Memorial para homenagear Iris é até aceitável, mas… jamais com dinheiro público
Ana Paula Rezende, filha de Iris Rezende, colocou na cabeça a ideia fixa de criar um Memorial para, diz ela, honrar o legado do pai. É uma ideia aceitável, já que Iris pode ser considerado como um líder político de atuação ímpar em Goiás, com mais de 50 anos de trajetória em cargos que vão de vereador, deputado estadual, prefeito de Goiânia (por cinco vezes) e alcançam o governo do Estado (2 vezes), Senado e ministro de três pastas (Agricultura, Reforma Agrária e Justiça). Não há ninguém no Estado com uma carreira parecida – com o detalhe de que não foram só vitórias, existiram derrotas também (três para o governo do Estado e uma para o Senado). Uma espécie de museu sobre essa figura hoje abrigada na história tem sentido. O problema está em como Ana Paula quer fazer isso.
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O projeto que Ana Paula imaginou para o que ela entende como defesa do legado do pai passa, em primeiro lugar, pela apropriação de um prédio levantado com recursos da prefeitura de Goiânia e da União – a Casa de Vidro, na avenida Jamel Cecílio, nas imediações do Shopping Flamboyant. Originalmente, a Casa de Vidro foi concebida para abrigar um espaço cultural, tanto que foi batizada com o nome do mestre da pintura primitivista brasileira, o “goiano” (por adoção, já que nasceu em Portugal) Antônio Poteiro: Centro Cultural Casa de Vidro Antônio Poteiro. Quem oficializou essa denominação? Iris, em mensagem enviada à Câmara Municipal em 2020, quando estava em seu quarto mandato como prefeito da capital.

Por que Ana Paula botou olho grande na Casa de Vidro para transformá-la em Memorial Iris Rezende? Quem concebeu a obra foi a sua mãe, d. Iris Araújo, quando deputada federal. Pensando em criar um espaço para exposições, cursos de artes visuais, teatro (o de lá se chamaria Teatro Bernardo Elis) e música, d. Iris articulou emendas orçamentárias para a construção – que, no entanto, não foram suficientes. O marido Iris, na prefeitura, complementou o que faltava. Demorou mais de 10 anos, mas enfim saiu e foi até inaugurada, em 2020, pelo casal Iris-Iris (leia aqui). Não sem antes uma auditoria da Controladoria Geral da União, que apontou uma série de irregularidades e prejuízo de mais de R$ 300 mil para os cofres federais. Mas é obviamente inspirada por essa origem “familiar” que Ana Paula resolveu “sequestrar” a Casa de Vidro para implantar o culto póstumo à personalidade do seu pai.
E a partir daí tudo se complica. Leis esdrúxulas foram votadas pela Câmara Municipal, autorizando a mutação da Casa de Vidro em Memorial Iris Rezende. As chaves foram entregues para Ana Paula e seguem com ela até hoje. Funcionários municipais trabalham na limpeza e manutenção. Despesas de energia e água correm por conta da prefeitura. E ela saiu passando o chapéu atrás de mais emendas orçamentárias estaduais e federais, para montar o acervo. Da própria família, aparentemente nem um centavo. Ana Paula atritou-se com o vice-governador Daniel Vilela, do qual exigiu, como presidente regional do MDB, verbas do partido para investir no Memorial. Aliás, foi esse o motivo que ela alegou para explicar a sua desfiliação e ingresso no PL, ou seja, o MDB, ao negar dinheiro (que é público, do fundo partidário) para a nova destinação da Casa de Vidro, teria desrespeitado o legado de Iris Rezende.

Essa estória, leitoras e leitores, não vai terminar bem. Não há nada de errado em exaltar políticos, ainda mais um como Iris, com qualquer tipo de homenagem, desde que as despesas passem longe do erário. Mas, ao se apoderar de um imóvel público (e pior: erigido para uma finalidade cultural) e ao estruturar uma documentália exclusivamente dedicada a Iris, um político partidário que ganhou e perdeu eleições e nunca foi unanimidade, a partir de numerário do contribuinte, Ana Paula atravessou uma linha vermelha – e se quis defender o legado do pai, o que está tentando fazer pode acabar é… o maculando. Iris concordaria? Talvez não. No mínimo, ele detectaria uma enorme imprudência. Só em emendas que ela arrancou dos deputados estaduais, R$ 3,8 milhões irão para o Memorial. E ainda tem o desvio da Casa de Vidro, que custou milhões. É simplesmente inaceitável.
Um Memorial para Iris ou para qualquer outro político deveria, obrigatoriamente, ser financiado pela bolsa privada. Há raríssimos casos como o Memorial Iris Rezende pelo Brasil afora, mas um, o de José Sarney, no Maranhão, converteu-se em um imbróglio desgastante, alvo de contestações promovidas pelo Ministério Público. Outro, em memória do general Ernesto Geisel, em Caxias do Sul, responde a uma ação do MP que propõe o seu fechamento. E são ex-presidentes, o que nem assim não legitima o uso de dinheiro público. Que se atribuam a Iris todas as glórias que Ana Paula acredita ser devidas ele, mas jamais como ela pretende – onerando os cofres públicos. E atenção: não só a Casa de Vidro precisa ser devolvida aos seus verdadeiros donos, a população, como as modificações já feitas desmanchadas ou indenizadas pela família de Iris. Um erro monumental que ainda pode ser corrigido a tempo.