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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

25 fev

Políticos disputam o comando dos diretórios estaduais dos partidos não só por visibilidade e influência, mas para ter acesso privilegiado ao dinheiro do milionário Fundo Partidário

Para qualquer político, em qualquer Estado no país, presidir um diretório estadual de partido passou a ser um privilégio e tanto. Não só pela visibilidade, cujo grau depende da importância da sigla, nem apenas pelo poder e influência que o cargo oferece, mas principalmente em razão do acesso privilegiado que os diretórios estaduais garantem às verbas do milionário Fundo Partidário. É muito dinheiro, que serve para cobrir despesas mensais como aluguel, telefone, secretária, assessoria jurídica e de comunicação, veículos, combustível, diárias e tudo o mais que pode ser lançado como gastos de interesse do partido. O melhor: em épocas de campanha eleitoral, o Fundo Partidário aporta verbas que o presidente do diretório entrega aos candidatos que mais o interessam ou ao partido.

É por isso que Vilmar Rocha não quer largar a direção do PSD em Goiás, depois de rebaixado pela filiação à distância do banqueiro Henrique Meirelles, que nem se dignou a vir a Goiás para disfarçar  a sua imposição ao projeto político do partido. Pelos mesmos motivos, o ex-governador Marconi Perillo está escalando o seu hoje fiel escudeiro José Eliton para presidir o PSDB goiano e o ex-deputado federal e desempregado Daniel Vilela não abre mão de administrar o MDB estadual. Nenhum deles jamais admitirá, mas é o dinheiro que explica tudo isso.

O Fundo Partidário mudou a realidade política do país. É mais do que mi, é bilionário, alimentado basicamente com verbas do orçamento União, ou seja, com uma parcela dos impostos extorsivos que eu, vc, nós cumprimos a triste sina de pagar nessE inferno fiscal em que o Brasil se transformou. São, em sua inteireza, verbas públicas usadas para atender a interesses geralmente particulares, financiando helicópteros, carros de luxo, hospedagens em resorts, empregos para parentes e apaniguados e uma infinidade de mordomias nas quais, como se sabe, a classe política nacional é especializada.

Atualmente, são R$ 2,5 bilhões a cada ano, repartidos conforme as bancadas de cada legenda na Câmara, no Senado e ainda com 2% reservado a todos os partidos inscritos na Justiça Eleitoral, o que beneficia a nanicada. A roda gira com os diretórios nacionais recebendo uma bolada, engolindo uma parte geralmente substanciosa, e remetendo o que sobra para as suas seções estaduais – e essa sobra ainda é uma pequena fortuna. Essas, por sua vez, também separam a fatia mais gorda para uso próprio, só encaminhando aos departamentos municipais o que discricionariamente acham que devem, ou seja, quase sempre nada. Há variações, reconheça-se, a depender do estofo ético e dos princípios de cada presidente.

Sendo ano de eleição ou não, é com esses cobres que os partidos, ou melhor, os seus dirigentes estaduais se sustentam. Diretórios como o do PT, do PSL, do MDB, do PP, do PSD ou do PSDB, que são agremiações maiores, fartam-se com um mínimo de R$ 50 a 100 mil por mês, em alguns casos mais até. Não é um numerário desprezível, dada a regularidade do recebimento a cada 30 dias. E com a vantagem da liberdade para gastar conforme o livre arbítrio do presidente estadual. Daí que o comando direto do diretório é um trunfo para qualquer político e não pode gratuitamente cair no colo de qualquer zé mané, mesmo um de nível superior.

O Fundo Partidário criou distorções imensas na política brasileira. Sim, alguém dirá, os partidos são obrigados a prestar contas detalhadas sobre os seus dispêndios, contabilidade que é fiscalizada pela Justiça Eleitoral. Mas as brechas são colossais. A auditagem dos balancetes é superficial, além de não exister um regramento objetivo e cristalino sobre o que são desembolsos propriamente “partidários”. Um político processado pode, por exemplo, ter o seu advogado pago com esses haveres. Qualquer tipo de viagem também pode ser coberta. E até salários elevados, a quem quer que seja, são permitidos, mesmo imorais. O que vale é a capa de legalidade.

Entendem agora, leitoras e leitores? Esses são os motivos pelos quais a presidência de um diretório estadual de partido, em GoIás, passou a ser uma valiosa prebenda pessoal e não mais uma missão, como chegou a ser no passado. E explica a condução próxima de José Eliton à liderança do PSDB e a manutenção de tantos outros que já usufruem dessas vantagens, inclusive partidecos espalhados por aí a torto e a direito. Na essência, é uma questão de dinheiro. E quando é o caso, quem sai à frente e atropela é que se dá bem.