Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

01 fev

Assembleia com novo presidente não submisso ao Executivo representa avanço histórico para Goiás e dará a Caiado um contrapeso e um freio que, no final das contas, serão até educativos para ele

Talvez sem muita consciência de que acabariam alcançando esse objetivo, o movimento da maioria dos deputados estaduais que na tarde desta sexta-feira, 1º de fevereiro, elegerá Lissauer Vieira como o novo presidente da Assembleia, não submisso ao Executivo, vai dar uma contribuição histórica para o desenvolvimento político de Goiás ao vestir no Legislativo o figurino da independência que servirá de contrapeso e de freio que no final das contas será positivo para o mandato do governador Ronaldo Caiado – e principalmente por se tratar de Caiado.

 

Qualquer criança, ao observar e avaliar o primeiro mês do novo governo, será capaz de dar o diagnóstico correto: é uma gestão lenta, excessivamente fechada em si mesmo, formada em sua maioria por secretários que nunca pisaram no Estado e portanto obviamente não o conhecem, com um indiscutível componente de autoritarismo personalizado no estilo do próprio governador, que não ouve e não consulta ninguém. Não existe um processo de afinamento de decisões, tomadas até agora sem um processamento padrão e muito na base do improviso, criando cada vez mais arestas e queimando à toa o formidável capital político que Caiado conquistou ao vencer em 7 de outubro com votação recordista e ainda por cima no 1º turno. Esse caminho se tornou inviável com o que aconteceu e será consolidado na tarde desta sexta no Legislativo e terá que ser substituído por algo mais palatável para os políticos e para os goianos.

 

A derrota do governo na disputa pela presidência da Assembleia não é pouca coisa e não apenas por ser inédita diante dos últimos 40 anos e mais ainda por ter sido decorrente de erros infantis de articulação política, gerados por uma certa arrogância e prepotência. Vai prejudicar a imagem de Caiado inclusive nacionalmente, pois está em sentido contrário ao que se esperava de alguém com mais de 30 anos de experiência parlamentar. Ocorre que, do ponto de vista dos interesses da sociedade, que é a beneficiária de uma gestão que se mostre equilibrada e responsável nos seus atos, pode se tratar de um avanço: a Assembleia, enfim, poderá realmente moderar a ação do Executivo, que a partir de hoje terá que se mostrar cauteloso e prudente em dobro ou em triplo com relação aos projetos e aos temas que submeterá à apreciação da Casa. Bom, mas muito bom para Goiás. E necessário para chamar Caiado de volta à realidade: se ele ganhou sozinho a eleição para governador, sozinho não governará jamais, porque são momentos diferentes e desiguais.

 

O passo que a Assembleia está dando é muito superior à mudança que Caiado propôs na campanha, mas ainda não implantou na administração do Estado. O Legislativo passou à frente do Executivo, que agora será obrigado a correr atrás, com doses extras de humildade e abertura para o diálogo. E às custas do desperdício do primeiro mês do novo governo porque, de verdade, o jogo começa a partir de agora.