Ideias e propostas, a carência fatal que compromete a oposição em Goiás
A pouco mais de sete meses para as eleições, o cenário em Goiás aponta para a candidatura do atual vice-governador Daniel Vilela ao Palácio das Esmeraldas e três postulantes se apresentando como alternativas: o senador Wilder Morais, pelo PL bolsonarista; o ex-governador Marconi Perillo, pelo esfrangalhado PSDB; e um portavoz de esquerda, ainda desconhecido, pelo PT e partidos satélites.

Parece que vai ser por aí. O escopo por trás de Daniel Vilela é a continuidade e manutenção das conquistas dos dois mandatos do governador Ronaldo Caiado, amplamente aprovadas pela população – conforme atestam as pesquisas que registram 88% de avaliação positiva para Caiado. Desde já, inclusive, Daniel já desenvolve esse discurso, enquanto cumpre uma agenda praticamente como o chefe de Estado que será efetivamente a partir do início de abril, quando o governador titular deverá renunciar para se desincompatibilizar para um eventual lançamento para a Presidência da República.
Há uma vantagem estratégica nítida no posicionamento de Daniel Vilela. A sua plataforma, ou seja, a justificativa para o seu projeto eleitoral, é de fácil comunicação ou compreensão e já está posta com clareza: a garantia de sequência literal para o governo Caiado, a que se acrescentará uma moldura de avanços, ampliações e aperfeiçoamentos. Eis aí o significado do nome que vai encarnar as forças da base governista em outubro vindouro.
Na oposição, não existe facilidades semelhantes. A pior situação é a de Wilder Morais, um político vazio, até hoje, depois de 10 anos no Senado, sem uma única proposta ou ideia à altura de chamar atenção e dar um sentido ainda que mínimo para a sua ambição de chegar ao governo estadual. Confiram, leitoras e leitores: nos últimos dias, depois de anunciar a sua candidatura, Wilder deu entrevistas e fez discursos, em nenhum momento citando qualquer projeto ou sugerindo alguma visão de futuro para Goiás. Nada. Zero. O senador só fala em “nós, da direita” e repete clichês bolsonaristas como um papagaio, o que só contribui para mostrar a carência fatal de um propósito coletivo para alavancar as suas aspirações pessoais.

Ana Paula Rezende, a única vice definida até agora, escolhida por Wilder Morais, deu uma entrevista de 13 mil palavras para O Popular e também evidenciou incapacidade para pensar o Estado e oferecer respostas aos desafios regionais. Ela entoou a eterna ladainha de sempre, revelando-se um pote até aqui de mágoas sob a alegação de que foi desprestigiada pelo MDB, como imaginava merecer, e ficou dando voltas em torno do “legado” do seu pai Iris Rezende, cuja preservação acredita ser a sua missão na terra e para a qual está se enredando em um processo complicado e perigoso de apropriação de um prédio público e de recursos do contribuinte para implantar um Memorial destinado ao culto da personalidade de Iris.

E Marconi Perillo? Esse permanece preso ao passado, na firme convicção de que o seu período de governo (quatro mandatos) foi uma época áurea para Goiás e que, portanto, o melhor a fazer é retornar ao fastígio desses velhos tempos. Marconi padece do mesmo saudosismo fundamental para as inúmeras derrotas de Iris Rezende (uma para senador e três para governador), quando o maior cacique emedebista gastava a munição das suas campanhas para enaltecer seus feitos de antigamente – deixando de lado a expectativa de dias mais prósperos para a frente que geralmente é o gatilho do voto em pleitos para o Executivo.
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Resta a esquerda, mais perdida do que nunca em um Estado de forte perfil conservador e totalmente desorientada sobre os seus próximos passos. Vergonhosamente, o partido-mor do dito progressismo nacional não tem nenhuma mensagem para as goianas e para os goianos, limitando-se a repisar o mantra sagrado de que reeleger Lula é o que importa, quando isso, nem de longe, representa um projeto para Goiás. O PT e seus agregados, mesmo tidos como a vanguarda da inteligência universitária, não têm ideias para Goiás (alô Edward Madureira!!!), já que não conseguem ir além da vassalagem ao comando centralizado – de corte stalinista, por que não? – basicamente focado na sua preservação no controle do poder federal, custe o que custar.
A oposição estadual, assim, é um grande vácuo conceitual. Espremendo-se gente como Wilder Morais, Marconi Perillo, Ana Paula Rezende e petistas de renome como Adriana Accorsi e Rubens Otoni, não sobra muita coisa, em termos de ideias ou propostas que deveriam ser debatidas na fase pré-eleitoral. Wilder acha que evocar o Jair encarcerado é o suficiente, sua vice Ana Paula acredita que Iris será um dos temas centrais da eleição, Marconi sonha com uma ressurreição, enquanto a esquerda sem rumo prefere enfatizar a fidelidade a um Lula envelhecido, às vezes até caquético (e afinal, qual a diferença entre lulismo e bolsonarismo?), todos distantes dos verdadeiros interesses do eleitorado que vai escrutinar suas candidaturas. Estamos próximos (200 dias, mais ou menos) da data da votação e isso não é bom.