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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

21 jan

Nilson Gomes acertou: a Assembleia Legislativa está atolada na lambança

 

O jornalista (e advogado, sócio da prestigiosa banca liderada por Demóstenes Torres) Nilson Gomes-Carneiro (sim, com o sobrenome agora requalificado por um charmoso hífen) vem publicando uma série de artigos e reportagens no jornal O Hoje expondo com crueza e precisão informativa o estado de calamidade que tomou conta da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás desde que o deputado Bruno Peixoto assumiu a presidência da Casa, em fevereiro de 2023.

Não é propriamente uma novidade. Só o jornal O Popular publicou nesse período mais de 100 matérias mostrando detalhes do descalabro que passou a ser a regra geral do Poder – desde o tradicional excesso de funcionários comissionados (recorde nacional, acima de 5.500); a criação de dezenas e dezenas de cargos de direção, com vencimentos superior a R$ 20 mil mensais, para abrigar ex-parlamentares e apaniguados; SUVs de luxo (42 unidades a R$ 450 mil cada, sendo duas para Bruno) para todos os deputados; viagens ao exterior, até mesmo para a Disney World, por conta dos cofres públicos; emendas orçamentárias impositivas distribuídas aleatoriamente aos municípios; penduricalhos salariais absurdos para engrossar os ganhos dos 41 privilegiados, tudo isso unindo fraternamentalmente políticos de todos os partidos abençoados com um mandato na Assembleia, da esquerda à direita.

 

 

Nilson Gomes-Carneiro revisa todas essas escandalosas revelações, mas acrescenta muito mais. Descreve minuciosamente o que chama de “farra” promovida pelo presidente Bruno Peixoto com um programa populista e demagógico batizado de “Deputados Aqui”, pelo qual eventos de rua são levados para as bases dos deputados, em aberto clima de campanha eleitoral, com shows sertanejos, comida à vontade, camisetas logotipadas, consultas médicas e cortes de cabelos, além de farta propaganda. O jornalista enxerga além da lambança em que se transformou o Legislativo estadual, totalmente desviado das suas finalidades institucionais, ao extrair uma consequência perniciosa: “Toda uma geração de políticos pode apodrecer antes de amadurecer supondo que é correto gastar recursos da Assembleia e das Câmaras de Vereadores com locações de palanques, diárias de servidores com desvio de finalidade e outros evidentes exageros”, como se dá no infeliz e lamentável “Deputados Aqui”. Isso é o futuro de Goiás?

 

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A cada reportagem, geralmente de página inteira n’O Hoje (leia a última aqui), Nilson termina apresentando questões para a análise do Ministério Público Estadual, que, por ora, se mantém em recatado silêncio sobre a esbórnia comandada por Bruno Peixoto. Por exemplo, uma pergunta: “É legal, do ponto de vista do ECA, para as crianças e adolescentes presenciarem as indecências que ocorrem com o dinheiro público durante as edições do programa “Deputados Aqui”?. Ou: “É lícito fazer pré-campanha, em ano eleitoral, com dinheiro público? Servidor da Assembleia se dignando a trabalhar em eventos de pré-campanha nos fins de semana pode receber diárias por isso?”. Qualquer cidadã ou cidadão sabe que… não é legal e não pode, apenas não se conhecendo ainda a opinião do MPE a respeito.

Há muito de podre no reino de Bruno Peixoto. Uma das motivações do presidente fisiculturista, dado a gracinhas incompatíveis com o cargo nas redes sociais, é a meta de se eleger deputado federal como mais votado da história do Estado. Outra é criar uma amarração sólida que permita a condução de um aliado para a sua cadeira na Mesa Diretora, mantendo assim incólume a cascata de regalias da qual se beneficia e da qual encaminha parte generosa para os seus próximos. Por sorte, os textos investigativos de Nilson Gomes-Carneiro estão no ar e são pedagógicos ao expor um monstruoso desperdício de pecúnia coletiva, absolutamente contrastante com os tempos de austeridade impostos pelo governador Ronaldo Caiado desde o início da sua gestão como chefe do Poder Executivo. Caiado, lá, é a responsabilidade em pessoa. Bruno, aqui, a irresponsabilidade encarnada. É muito provável que, antes, nunca tenha havido em Goiás uma pândega administrativa como a de Bruno Peixoto e seus asseclas na Assembleia Legislativa.