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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

18 fev

No relato sobre conversa com Bolsonaro, Wilder ou mentiu ou distorceu ou forçou a barra

Não ganharam fé pública as informações divulgadas pelo senador Wilder Morais sobre o seu encontro, no último dia 14, com o ex-presidente Jair Bolsonaro, na Papudinha. As desconfianças sobre o relato de Wilder surgiram a partir do “anúncio”, em meio a frases reveladoras de hesitação, de que o Jair teria aprovado a sua candidatura ao governo de Goiás. Como a conversa não contou com testemunhas e falta alguma credibilidade a Wilder, instalou-se um terreno fértil para dúvidas.

Em uma reação imediata, o deputado federal Gustavo Gayer ponderou que o senador mentiu e que a tendência de acordo do PL com a base governista, resultando na sua própria indicação para a 2ª vaga para o Senado na chapa de Daniel Vilela, ao lado da primeira-dama Gracinha Caiado, estava mantida. Pelo sim, pelo não, Gayer preferiu esperar por uma certeza. Wilder, espertamente, pode muito bem ter se aproveitado da instabilidade emocional de Bolsonaro, a partir dos seus problemas graves de saúde. Tanto que, ao contar como foi a “reunião”, revelou que o ex-presidente passou a mal, com mais uma crise de soluções e até vômito. Além disso, nas frases “reproduzidas”, o Jair parece fazer afirmações genéricas, muito comuns quando não se quer desagradar um interlocutor que aspira por uma posição acima das suas possibilidades, tipo “vai em frente, faça o seu trabalho e no final vamos ver como tudo vai ficar”.

Nesse caso, Wilder não teria mentido, porém distorcido trechos do diálogo. A partir daí, estaria forçando a barra, na tentativa de transformar a sua candidatura em fato consumado – enquanto não sai qualquer desmentido ou confirmação sobre o que houve na Papudinha. Ou seja: um blefe, que, se for mesmo um, está destinado a ter pernas curtas. Chama a atenção o detalhe de que, da família Bolsonaro, ninguém se pronunciou sobre o assunto, a não ser, nos Estados Unidos, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, no início saudando a “definição” pró-Wilder, mas depois assumindo, em contato com Gayer, um tom mais cauteloso (já que evidentemente não falou com o pai e se baseou nas falas de Wilder).

 

 

Sintomaticamente, Wilder mergulhou em silêncio e não mais abriu a boca sobre o “aval” de Bolsonaro. O Jornal Opção fez a sua apuração e adiantou que, “a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro visitou o marido no mesmo dia e logo após ligou para integrantes do PL em Goiás para garantir que Bolsonaro não vetou a candidatura de Wilder, mas deixou claro que não concordava com ela, uma vez que o projeto do partido é a eleição de senadores. A prioridade é Gayer senador e Flávio presidente”, repetiu Michelle.

 

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Assim, um cenário bastante provável é que o Messias encarcerado tenha “enrolado” Wilder, evitando ficar frontalmente contra a sua candidatura ao Palácio das Esmeraldas e adiando uma decisão ruim para o senador – para no final das contas diluir a responsabilidade com outros atores do bolsonarismo, principalmente o presidente do PL Valdemar Costa Neto e o coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, o senador Rogério Marinho. A peça importante nesse jogo, aliás, é Flávio, que participou diretamente das negociações com o governador Ronaldo Caiado para o encaminhamento da composição que levaria ao apoio a Daniel Vilela em troca da oficialização de Gustavo Gayer na 2ª vaga senatorial ao lado de Gracinha Caiado. Flávio estaria viajando e ainda não se manifestou. Mas não vai demorar: ele tem acesso ao pai, sem necessidade de pedir autorização ao Supremo Tribunal Federal para eventuais visitas. É dele, portanto, que virá, a qualquer momento, um esclarecimento definitivo sobre o rumo do PL em Goiás. E a hora da verdade, a favor ou contra, vai soar para Wilder Morais.