Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

02 abr

Grande empresariado goiano está omisso na crise do coronavírus e, com exceção do setor de ácool, deu até agora uma contribuição que é ridícula: a doação de 100 termômetros

Não é exagero, leitora e leitor: a poderosa Federação das Indústrias do Estado de Goiás – FIEG, que congrega os supercapitalistas goianos, aqueles que recebem anualmente incentivos fiscais da ordem de R$ 8 bilhões (a previsão para 2020), doou 100 termômetros para os hospitais estaduais – uma despesa que não chega nem a R$ 1 mil reais, mas, até agora, é a única contribuição que ofereceu ao combate ao coronavírus em Goiás, além de do falatório inconsequente do seu presidente, o ex-deputado federal Sandro Mabel (e se não for verdade, este blog gostaria de ser desmentido).

Em São Paulo, a FIEG de lá vem se saindo à altura do seu compromisso moral neste momento de calamidade. Levantou milhões e milhões de reais para comprar cestas básicas. Empresas como a Gerdau, a Ambev e o hospital Albert Einstein (que é particular) estão dando uma lição ao grande empresariado goiano.  Anunciaram, entre outras ações, a doação de um centro de tratamento da Covid-19 com 100 leitos à Prefeitura de São Paulo. Já entregaram 40 leitos e até o fim de abril estarão prontos os outros 60, para atender pacientes sem recursos. A Gerdau pagou a estrutura do prédio, a Ambev bancará o custo e o Einstein cuidará dos doentes.

Imaginem alguma parecida em Goiás, amigas e amigos deste blog. Não vai acontecer. Empresários de porte em Goiás recusam-se a pagar até pela manutenção dos jardins públicos que ficam em frente aos seus negócios. Acham que fazem à sociedade o favor de gerar empregos, quando, na realidade, só os criam na medida mínima para a garantia de funcionamento dos seus empreendimentos e, como a CPI dos Incentivos Fiscais comprovou, descumprindo as contrapartidas que assumiram ao receber os seus bilionários descontos de ICMS – sim, aquele mesmo tributo que as pequenas e médias empresas são obrigadas a pagar todo mês, mas os gigantes da indústria, jamais. Não é à toa que já se disse, por aí, que em Goiás pagar imposto, pelo menos o estadual, é coisa de pobre.

Há uma exceção. O setor de produção de álcool, desde o início, alinhou-se com o governador Ronaldo Caiado e está se desdobrando em contribuições, sem nenhum retorno financeiro. Já há algumas semanas, 120 mil litros de álcool 70% foram entregues ao governador para atender os hospitais públicos, asilos, presídios e unidades socioeducativas, não sem antes mobilizar fábricas de refrigerantes e cerveja que se adaptaram rapidamente para promover o engarrafamento do produto em unidades de um litro. Além disso, mais 100 mil litros foram doados para municípios, a exemplo de Goianésia, onde o prefeito Renato de Castro recebeu do seu adversário político Otavinho Lage, dono de uma usina, uma remessa de 20 mil litros, sem custo nenhum.

Os usineiros são um exemplo: estão cumprindo o seu dever em Goiás, coordenados pelo Sifaeg do jovem André Rocha. Mas são eles apenas. É bom ressaltar que as produtores goianos não fabricam álcool 70%, que, inclusive, era proibido para comercialização em geral e só foi liberado, diante da emergência sanitária do país (por seis meses). Eles só fazem o etanol e o anidro. Mas se adaptaram com rapidez e estão inclusive pagando por conta própria a fabricantes de embalagens, para fornecer aos órgãos públicos de saúde, além de estabelecer uma relação com a UFG para desenvolver uma nova fórmula para o álcool gel (o atual depende de insumos importados, que estão longe do alcance no momento). Fora eles, o resto do grande empresariado goiano está vergonhosamente com os braços cruzados – aliás, nem tanto, já que precisam ganaciosamente de proteger os seus bolsos.