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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

07 jan

Delirando com o sonho de ser candidato a governador, Gustavo Mendanha coloca a prefeitura de Aparecida, cidade mais problemática do Estado, a serviço da sua campanha

A mosca azul picou o prefeito de Aparecida Gustavo Mendanha. Ele enfiou na cabeça a ideia fixa de que pode ser o próximo governador de Goiás, em razão dos altos índices de aprovação que obteve no seu 1º mandato e em seguida motivado ainda mais pela reeleição com mais de 90% dos votos aparecidenses. Em torno dele, os políticos da cidade, todos pendurados na folha de pagamento da prefeitura, estão unidos para incentivar o projeto – é claro, de olho nas vantagens adicionais que que cada um pode levar desde já como retribuição para o empenho em torno da construção dessa candidatura.

Como está no MDB, Gustavo Mendanha teria que proceder com alguma discrição para não melindrar o presidente estadual do partido Daniel Vilela, que disputou o governo em 2018 e considera-se como nome natural para 2022. Não à toa, Daniel recusou-se a assumir qualquer cargo na prefeitura de Goiânia, onde poderia escolher o que quisesse. Não quis, para preservar-se e continuar colocado como opção emedebista para enfrentar a reeleição do governador Ronaldo Caiado – mas, desde já, contando com a concorrência de Gustavo Mendanha, com os dois pisando em ovos para evitar desentendimentos e até um rompimento, o que seria prejudicial para ambos.

Gustavo Mendanha, depois que assumiu o 2º mandato, mostra pressa e desligou os freios. Sua agenda foi aberta a prefeitos de todas as partes do Estado, teoricamente sendo chamados a Aparecida para conhecer a gestão supostamente bem sucedida em andamento no município. Coordenadores informais como o ex-prefeito por dois mandatos de Acreúna Edmar Neto atuam nos bastidores para atrair o apoio de lideranças espalhadas pelo Estado. São eles que estão levando prefeitos recém-empossados para conversar com Gustavo Mendanha no seu gabinete no pomposo e luxuoso prédio construído pelo seu antecessor Maguito Vilela para abrigar a sede da prefeitura.

Não é apenas isso, contudo. Gustavo Mendanha está montando uma estrutura administrativa “estadual”, digamos assim. Já tinha 21 secretarias e criou mais oito, uma delas a de Segurança. Acrescentou uma nova empresa pública, a CODAP ou Companhia de Desenvolvimento de Aparecida, companhia similar à CODEGO que vai administrar o patrimônio imobiliário da prefeitura e redistribuir propriedades para empresários já instalados ou interessados em se fixar no município. Mandou projetos para a Câmara, no final do ano, solicitando autorização para contrair novos empréstimos, alimentando as suspeitas de que está com o caixa estourado e precisa desesperadamente de recursos para gastar em obras e programas de vitrine. E o pior de tudo: decidiu ultimar um projeto caviloso, autorizando a prefeitura a enviar máquinas para outros municípios a título de “colaboração”.

Se Gustavo Mendanha tiver coragem de tocar para a frente essa intenção, será uma loucura. Não há outra palavra para definir esse gesto irresponsável. Aparecida é a cidade mais problemática do Estado, onde falta tudo, desde asfalto e saneamento básico em dezenas e dezenas de bairros até vagas na Educação Infantil por conta da prefeitura para as filhas e os filhos das mães trabalhadoras que precisam cumprir expediente e hoje, em grande parte, não têm creches para deixar as suas crianças em segurança. A prefeitura aparecidense, desde os dois mandatos de Maguito e prosseguindo com o atual prefeito, está em débito com benefícios civilizatórios que são essenciais em qualquer parte do país ou do mundo, mas não estão ao alcance das suas cidadãs e dos seus cidadãos. Questões infraestruturais e sociais são dramáticas em Aparecida.

Em época de propagação desenfreada de vírus, o que contaminou Gustavo Mendanha parece ser bem pior que o da Covid-19.