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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

06 abr

“Balcão de negócios” para atrair apoio de deputados e manobra para concentrar nos governistas a liberação de emendas orçamentárias equiparam Caiado aos governadores do passado

Não é preciso relembrar aqui qual foi o discurso que o então candidato Ronaldo Caiado verberou para alcançar a adesão da maioria esmagadora dos goianos e continuou desfiando depois de eleito quanto ao que batizou de “conchavos” que os governantes do passado faziam para conquistar apoio e assegurar a fidelidade dos políticos aliados, principalmente deputados.

 

Já empossado, aliás, em uma visita à Assembleia Legislativa, Caiado deixou os parlamentares que o receberam arrepiados, ao dizer que entendia o quanto era difícil “desmamar”, ou seja, passar repentinamente a viver sem os favores do governo. Na sequência, afirmou alto e bom som que o tempo dos “conchavos”, com o advento do seu governo, havia acabado em Goiás.

 

Pois bem, leitora e leitor: o mesmo Caiado que chegou tão longe propagandeando assim a intenção de sanear e depurar a política estadual e sem dúvidas agradando às suas centenas de milhares de eleitores, terminou por ceder ao pragmatismo e ao realismo, instalando, segundo denunciou um dos seus mais próximos apoiadores, o deputado estadual Major Araújo, um “balcão de negócios” para comprar a simpatia de deputados e formar uma base de apoio na Assembleia. Trata-se de um esquema fisiológico que copia os governos anteriores, através da destinação de uma cota de R$ 30 mil em nomeações, mais duas diretorias ou superintendências ou cargos equivalentes, como, por exemplo, a chefia de gabinete da Emater, que foi dada à mãe do deputado Virmondes Cruvinel, ou uma coordenação executiva da Secretaria de Comunicação, entregue a um irmão do deputado Humberto Aidar. E assim por diante.

 

Uma ironia à parte nessa estória é que, ao denunciar o “balcão de negócios” de Caiado, o deputado Major Araújo o fez supostamente por não considerar suficiente o quinhão que a ele teria sido ofertado. O próprio detalhou que recusou o mimo porque se trataria de cargos com salários insignificantes e portanto desinteressantes.

 

Mas não ficou nisso o “balcão de negócios” caiadista. Repetindo na íntegra uma prática do então governador Marconi Perillo, Caiado espera que os deputados cooptados reprovem o projeto que torna obrigatório e automático o pagamento das emendas orçamentárias apresentadas pelos parlamentares (essas emendas subiriam, por esse projeto, para 1,2% do orçamento e seriam retiradas da rubrica de Restos a Pagar, onde estão atualmente e permitem que o governo escolha as que serão quitadas). Rejeitada a matéria e permanecendo o orçamento impositivo como é hoje, apenas os deputados governistas seriam premiados, anualmente, a critério do Palácio das Esmeraldas. Ou seja: por que permitir que também oposicionistas tenham as suas emendas pagas, quando os recursos do governo podem ser usados apenas para contemplar os seus aliados?

 

Tudo como dantes no quartel de abrantes, então. É assim que Marconi fazia, da mesma forma é assim que Caiado quer fazer. O “balcão de negócios” e os “conchavos” são os mesmos, tal qual os argumentos que os justificam. Não houve mudança alguma. A velha política vive mais vigorosa do que nunca.