes, reconhecida pelas goianos e goianos que ele governa. Ele dizer que é tem pouca importância, quando o que vale é ser espontaneamente avaliado como uma autoridade e um político que de fato “transparente”.

 

Vamos começar pela parte institucional. O governo Caiado não tem o menor apreço pela transparência. Seus sites de informações públicas são deploráveis. Vergonhosos. Caiado importou do Rio um coestaduano, seu parente, que estava ganhando dinheiro com uma respeitada empresa de tecnologia da informação. Esperava-se que, com a aquisição, houvesse um passo à frente na prestação de contas sistemática que o governo deve à sociedade, um serviço que depende umbilicalmente dos modernos procedimentos de internet. Passados oito meses, não deu em nada. O especialista, secretário de Desenvolvimento & Inovação Adriano Rocha Lima, está é cuidando das reclamações contra a Enel, da futura privatização da Metrobus e da edição da feira Campus Party em Goiânia (a propósito: se divulgação até agora de quanto vai custar para o governo), que vai fazer a festa para os gamers goianos. Em matéria de melhorar a comunicação com a população, Adriano Rocha Lima não se interessou.

 

Toda a ineficiente estrutura online de transparência que Caiado herdou foi mantida ou, em alguns casos, como no da Secretaria de Segurança, piorada. É coisa que um governo sério e bem intencionado resolveria em dois meses, quanto mais nos oito que praticamente já transcorreram – e, assim, foram perdidos. Há alguma luz nos dados fornecidos pelos sistemas operados pela Secretaria da Economia, de resto os mesmos dos governos passados, sem nenhum avanço ou aperfeiçoamento e mesmo assim com falhas gritantes, como ocorre no caso das informações sobre os incentivos fiscais, inexistentes. E vale registrar: fora da área institucional, o governo Caiado é rápido na divulgação de qualquer fato que represente escorregões ou irregularidades nas gestões anteriores, mas lento e geralmente omisso quando aos seus descaminhos – estando aí para quem duvidar o exemplo do acontecido na Codego, neste ano, que foi abafado e varrido para debaixo do tapete. Que houve corrupção lá, originária do atual governo, houve. Mas tudo foi escondido.

 

Sigamos. Todo governante, como Caiado, tem a obrigação de ser transparente não apenas quanto a sua administração, ponto em que ele está falhando clamorosamente, mas também relação aos seus atos individuais e vida pessoal. E aí o que está ocorrendo em Goiás é de se lamentar. Notem-se as especulações sobre o estado de saúde do governador, que caiu de cama, mas justificou tratar-se de uma febre – quando não é necessário ser formado em medicina, como Caiado, para saber que febre é sintoma e não doença. Além disso, uma sombra cinzenta paira sobre o Palácio das Esmeraldas, representada pela influência oculta às vezes, nem tanto outras, da primeira dama, da primeira filha e do primeiro genro nos negócios governamentais, sem falar na plêiade de Caiados esparramados pela administração, um deles, aliás, tendo se demitido de um cargo de chefia na Goinfra (o primo Aderbal) na semana passada sem que qualquer explicação tenha sido dada. Por que o governador mantém silêncio sobre tudo isso?

 

Se transparência for questão de diploma, Caiado está reprovado.

20 ago

CPI dos Incentivos Fiscais, uma perda de tempo até agora, dá um passo ousado que pode, finalmente, acabar com a falta de critério na distribuição e manutenção das isenções de ICMS

Em andamento na Assembleia Legislativa, embora até agora perdendo tempo com irrelevâncias, a CPI dos Incentivos Fiscais finalmente deu um passo ousado: resolveu investigar se as 100 maiores empresas beneficiadas realmente cumpriram com as contrapartidas com que se comprometeram quando rganharam o direito de não pagar ICMS sobre os seus produtos.

 

É uma situação que não está muito clara ainda – e, em se tratando das artes dos deputados estaduais, é preciso ficar atento (o presidente da CPI, deputado Humberto Aidar, foi obrigado a dar declarações garantindo que os empresários não está sendo extorquidos pelos parlamentares). Pelo que se sabe, a CPI vai intimar essas 100 empresas para que elas prestem contas das compensações que deveriam oferecer para os incentivos recebidos. Em princípio, essa avaliação deveria partir de uma auditoria a cargo dos técnicos da Secretaria da Economia, que, aí, sim, têm a credibilidade necessária para dizer se o prometido está sendo entregue. Ou alguma outra fonte independente. E não das próprias empresas, aprioristicamente suspeitas para apresentar relatórios sobre elas mesmas.

 

Vejam, leitora e leitor, esse antecedente: na época em que foi secretária da Fazenda, a economista Ana Paula Abrão Costa passou um pente fino em 60 das beneficiárias de incentivos fiscais em Goiás e descobriu que absolutamente nenhuma estava oferecendo as contrapartidas negociadas. Nenhuma. Corretamente, ela suspendeu as vantagens tributárias dessas 60 empresas, dando margem a uma barulheira como poucas vezes se viu em Goiás. As chamadas classes produtoras se levantaram com fúria contra secretária e pressionaram o governo do Estado até que… tudo voltou ao que era antes. A secretária recuou, manteve as 60 empresas como usufrutárias das benesses fiscais e não se falou mais no assunto.

 

É  possívelafirmarr, com margem de 100% de segurança, que nenhuma das 534 indústrias que lucram em Goiás com o privilégio de não pagar ICMS está cumprindo com as suas obrigações, indo desde geração de empregos, ampliação de instalações e da produção, aporte de recursos para o esporte amador e atividades culturais, treinamento de pessoal com recursos próprios, 5% das vagas para portadores de necessidades especiais até a contratação de agência de publicidade goiana, dentre outras. Não há fiscalização nem qualquer apuração, sistemática ou eventual, sobre as contrapartidas (veja aqui um excelente estudo da Faculdade de Economia da UFG, realizado em 2018, mostrando problemas graves na política de incentivos fiscais do Estado de Goiás, especialmente quanto a contrapartidas). Nem os governos passados se preocuparam em fazer um acompanhamento nem o atual se mexeu nesse sentido. A CPI, portanto, finalmente enfiou uma vara no vespeiro. Se os deputados tiverem coragem e honestidade para ir até o fim, vai ser um furdunço como nunca se viu em Goiás.

20 ago

PEC que reduz de 27 para 25% o repasse obrigatório para a Educação é um dos raros acertos de Caiado até agora e deveria ser apreciada sem exploração política pela Assembleia. E, claro, aprovada

A Proposta de Emenda Constitucional em tramitação na Assembleia, incluindo os 2% de gastos obrigatórios com a Universidade do Estado de Goiás dentro dos 25% destinados à Educação, é um dos raros acertos do governador Ronaldo Caiado – embora não tenha sido dele a iniciativa, mas dos próprios deputados, sob sua inspiração – até agora e deveria ser apreciada sem exploração política, para, no final de uma tramitação rápida, ser aprovada sem maiores questionamentos.

 

Isso porque os parlamentares, sequiosos por recursos para o chamado orçamento impositivo, que obriga o governo do Estado a pagar as suas emendas orçamentárias, sinalizam a vontade de misturar as duas coisas, condicionando a aprovação da PEC à liberação dos recursos que atendem aos seus interesses. Chantagem pura, mas infelizmente normal no jogo legislativo, como Caiado sabe muito bem, do alto da sua longa carreira de mais de 20 anos no Congresso Nacional.

 

Um assunto tão sério como a alocação de recursos para a Educação deveria ser tratado dentro dos seus próprios parâmetros. A vinculação constitucional de 25% atende a uma concepção do passado, quando a intenção era obrigar os gestores públicos a aplicar o mínimo necessário para garantir novas escolas e mais professores (nem sempre com melhores salários) para atender ao crescimento demográfico da população. Isso acabou. Hoje, em vez de abrir, o que se faz é fechar unidades de ensino por falta de alunos. Como é praticamente impossível alcançar o piso de 25% de gastos, imposto pela Constituição, não há governador ou prefeito que não esperneie para inventar despesas e satisfazer a exigência, na tentativa de fugir das punições cominadas pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

 

A PEC que está na Assembleia ajuda, embora sem resolver o problema em definitivo. Os orçamentos estaduais e municipais, na verdade, são engessados por uma série de vinculações, quase todas correspondentes a algum objetivo que se perseguia remotamente e que perdeu o sentido na atualidade. O ministro da Economia Paulo Guedes já anunciou que uma das suas metas é levar adiante um processo capaz de acabar com todas elas, dando margem de manobra para os administradores públicos. Em alguma medida, é algo, sim, de que o país está precisando para ganhar mais dinamismo nos seus diversos níveis de governo.

 

Não há como, em Goiás, investir os tais 25% na Educação. Isso tem custado processos por improbidade aos gestores estaduais e municipais. Um exemplo é o ex-governador Marconi Perillo, que responde injustamente na Justiça a uma acusação do Ministério Público por não ter alcançado, em um determinado ano, essa meta mínima de gastos. Caiado, se não mudar a Constituição Estadual, vai no mesmo rumo. No primeiro semestre, foi advertido pelo Tribunal de Contas do Estado de que havia destinado apenas a metade do previsto para a Educação. Na Saúde, que também tem uma vinculação constitucional, o atual governo igualmente ficou abaixo do previsto. Como o cálculo deve ser anual, Caiado terá até o fim do ano para se ajustar, fazendo das tripas coração para fechar o balanço em dia com essas vinculações absurdas. Enquanto isso, tenta mudar a Constituição.

 

A Assembleia erra ao negociar a aprovação da PEC que inclui os 2% na UEG nos gastos com a Educação, ao exigir, em troca, mais garantias para o seu orçamento impositivo. Não tem nada a ver. O orçamento impositivo é um direito dos deputados, previsto em lei, que o Palácio das Esmeraldas, também errando, pelo seu lado, tenta embaralhar. Está faltando diálogo e bom senso aos dois Poderes, com prejuízos para a sociedade.

19 ago

Tempo e energia que Caiado gastou com sermão em missa no Muquém, bateboca com Marconi e viajando à toa com o presidente seriam melhor aproveitados com trabalho duro para Goiás

A agenda da semana passada do governador Ronaldo Caiado foi completamente improdutiva, em se tratando do compromisso que assumiu, ao ser eleito: em poucas palavras, trabalhar duro para resolver os problemas de Goiás. Que, como se sabe, são muitos e continuam sem perspectiva de solução, mesmo com o novo governo completando oito meses desde que foi empossado.

 

Em uma atitude que bateu recorde de inconveniência, seja para as suas responsabilidades como maior autoridade estadual, seja pelo local escolhido (uma celebração religiosa), seja pelo assunto (mais uma vez, a denúncia sem documentos de corrupção supostamente havida no passado em Goiás), Caiado meteu-se em um bateboca com o ex-governador Marconi Perillo, ao, mesmo sem citar o seu nome, fazer acusações contra ele durante um inusitado sermão no púlpito da missa final da Romaria de Muquém. Bateboca porque Marconi, percebendo a oportunidade, quebrou a sua rotina de silêncio para um revide muito, mas muito agressivo – em que, gostem ou não os caiadistas, tocou em feridas reais hoje sangram a imagem do governador. A apatia administrativa, por exemplo. Ou a falta de resposta para o desejo de mudança que embalou a sua campanha vitoriosa, ainda mais quando a gestão, pelo menos até agora, é uma espécie de mais do mesmo que sempre se viu no Estado.

 

Quem fala o que quer, ouve o que não quer. Apesar dos exageros – chamou Caiado de “canalha” -, a reação de Marconi funcionou como uma espécie de alerta para a população, ao sintetizar os pontos que estão levando a uma frustração com o novo governo e simbolizando uma espécie de aviso: “O rei está nu”. E tanto está que, faltando quatro meses para completar o seu primeiro ano de poder, o “rei” segue com um discurso de palanque, repetitivo, cansativo, que incomoda na medida em parece ter a intenção de ocultar a falta de um rumo seguro ou a ausência de uma discussão inteligente sobre as alternativas a adotar. Uma curiosidade: ao comentar o falatório de Muquém, o apresentador da Rádio Sagres Rubens Salomão, observou que só faltou fechar a prédica de Caiado com o seu jingle de campanha (aquele, “a fila andou/o povo pede Caiado governador).

 

Tudo de uma inutilidade sem tamanho. Para completar o desperdício da semana do governador, ele aceitou o convite do presidente Jair Bolsonaro para passar dois dias viajando pelo Brasil, perdendo tempo com futtilidades como uma formatura de oficiais do Exército na Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio, e um rodeio em Barretos – nada, enfim, que sequer remotamente pudesse representar algum benefício para Goiás. além de festa e oba oba. Os desafios que realmente importam às goianas e aos goianos, durante todo esses longos dias, ficaram em segundo, terceiro ou quarto lugar. Caiado não é candidato. Nem deputado ou senador. É governador e precisa mostrar logo por que isso pode ser bom para Goiás.

17 ago

Se há alguma mudança em Goiás, não é no Executivo, conforme prometeu e não cumpriu Caiado, mas, sim, na Assembleia, que pela primeira vez na história é um Poder próximo da independência

Uma das maiores surpresas negativas do governo Ronaldo Caiado – e são várias – foi a falta de habilidade para construir uma base de sustentação segura e estável na Assembleia Legislativa, imprescindível para que a administração consiga aprovar seus projetos e achar um norte para os seus próximos anos de mandato. Por dois motivos: 1) imaginava-se que esse desafio seria superado pela suposta experiência de Caiado na área parlamentar, setor onde passou os mais de 20 anos da sua vida política e 2) nem é tanto um desafio, diante da facilidade para acertar o apoio dos deputados, coisa que todos os governadores, nos últimos 60 anos pelo menos, conseguiram com pouco esforço – é inegável que sempre há, em todas as Legislaturas, uma tendência irrefreável para se ajoelhar ao Executivo, fisiologicamente no mais das vezes, porém quase sempre em troca de quase nada.

 

O fato é que Caiado foi e tem sido um fiasco no seu relacionamento com a Assembleia. O nome que queria para presidir o Poder foi vexatoriamente derrotado e ele acabou obrigado a engolir Lissauer Vieira, que foi escolhido pelos seus pares quase que unanimemente como expressão de um desejo de autonomia do Legislativo em relação à Praça Cívica. A inovação começou aí e daí em diante ocorreu uma sucessão de tropeços para o governo, vivendo-se hoje uma situação em que só é garantida a aprovação para matérias rotineiras e sem importância. Se houver alguma polêmica, como na mudança das regras do Passe Livre Estudantil, nada feito. Aliás, nesse caso só não houve uma massacrante rejeição do plenário porque Caiado recuou a tempo e retirou a proposta.

 

Como nunca se viu antes, deputados falam abertamente em derrubar vetos, em rejeitar as possíveis medidas do Executivo, como a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal, que venham a ser submetidas à Assembleia e elevam o tom ameaçando impor punições ao governador caso não cumpra a obrigação de fazer os repasses do duodécimo ou de pagar as emendas orçamentárias. dos parlamentares. Tudo isso é inédito na história política de Goiás. Jamais, em tempo algum, a autoridade do Palácio das Esmeraldas perante o Legislativo foi tão menosprezada. Se há alguma mudança ocorrendo no Estado, é o posicionamento independente da Assembleia e o seu crescimento como Poder, para azar de Caiado.

 

Para completar esse quadro completamente novo que se instalou na política estadual, os deputados estão até dando lições de comportamento republicano a um governador que se gaba de seguir esse princípio, porém não age bem assim. É que, no caso das emendas orçamentárias dos deputados, Caiado insiste na tese de pagar, mesmo parcialmente, apenas as de iniciativa dos membros da sua bancada, recusando as da oposição – repetindo, aliás, a mesma discriminação que os governos do passado faziam. Só que… não, disseram os deputados, unanimemente. As emendas não são direito, em razão do orçamento impositivo, de uns ou de outros. São de todos os 41 integrantes do Poder. Envolvem recursos que, ao serem pulverizados em obras e programas pelo interior, vão beneficiar o conjunto da população. Respeitá-las, no conjunto, atendendo a todos os parlamentares e não apenas aos que votam a favor do governo, é um ato de lealdade a que Caiado quer se recusar, mas deve à sociedade. Olhem só, leitora e leitor, que baita novidade: a Assembleia, logo a Assembleia, está ensinando ao governador que os recursos públicos devem ser geridos sem filtros políticos ou partidários.

17 ago

Cargo de primo de Caiado na Goinfra – Assessor Especial Estratégico da Presidência – mostra que o atual governo é igual a todos os do passado no desperdício de dinheiro apenas para abrigar protegidos

Ao se exonerar da Goinfra, um dos seus mandachuvas, Aderbal Caiado, que é primo do governador Ronaldo Caiado, acabou escancarando uma realidade de todos os governos do passado que se mantém mais viva do que nunca na atual administração: o desperdício de dinheiro público com a distribuição de cargos – de utilidade nula – para protegidos e, no caso, até para parentes próximos.

 

Graças à demissão, descobriu-se que Aderbal estava nomeado para a Assessoria Especial Estratégica da Presidência da Goinfra. Vejam só, leitora e leitor: Assessoria Especial Estratégica da Presidência. Isso não tem cabimento. O salário é de R$ 18 mil mensais, fora secretária, telefone celular, carro com motorista, diárias e sabe-se lá mais o quê. Dinheiro jogado fora porque não há necessidade de nenhuma assessoria especial estratégica para se saber que a Goinfra só precisa cuidar da manutenção das rodovias estaduais, hoje em situação de calamidade. E, eventualmente, construir uma ou outra obra, que, a ser verdade o falatório de Caiado sobre as suas dificuldades financeiras, serão escassas daqui até 2022.

 

Quantas assessorias especiais estratégicas existem pelo governo afora, consumindo preciosos recursos do contribuinte? Ninguém sabe, mas pode-se cravar com segurança que devem ser centenas. A maioria sem a menor finalidade, a não ser abrigar amigos, correligionários e, quanto a Caiado, também familiares. Existiam nos últimos 20 anos, continuam existindo agora. As reformas administrativas deste ano não mudaram nada e mantiveram todas, inclusive em órgãos que não têm função alguma, como a Goiásparcerias, a Agência ABC ou a Iquego, mas perduram como ralos por onde escapa um dinheiro considerável. E, com cobertura ostensiva da imprensa diária, a Secretaria de Governo está arregimentando ex-deputados e ex-prefeitos para atuar como articuladores do Palácio das Esmeraldas, visando a resolver problemas políticos no relacionamento com a Assembleia e com a base governista no interior. No final das contas, a volta das secretarias extraordinárias, que Caiado extinguiu. O mesmo, o mesmíssimo de sempre.

 

Em um sermão improvisado na missa final da Romária de Muquém, Caiado achou uma metáfora sensacional para simbolizar a lambança fiscal, as irregularidades e o acúmulo de erros administrativos que encontrou ao assumir a gestão. “Goiás foi a Disney dos corruptos”, disse, mostrando criatividade. Espetacular. Mas faltou ser sincero e admitir que o parque de diversões continua aberto. Corrupção não é só roubalheira (que inclusive parece já ter ocorrido desde janeiro para cá, valendo citar o episódio abafado da Codego). Corrupção é tudo que tira os fundos públicos dos seus objetivos de proporcionar retorno satisfatório em serviços públicos para a população. E isso, no governo Caiado, está para todo lado.

15 ago

É precoce dizer que o governo Caiado beira um fiasco, mas também não se está longe disso, depois de frustrada a expectativa gerada pela espetacular vitória nas urnas. E não há a quem isso possa aproveitar

Em condições normais, um governante próximo de completar oito meses de mandato sem se afirmar como um administrador que sabe o que quer e, mais ainda, o que precisa ser feito para dar um rumo à sua gestão, já estaria a essa altura muito desgastado e totalmente superado, no cenário político, pelas lideranças que fazem oposição a ele. Mas, vejam bem, leitora e leitor: no início da frase anterior, foi dito “em condições normais”. Porque, no caso do governador Ronaldo Caiado, há uma anomalia séria: quem poderia assumir a oposição ao seu governo e se beneficiar da sua deterioração precoce, no caso o ex-governador Marconi Perillo, está no fundo do poço, sem a menor possibilidade de botar a cara para fora ou, no momento, sonhar em fazer isso um dia.

 

Mesmo entre caiadistas apaixonados, não há mais o entusiasmo que era observado logo após a espetacular vitória nas urnas de 2018. A esperança gerada foi a de um governo inovador, capaz de corrigir pelo menos os erros mais gritantes na condução do Estado e garantir às goianas e aos goianos os serviços públicos necessários, com honestidade e eficiência. Oito meses depois da posse do governador, não há mais nem sombra dessa expectativa. Sequer se pode falar que os níveis éticos e morais observados na condução da máquina pública, tão caros a Caiado durante toda a sua longa carreira parlamentar, passaram por algum upgrade. Nada disso. Já há casos de corrupção, como o da Codego, inteiramente originários da atual administração. Funcionários presos em gestões passadas, pela prática de irregularidades, foram readmitidos. E o pior de tudo: o governo segue como uma avantajada vaca leiteira, com o cabresto nas mãos do secretário de Governo e articulador oficial Ernesto Roller, em cujas tetas os políticos, com nomes agora trocados, continuam agarrados, com o beneplácito do governador que prometeu “desmamar” à força os aproveitadores dos recursos do contribuinte.

 

Só não é fiasco porque ainda estamos no ano um do mandato e, portanto, finalizando um período em que é normal que se conceda um crédito ao chefe do Executivo, qualquer que seja. Mas que há uma paralisia e uma sensação de desnorteamento pairando sobre Goiás, há. Sem ter sido atingido pelas bombas atômicas que explodiram no seu colo, Marconi estaria transformado hoje na principal referência política estadual, símbolo de tudo de bom que Caiado não é nem faz força para ser. Se a queda do tucano que mandou como um semideus durante os seus 20 anos de reinado tivesse se limitado à derrota eleitoral, mesmo massacrante como foi, ele já estaria de pé há muito tempo. O problema são os processos judiciais, a prisão, mesmo por 24 horas, as denúncias de envolvimento no recebimento de propinas e as estórias mal contadas sobre os seus últimos dias de poder e até de antes. Foi por isso que, quando ele estava detido na carceragem da Polícia Federal, no setor Bela Vista, em Goiânia, vídeos nas redes sociais mostraram cenas de comemoração e até de pessoas dançando alegremente.

 

Não se supera isso a toque de caixa, nem mesmo sendo sucedido por um governador ruim como Caiado. E, fora Marconi, a oposição limita-se a uma ou outra voz, como os deputados estaduais Talles Barreto e Leda Borges, ou o prefeito de Trindade Jânio Darrot, presidente estadual do PSDB, bom moço demais para encarnar o antagonismo ao governador, porém, de resto, os três ainda sem cacife para ocupar o vazio político que está se abrindo. De onde poderia vir alguma ajuda, como o PT, não sai nada. Em condições normais, não as que aí estão postas, Caiado já seria um zumbi – e, mesmo com as vantagens proporcionadas pelos seus adversários, aqui e ali há quem o veja assim.

14 ago

Base parlamentar inconsistente e queda de braço com a Assembleia minam a confiança da sociedade quanto a capacidade de Caiado para governar e aprovar os projetos que dariam um rumo à sua gestão

Um dos políticos goianos de mais longa e mais bem sucedida carreira como parlamentar, o governador Ronaldo Caiado está completando oito meses de mandato executivo sem conseguir estabelecer, até hoje, uma relação sólida e confiável com a Assembleia Legislativa – Poder do qual depende para a aprovação dos projetos que poderiam suprir o que falta para a sua gestão, ou seja, um rumo para o futuro. Isso seria o mínimo para qualquer governante.

 

Caiado não tem garantia de nada na Assembleia. Deputados vão e voltam, quanto a composição da bancada governista. Para conquistar uma base, chegou a pisar nos princípios éticos que defendeu na campanha: na sua administração, as nomeações obedeceriam a critérios de qualificação profissional e de ficha limpa. Não fez nada disso, oferecendo aos parlamentares cotas de R$ 30 mil em cargos comissionados e superintendências e diretorias para os seus apaniguados, porta pela qual entraram figuras nada recomendáveis. Graças a isso, por exemplo, nomeou para a Codego apadrinhados de deputados que acabaram flagrados em atos de corrupção, inteiramente originários do atual governo e não dos passados. Como consequência, a estatal está sob intervenção, cuja maior finalidade parece ser varrer a sujeita para debaixo do tapete, dada a falta de transparência sobre o que aconteceu lá e o que está sendo feito no momento.

 

Ocorre que essas concessões não serviram para grande coisa. Como os deputados seguiram insatisfeitos e criando problemas para os projetos do Palácio das Esmeraldas que realmente têm importância, Caiado passou a dizer que estava sendo “chantageado” pelos componentes da sua própria base e que o Legislativo seria um “barril de pólvora”, dado ao retorno de irregularidades antigamente comuns. Ao mesmo tempo, permitiu que se aprofundasse o fosso que marca o relacionamento que tem com o presidente da Assembleia Lissauer Vieira, eleito contra a sua vontade. Aos poucos, Lissauer Vieira tem superado o que seus interlocutores mais próximos definem como “medo de Caiado” para firmar posições públicas de confrontação com o governo – caso do Regime de Recuperação Fiscal, que ele assegura que não será aprovado de jeito nenhum.

 

O que existe entre Caiado e a Assembleia, hoje, é uma queda de braço. O governador não cedeu no pagamento do duodécimo integral, que os deputados reivindicam para concluir a nova sede do Poder, no Park Lozandes, hoje a maior obra em andamento em Goiás. Também vetou os dispositivos que dariam efetividade ao orçamento impositivo, recusando-se a tornar obrigatório o pagamento das emendas dos parlamentares. Tudo isso sem conversa ou comunicação prévia ou posterior. Caiado faz o que acha que deve fazer e a Assembleia que se dane. O relacionamento entre os dois Poderes, por isso, é delicado e instável.

 

Mas há um preço a pagar. Incapaz de controlar um Poder que nos últimos 60 anos foi totalmente subserviente ao Executivo e tem uma vocação natural para dobrar os joelhos na direção da Praça Cívica, o governador perde a confiança da sociedade na sua capacidade como gestor público. Ele não tem o necessário e indispensável aval legislativo para adotar medidas mais profundas ou radicais, que entenda benéficas para Goiás. Passa a imagem de um governante que tem a autoridade limitada e que, mesmo recorrendo a ações que condenava, não chega a lugar nenhum. Parece tonto, indo e vindo, desnorteado.

13 ago

“Quando o seu adversário erra, não atrapalhe”, ensinava Napoleão e é essa a mensagem que Marconi está passando para os tucanos de Goiás, para justificar o seu recolhimento em São Paulo

O ex-governador Marconi Perillo está mais convencido do que nunca quanto ao acerto da sua estratégia de se afastar do cenário político estadual e deixar o campo aberto para que o seu adversário Ronaldo Caiado siga em frente às custas de tropeções nas próprias pernas – o que, de fato, é o que vem ocorrendo, com o atual governo mostrando-se sem rumo e hesitante quanto ao que fazer, com o desperdício dos seus primeiros oitos meses de mandato.

 

Radicado em São Paulo, com raras viagens a Goiânia ou ao seu sítio em Pirenópolis, Marconi aproveita para se dedicar à sua defesa nos quase 15 processos judiciais a que responde e, mesmo sabendo que a Justiça é lenta no Brasil e que esse martírio forense pode se prolongar por mais de 10 anos, acredita que essa situação não trará prejuízos para o seu oportuno retorno à política. Por ora, o projeto que alimenta é se candidatar a deputado federal em 2022, mas é óbvio que daqui até lá há muita água para passar debaixo da ponte, especialmente a partir da grande surpresa negativa que tem sido a administração de Caiado.

 

Enquanto isso, é com prazer que Marconi assiste ao que entende ser a erosão cada mais intensa do prestígio de um governador que foi eleito com uma votação espetacular, mas jogou esse capital no lixo, e à falta de racionalização para o comando que o Palácio das Esmeraldas deveria exercer sobre a administração estadual e sobre a sua base política. E tudo isso sem que seja necessária qualquer contribuição da oposição para acelerar os desgastes ou criar obstáculos para Caiado. Ele, digamos assim, é o seu próprio inimigo. Marconi segue uma máxima que aprendeu lendo comentários de Napoleão Bonaparte sobre a arte da guerra: quando o inimigo erra, jamais atrapalhe.

12 ago

Entenda porque é inaceitável o decreto de Caiado que abriu para a PGE o sigilo fiscal das empresas que devem ICMS: procuradores estaduais podem advogar e estaria aberta a captação de clientes

Há uma crise  – séria – nos bastidores do governo do Estado, aberta pelo decreto 9.488/2019, assinado pelo governador Ronaldo Caiado, autorizando o compartilhamento da base de dados da Secretaria da Economia pela Procuradoria Geral do Estado, no que se refere às empresas que têm débitos de ICMS. A medida foi baixada no âmbito do Palácio das Esmeraldas, sem consulta à secretária Cristiane Schmidt, e ouriçou os auditores fiscais do Estado, que têm sérias restrições à distribuição dessas informações a outros setores da administração.

 

A PGE, como se sabe, é uma espécie de mão do rei no governo Caiado. Sob influência da primeira-filha Anna Vitória, um dos seus procuradores, Anderson Máximo, assumiu a Secretaria da Casa Civil e a partir daí tentáculos foram esparramados por todas as secretarias e órgãos. A PGE manda de cabo a rabo na gestão, impondo uma visão jurídica ao andamento da administração e, claro, reservando para si todos os privilégios corporativos possíveis, como o aluguel milionário de uma sede, em um governo que gaba de economizar e fugir de gastos extravagantes, e, agora, com o decreto acesso indevido ao banco de dados da Secretaria da Economia.

 

E por que seria indevido? O Sindifisco, que defende com unhas e dentes não só os interesses dos seus associados fiscais e auditores estaduais, mas os da própria sobrevivência fiscal do governo, qualquer que seja, posicionou-se contra e isso não é pouca coisa. Diga-se o que quiser do sindicato, mas é o inequívoco o seu mérito de sempre atuar a favor das demandas da sociedade, também. E, ao se levantar contra o compartilhamento de informações com a PGE, mais uma vez está coberto de razão.

 

O que está errado com o decreto de Caiado? Fácil entender: os procuradores estaduais, em uma falha ética da legislação, não são impedidos de advogar. Vários têm escritórios estabelecidos em Goiânia e alguns são até tradicionais. Ao acessar a lista de devedores do ICMS, com todos os detalhes, seria teoricamente possível que utilizassem o conteúdo para captar clientes e abrir novas frentes de negócios de advocacia. É só uma hipótese? É. Mas absolutamente incompatível com a seriedade e a responsabilidade de qualquer governo, menos ainda com um que gosta de se apresentar, como é o caso de Caiado, como defensor da ética e da moralidade. O rol de inadimplência tributária da Secretaria da Economia, em resumo, vale ouro para quem tiver acesso a ele, suspeita, aliás, que vale também para os próprios membros dos quadros do Fisco Estadual – o que reafirma a importância da maior continência possível na sua divulgação.

 

O decreto de Caiado liberando o compartilhamento da lista de devedores do ICMS e seus detalhes para a PGE tem cheiro de ovo podre. Repita-se: nem sequer a secretária Cristiane Schmidt, como ela mesma declarou, foi ouvida. E Caiado, que como governador não tem pela transparência o mesmo apreço que tinha como deputado federal ou senador, nunca deu um pio explicando sobre o que fez… se é que sabe o que fez.

12 ago

Estatísticas sobre crimes usadas por Caiado não são fidedignas e não servem para sustentar a sua afirmação de que “Goiás tem a melhor polícia do Brasil”. Não confiem nisso, leitora e leitor

O governo de Goiás enfrenta problemas sérios com o banco de dados da Secretaria de Segurança, que deveria espelhar com transparência e objetividade o andamento das estatísticas sobre a criminalidade em Goiás, mas é amadorístico, desorganizado e não submetido a qualquer tipo de auditoria – de forma que todas as gestões, as anteriores e a atual, manipulam as informações conforme o discurso que tenta mostrar à população que supostamente ocorrem avanços nas ações das forças de repressão à bandidagem.

 

Nesse sentido, segundo o governador Ronaldo Caiado repete diariamente, Goiás tem a melhor polícia do Brasil. É um mantra, acompanhado de uma enxurrada de números presumidamente apontando para uma espetacular redução nos índices de violência. Pura bufonaria. Não é de hoje que se sabe que o Estado tem um dos piores sistemas de acompanhamento de ocorrências policiais, que, para começo de conversa, sempre necessita ser monitorado por instituições independentes, a fim de evitar adequações forjadas para justificar o inconsequente ufanismo de todos os governos. Seguidamente, o jornal O Popular tem mostrado que a Secretaria de Segurança não atende a quesitos mínimos de transparência e lealdade com a sociedade, preferindo investir em jogadas irresponsáveis de marketing, tipo “14 dias sem homicídios em Goiânia” ou “registro de roubos de carros caem como nunca antes na história de Goiás”.

 

É verdade que a segurança da população decorre de uma sensação e esta, por sua vez, resulta da percepção de que as autoridades estão agindo e efetivamente perseguindo criminosos e quadrilhas, além de marcar presença preventiva nas ruas. Para isso, a visibilidade das polícias e o seu sucesso comprovado é fundamental. Vejam bem, leitora e leitor: a expressão utilizada aqui é “sucesso comprovado”. É aí que entra o apelo fácil a dados não confiáveis, não auditados e absolutamente sem transparência e sem correspondência com a realidade, que acabou seduzindo até um governador que foi eleito prometendo mudança, mas no final das contas recorre aos mesmos estratagemas que os seus antecessores no cargo.

 

Um dos grandes exemplos dessa situação é a manchete desta segunda-feira de O Popular, reportando a uma matéria onde se demonstra, com clareza, que não há informações disponíveis sobre o percentual de assassinatos, em Goiás, que são resolvidos a cada mês ou ano. A “melhor polícia do Brasil” não conta com uma base de dados sobre a resolução de homicídios, apesar do falatório autoglorificante do governador. Um vexame, na verdade. Uma vergonha, dizendo de outro modo. A Secretaria de Segurança, segundo O Popular, prometeu uma elucidação sobre o assunto, porém… para o final do ano.

 

Quem acreditar nessa prosopopeia de “melhor polícia do Brasil” está correndo risco. O governo Caiado é igual a todos os outros: quer levar, no gogó, aquilo que deveria resultar de ações inovadoras e palpáveis.

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