Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

19 set

Prática política dos Vilelas é destrutiva, daquela que deixa um rastro de mortos e feridos ao longo do caminho percorrido e se baseia em demonstrações de força e vingança rasa

Mesmo antes da aposentadoria de Iris Rezende, o MDB em Goiás já havia se transformado em propriedade privada dos dois Vilelas, o pai Maguito e o filho Daniel – que adotaram uma prática política destrutiva, jamais conciliadora, deixando o caminho que eles percorrem juncado de mortos e feridos (metaforicamente falando, é claro) e dando prioridade para demonstrações de força e arbítrio, além de ações rasas de vingança contra adversários e desafetos.

Não, leitoras e leitores, esse tipo de comportamento não é produtivo. Ao contrário, costuma até ser deletério, já que traz isolamento e desgastes para quem o assume. Não atende, por exemplo, aos interesses de quem é candidato e precisa do máximo de votos e apoio para se eleger. Maguito e Daniel, assim, acumulam prejuízos para as suas carreiras individuais, ao mesmo tempo em que, como conjunto, estão reduzindo o MDB em Goiás a fachada para seus projetos pessoais, cada vez menor e com representatividade hoje em dia reduzida a dois colégios eleitorais, embora expressivos – Goiânia e Aparecida – e prestes a perder o primeiro.

Sob o comando de Daniel Vilela, o MDB se tornou a primeira sigla de importância, em Goiás, a expulsar grandes lideranças, tal como foi feito com Adib Elias, de Catalão, ou Paulo do Vale, em Rio Verde. Eles cometeram um “crime” gravíssimo: em 2018, declarararam-se cansados de perder eleições para governador, mantiveram o perfil de oposição e apoiaram o candidato ostensivamente viável, naquela eleição, que acabou vencendo com folga. A consequência óbvia foi a transformação do emedebismo em fiapo de partido em duas das maiores cidades do Estado e adjacências. A previsão de Adib e Paulo se confirmou com a derrota de Daniel Vilela frente a Ronaldo Caiado, que teve quatro vezes mais votos. O MDB saiu das urnas muito, muito pior do que entrou: sem um único deputado federal e com apenas três estaduais.

Adib, Paulo do Vale e mais alguns pagaram um preço, que, agora, quando estão disputando a reeleição na condição de favoritos, mostrou-se compensador. Os Vilelas, contudo, não tiraram nenhuma lição do episódio. Renato de Castro, prefeito de Goianésia, que também apoiou Caiado, deixou estranhamente de expulso talvez para agora se pego em uma cilada fatal: Maguito e Daniel interviram arbitrariamente no diretório local e vetaram a sua recandidatura, que, se acontecesse, também estaria destinada a ser bem sucedida. A vindita por 2018, pelo que se vê, prossegue mais viva do que nunca.

Nas articulações em Goiânia e Aparecida, o estilo autoritário dos dois mandachuvas emedebistas voltou a se manifestar, provando que não é uma eventualidade e sim um hábito. Veter Martins foi afastado da chapa da reeleição de Gustavo Mendanha porque o seu partido, o PSD, lançou candidato próprio em Goiânia – com o senador Vanderlan Cardoso surpreendendo Maguito ao dividir o cacife eleitoral de Iris, graças ao apoio de Caiado. Para o lugar de Veter, foi fabricado um pastor que, homem sério e ponderado, recusou-se a assumir o encargo. Não foi só: o cancelamento da candidatura da Dra. Cristina, que o PL matou com uma operação escabrosa de traição e desonra política em que até cargos foram fisiologicamente oferecidos no Paço Municipal em uma futura e hipotética gestão de Maguito, também teve o dedo duro impiedoso do maguitismo-danielismo.

O PL e os dois Vilelas não agiram à sorrelfa com os seus próprios quadros somente na capital. Outros candidatos foram abandonados pelo interior afora, em troca do apoio forçado ao MDB, caso, por exemplo, de Catalão. Ainda não se conhecem os detalhes do acordo fechado com a deputada federal Magda Mofatto, mas pouca coisa não foi já que ela se sentiu tão motivada pela barganha que engoliu sem engasgar o seu já celebrado slogan “mulher de palavra”, nada mais, agora, que uma piada de mau gosto ou uma prova de falta de vergonha na cara.

Olhando por sobre os ombros, Maguito e Daniel devem enxergar, com facilidade, o cenário de devastação provocado pelo primitivismo da estratégia política que desenvolvem. Isso não serve de escopo para a verdadeira liderança nem aqui nem em parte alguma do planeta, a não ser em regimes ditatoriais. As vítimas de ontem são os fantasmas que amanhã vão incomodar e perturbar a realização dos seus projetos, votos perdidos que se foram e não voltam mais. A porretadas, não se constroem vitórias nas urnas, a não ser acidentalmente e por pouco tempo. Essa é a diferença entre Iris e Maguito. Tanto que a conta começa a ser cobrada: o candidato do MDB, de vencedor por antecipação da eleição em Goiânia, já despencou para o status de postulante secundário.