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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

31 mar

Versão legislativa de Caiado tinha mais rigor com a palavra que a variante executiva: compromisso com o funcionalismo de pagar os salários do seu governo dentro do mês durou apenas um janeiro

O funcionalismo público estadual acorda nesta segunda-feira, 2 de março, com as contas bancárias vazias. Parte, ou pouco mais que a metade, terá o consolo de receber os atrasados de dezembro, mas o mês que acaba de vencer não será quitado, por enquanto, a ninguém. É um golpe e tanto para a imagem do governador Ronaldo Caiado, autoaplicado por ele mesmo – e o pleonasmo aqui é proposital. Em janeiro, até para compensar a pança que os servidores estavam levando quanto a dezembro, Caiado encheu o peito para apregoar, aos quatro ventos, que na sua administração a folha de pessoal seria saldada sempre até o dia 30. Repetiu isso quase que diariamente. E foi o que aconteceu em janeiro.

 

Só em janeiro, no entanto. Em fevereiro, a solidez do compromisso recebeu as primeiras trincas com o artifício da divisão do pagamento entre ativos e inativos, os primeiros de fato atendidos conforme a data jurada pelo governador, enquanto os últimos acabaram protelados para o dia 10. Agora em março, as coisas pioraram: o mês também foi esticado para o dia 10, para todos, em atividade ou aposentados. No dia 29, sexta-feira passada, dezembro foi creditado para cerca de 55% do funcionalismo. Ótimo. Foi um atenuante…  que não justifica a quebra da palavra espontaneamente empenhada por Caiado, palavra, aliás, que ele vive enaltecendo como uma das grandes qualidades suas e da sua família.

 

Infelizmente, quebrar a palavra corresponde, em termos mais duros, a mentir. E sobre uma questão crucial para os milhares de servidores estaduais, que dependem dos seus salários para sobreviver. Se alguém cometeu o erro de, já com dezembro transformado em buraco no orçamento, programar algum contrapeso com o seu sagrado dinheirinho no bolso até o fim de cada mês, fez papel de bobo.

 

É ruim e desagradável ver um político sério e responsável como o atual governador, pelo menos enquanto desenvolveu a sua versão legislativa, desconstruindo-se a si próprio ao experimentar a variação executiva. Parece até que ele, Caiado, não se importa com o que sai da sua boca – e tem vindo muita prosopopeia daí. Goiás nunca teve um governador manejando a língua tão incansavelmente, a todo momento, por toda parte, semse  lembrar que palavras e frases são filhos que colocamos no mundo e pelos quais temos que zelar, especialmente quando ocupamos funções públicas de relevância. Caiado fala demais. E como todo mundo que tem essa característica, acaba dando bom dia a cavalo.