Wilder precisa aprender: propostas genéricas e sem fundamentação não repercutem
Quinze dias atrás, em um evento em Goiânia calculado para receber 4 mil pessoas, mas no fim restrito a menos de mil, o senador Wilder Morais finalmente apresentou, segundo ele, o que seriam as suas propostas para o governo de Goiás. Na presença de Flávio Bolsonaro, candidato do PL a presidente, Wilder torturou a língua portuguesa com erros crassos de concordância e pronúncia, confirmando, mais uma vez, que oratória, ainda que minimamente compreensível, não é mesmo a sua praia. De qualquer forma, meio que atabalhoadamente, o senador anunciou o que seriam as suas “ideias” para o futuro do Estado. E não foi positivo.

Falando do alto de um palanque esvaziado, que deve ter preocupado Flávio Bolsonaro pela falta de aliados ou de lideranças para tocar a campanha bolsonarista em Goiás, Wilder fixou como bandeira principal da sua campanha copiar soluções para a Saúde adotadas em São Paulo. Sim, leitoras e leitores, ele usou de viva voz o verbo “copiar”, uma estratégia de marketing que geralmente é vista com maus olhos porque percebe-se com facilidade que se tratam de dimensões exponencialmente diferentes: São Paulo tem quase 50 milhões de habitantes (e em matéria de economia é o maior Estado do país, representando 30% do PIB brasileiro), enquanto Goiás, perto de tamanha grandeza, não passa de 7,5 milhões de goianas e goianos, com a sua economia em 8º lugar e mal chegando a 3% do PIB. O que funciona lá, portanto, dificilmente funcionaria em uma realidade absolutamente dessemelhante, como a daqui.
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Simulando um arroubo retórico, Wilder garantiu que a Saúde em Goiás “encontra-se na UTI”. Óbvio, não citou dados, a não ser uma fila de 16 mil pacientes no aguardo de cirurgias diversas. Mas isso não é suficiente, nem de longe, para caracterizar uma situação de gravidade. É um passivo que poderia ser resolvido em menos de um ano, caso possível fosse zerá-lo. Só que não é. Operam-se 10, 10 ou 30 hoje e amanhã aparecem outros 10, 20 ou 30. É da condição humana. O que é viável é continuar na linha desenvolvida pelo então governador Ronaldo Caiado, que encontrou mais de 50 mil cirurgias em atraso e rebaixou para um patamar que varia mensalmente entre 14 e 16 mil. Em São Paulo, o Estado que Wilder Morais pretender “copiar”, essa demanda reprimida é estratosférica, ou seja, de 320 mil pacientes ou perto de 20 vezes mais do que Goiás. Conclusão: não é absolutamente recomendável “copiar” um sistema que acumula um déficit de cirurgias sem controle, como esse.
Em uma coincidência infeliz para o candidato do PL ao Palácio das Esmeraldas, no início desta semana o governador Daniel Vilela anunciou a implantação de um Hospital de Urgências em prazo recorde, através da compra do prédio pronto da Oncoclínicas, no Conjunto Fabiana, próximo ao Parque Laranjeiras (região Leste de Goiânia). Toda a estrutura do atual Hugo será transferida para lá (são 60 mil metros quadrados), modernizada e duplicada, em algumas áreas triplicada na sua capacidade de atendimento. Com tudo isso, parece difícil afirmar que a Saúde em Goiás “encontra-se na UTI). E de fato, em comparação com outras Unidades Federativas, é avaliada como altamente funcional e operacional, o que é simbolizado por uma das maiores realizações de Caiado – o hospital infantil CORA, já programado por Daniel Vilela para ser ampliado para o público adulto.
O que mais Wilder Morais prometeu? Asfaltar todas as ruas urbanas ainda não pavimentadas de todos os municípios. Não, ele não tem a menor noção do tamanho dessa “obra”, mas jurou que a sua “equipe” está estudando o assunto. Mais promessas? Generalidades convencionais como reduzir a burocracia do governo do Estado, ampliar os investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia, itens mencionados rapidamente e sem particularização, menos ainda em termos de dados, números ou valores. A mesma receita tradicionalmente formulada em qualquer parte do país por todos os candidatos a governador de todos os partidos. Muito pouco ou nada mais que um imenso vazio conceitual, na verdade. Wilder pode ter dado um tiro no pé, ao dar aos críticos a certeza de que é um candidato sem conteúdo e sem uma visão de conjunto de Goiás.
Não à toa, menos de 10 dias depois do “discurso” de Wilder Morais, saiu uma nova rodada da Paraná Pesquisas e… nada mudou. Ele continua atolado entre 10 e 11%, em 3º lugar, 15 pontos atrás do 2º lugar, Marconi Perillo (25,4%), e mais de 30 pontos na retaguarda de Daniel Vilela (44,4%), hoje o líder isolado, com chances de vencer no 1º turno. Isso prova que o evento no qual o senador apostou tudo, trazendo inclusive Flávio Bolsonaro, não deu em nada. Não gerou repercussão. E, pior, talvez sugerindo que o bolsonarismo perdeu espaço em Goiás: todos os levantamentos de intenção de votos, desde o final do ano passado, mostram Wilder estagnado, sem conseguir ultrapassar os 11º. E sem sinais de que alguma mudança pode acontecer.