Itinerância da Bienal/SP em Goiânia confirma que Daniel Vilela é um político das luzes

Um gesto quase que despercebido do vice-governador Daniel Vilela comprova, neste início de ano eleitoral, que o candidato da base aliada do governador Ronaldo Caiado ao Palácio das Esmeraldas é um político das luzes: por uma iniciativa conduzida discretamente, sem alarde, Daniel inscreveu Goiânia como a primeira parada da mostra itinerante da 36 ª Bienal de São Paulo, edição 2025, sob o título-tema Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, encerrada no final do ano passado. A exibição será inaugurada a 3 de março, no Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC Goiás), no Centro Cultural Oscar Niemeyer, seguindo até 19 de abril.
Não é pouca coisa. Nem um evento trivial. A Bienal de São Paulo é a 2ª mais importante do mundo, atrás apenas da que acontece em Veneza. Goiás será a parada inicial de um périplo por 10 grandes cidades brasileiras, depois de um acordo entre o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Totó Parente, indicado pelo MDB – daí, através do deputado federal Baleia Rossi, amigo chegado de Daniel Vilela desde quando estiveram juntos na Câmara Federal, é que acabou se produzindo o acerto que elegeu Goiânia como o destino número um da exposição peregrina de obras do último acervo da Bienal paulista. Sorte nossa.
Valerá a pena, leitoras e leitores. O tipo de arte contemporânea que se verá, à base de instalações, em sua maioria, costuma ser revolucionário e muito original. Puristas reclamarão eternamente da prevalência absoluta do que hoje se chama de viés woke como pano de fundo para todas as obras, essa espécie de realismo socialista absolutamente dominante pelo mundo afora. Sem problemas, mesmo porque arte passou a ser sinônimo de “consciência sobre injustiças sociais e raciais, vindo do termo em inglês wake (acordar), significando ‘estar desperto’ para problemas como racismo, sexismo e desigualdade, especialmente no contexto afro-americano, mas expandindo-se para políticas de identidade e justiça social”. Essa definição não é deste blog, mas fornecida pela inteligência artificial do Google. Corretíssima.
Em um ano eleitoral, alguém poderia especular: ao passar por Goiânia, a Bienal peregrina se reverterá em votos para Daniel Vilela? Nem pensar. Não está em questão. Com certeza, não foi esse o objetivo do vice ungido como sucessor por Caiado, outro político com formação intelectual sólida. Governantes do passado, em Goiás, deram importância nenhuma ao setor cultural, talvez com exceção de Marconi Perillo. Iris Rezende não tinha receio de perguntar, quase que publicamente, que retorno os investimentos nessa área proporcionariam nas urnas? E evitava gastar aí. Não à toa, um espaço da prefeitura reservado para a cultura, a Casa de Vidro Antônio Poteiro, está sendo apropriada pela família para a montagem de um memorial destinado ao culto da personalidade de Iris. Ele, o próprio Iris, ainda que ressuscitasse só para isso, jamais admitiria a ideia, a não ser em um imóvel particular e com recursos não públicos (o maior cacique emedebista de todos os tempos, regionalmente, não quis sequer requerer as verbas de anistia política a que tinha direito).
De volta ao que interessa: a itinerância da 36ª Bienal/SP pela capital goiana incluirá um recorte curatorial assinado por Thiago de Paula Souza, pesquisador e educador de grande experiência internacional, destacando o diálogo com o território goiano, incluindo artistas vinculados a Goiás, como Sallisa Rosa e o coletivo O Sertão Negro(*) – que, a propósito, apresentaram trabalhos no prédio do Ibirapuera, em São Paulo, projetado por Oscar Niemeyer e exclusivamente dedicado à Bienal. Será muito interessante e renderá frutos, ao gerar, na sequência, uma “Bienal goiana”, através de uma parceria entre o governo do Estado e o SESC, no início do 2º semestre. É semente plantada por Daniel Vilela rendendo frutos valiosos para um Estado cuja pujança econômica e política vem conquistando, passo a passo, os merecidos reflexos na frente cultural.

(*) O Sertão Negro, fundado em 2021 em Goiânia pelo artista Dalton Paula (veja acima 2 obras de Dalton) e Ceiça Ferreira, é um ateliê, localizado perto do campus Samambaia da UFG, escola de artes e quilombo urbano que articula saberes afro-brasileiros com arte contemporânea. A obra do coletivo engloba residências artísticas, bioconstrução, cerâmica, capoeira angola e cineclube, focando na ancestralidade e resistência negra.