Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

24 jun

Mutirão inventado por Iris nos anos 60 transformou-se em praga que até hoje serve para torrar dinheiro público em programas de puro marketing, tipo governos itinerantes ou prefeituras em ação

Em Goiânia, com Iris Rezende na prefeitura, o nome é mutirão, mesmo. Na vizinha Aparecida, chama-se Prefeitura em Ação. Em Trindade, o prefeito Jânio Darrot batizou de Prefeitura Itinerante. Enquanto Marconi Perillo estava no poder, a versão estadual foi cognominada de Governo Junto de Você. E o governador Ronaldo Caiado, eleito prometendo mudança, optou por Gabinete em Ação – Onde Tem Goiás, Tem Governo do Estado. E por aí vai. Como uma praga, cópias, a maioria malfeitas, espalharam-se pelos municípios. Sempre às custas do desperdício do dinheiro público.

 

Trata-se da mania que só existe em Goiás de levar temporariamente serviços públicos a regiões determinadas, sejam bairros ou mesmo pequenas cidades, com caríssimas estruturas de tendas, barracas, contêineres, muita propaganda visual e shows artísticos. A origem de tudo é o mutirão inventado por Iris Rezende nos anos 60, quando foi prefeito da capital pela primeira vez e, em um Estado com a população predominante rural, foi no campo que buscou inspiração para reunir braços e máquinas para socorrer bairros tomados pelo mato e com ruas intransitáveis. Começou assim, gastando-se apenas uma cobertura de lona e pratos descartáveis com arroz, macarrão e feijão. Daí em diante, não houve administrador público, especialmente prefeitos, mas também governadores, capazes de ignorar essa que, no fundo, é apenas uma estratégia de marketing e passa longe de atender realmente as necessidades da população, porém consumindo preciosos recursos do erário.

 

Caiado, para o bem dos goianos, desistiu do seu Gabinete em Ação, que, neste ano, incursionaria por oito cidades e torraria uma grana impensável em tempos de calamidade financeira decretada por ele mesmo. Só foi feita uma edição, em Rio Verde, aproveitando a feira agrícola Tecnoshow e de uma ridícula transferência simbólica da capital para o município. Fiasco. O Palácio das Esmeraldas nunca prestou contas de quanto investiu, mas não deve ter sido pouco, a ponto de assustar o governador e o levar a desistir da má ideia. Felizmente.

 

Não tem sentido transformar em permanentes programas que deveriam ser provisórios e temporários, como os tais mutirões (Iris é o único que usa o nome), governos itinerantes e prefeituras ou gabinetes  em ação. A tese política por trás é a da criação de oportunidades para a proximidade física entre governante e governados, em nome da popularidade dos primeiros, com abraços, tapinhas nas costas e selfies, além de consultas médicas, corte de cabelo, expedição de documentos e mais alguma embromações grátis, é claro. A intenção é se beneficiar da falta de esclarecimento e de consciência das parcelas da população que, acredita-se, ainda seriam seduzidas com esse tipo de manipulação. Uma aposta, enfim, na ignorância do eleitor,

 

Façam uma pesquisa no Google, leitora e leitor. Fora Goiás, é muito raro encontrar essa malandragem em outros cantos do Brasil. E, aqui, precisa acabar, por não corresponder mais ao nível de educação política e dos avanços da cidadania entre os goianos. E para fechar mais um ralo por onde é drenado o dinheiro do contribuinte.