Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

05 jun

Programa Juntos pelo Araguaia é bonito, mas não tem recursos e não passa de marketing para o setor rural, que só quer manter o direito de desmatar como quiser e não ser obrigado a recuperar áreas degradadas

O programa Juntos pelo Araguaia, lançado com pompa e circunstância às margens do rio, nesta quarta, pelo presidente Jair Bolsonaro, pelo governador Ronaldo Caiado e mais sete ministros e dois governadores, não dispõe de recursos para investir no objetivo de recuperar 10 mil hectares à beira do curso d’água (de resto, uma ninharia, dada a sua extensão de 2,6 mil quilômetros) e parece feito sob medida para promover uma imagem positiva para o setor rural em um momento difícil. É que, por falta de votação no Senado, acabou de vencer a Medida Provisória que suavizava a obrigação dos proprietários de restaurar áreas degradadas em suas fazendas, através de uma modificação no Código Florestal, forçando as lideranças ruralistas a pressionar Bolsonaro para enviar uma nova MP, com igual teor, restabelecendo a permissividade, mas vendendo a imagem de gente preocupada com a natureza.

 

Somente um tolo não desconfiaria de um projeto de valorização ambiental patrocinado pelos governadores de Goiás, do Mato Grosso e do Tocantins – Estados onde o agronegócio tem expressão política e sempre impôs a sua vontade, até mesmo elegendo para cargos-chave legítimos defensores dos seus interesses como Caiado. O principal ato da cerimônia de lançamento, nesta quarta, foi a assinatura de um acordo de cooperação técnica entre o governo federal e os governos estaduais envolvidos, que é o mesmo que nada ou repetição das famosas “autorizações” assinadas à mancheias pelo então governador Marconi Perillo para obras que até hoje não começaram. O Ibama foi convidado a entrar com recursos de R$ 2,6 milhões, dos quais apenas R$ 100 mil vão aparecer de imediato, para custear a elaboração de um plano de trabalho. Para o futuro, dependendo da aprovação da reforma da previdência e mais isso e aquilo, poderão ser aportados R$ 100 milhões, por conta do Ministério do Meio-Ambiente – em um ambiente em que o governo federal não tem caixa para nada e corta até o precioso dinheirinho da Educação.. Quem acredita nesse tipo de promessa, acredita também em bicho-papão e saci pererê.

 

Além das declarações de intenções, não existe coisa alguma de consistência no tal Juntos pelo Araguaia. Nem mesmo um reles mapeamento das áreas ribeirinhas a serem beneficiadas. No fundo, o que se pretende é criar uma cortina de fumaça para a driblada que os produtores rurais querem dar na lei, fugindo do dever de recompor as faixas de reserva florestal das suas glebas. Com a aprovação do Congresso e a participação de um presidente sonso, como joguete dos seus interesses, que nunca teve ao menos um sítio para descansar nos fins de semana.