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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

09 maio

Caiado alega que fez o “dever de casa”, cortando cargos, reduzindo despesas, diminuindo incentivos fiscais e por isso merece ser socorrido pelo governo federal. Mas… não é bem assim

O governador Ronaldo Caiado fala demais. Deve ser um costume que adquiriu nos bons tempos de parlamentar no Congresso Nacional, quando era estrelinha requisitada pela mídia nacional para palpitar sobre os assuntos do dia. Agora, pela primeira vez no Executivo, as coisas são diferentes. Falar, falar, não resolve nada. Vamos a um exemplo prático: ele alega quase que diariamente que fez o “dever de casa” – cortando cargos, reduzindo despesas, diminuindo incentivos fiscais – e que por isso, mais do que qualquer outro Estado, Goiás merece ser socorrido financeiramente pelo governo federal.

 

Não é bem assim. Caiado sabe que, no Parlamento, ninguém sai atrás de comprovação para o que é dito ao léu dos discursos na tribuna, nos apartes em plenário e nas entrevistas à imprensa. No Executivo, é diferente. Não há como dispensar a corroboração, digamos assim, independente, e não baseada no que o governante diz. Ninguém acredita, sem algum tipo de avaliação, no que os donos do poder repetem por aí. E também, sendo veraz uma afirmação, é preciso conferir se os seus efeitos são reais. Assim, das três alegações do governador, ou seja, 1) corte de cargos comissionados, 2) redução de despesas com contratos e 3) diminuição dos incentivos fiscais, não basta apenas a “palavra do governador”, mesmo este sendo Caiado. São necessárias planilhas, documentos, recibo e nota fiscal, como se diz, para que se aceite o que está sendo apresentado como uma verdade irrefutável.

 

Vamos lá. 1)  Os tais cortes nos cargos comissionados, já está demonstrado, representam uma gota d’água no oceano. Até o fim do governo Caiado, vão chegar a pouco mais de R$ 400 milhões, um grão de poeira quanto aos bilhões que serão gastos nesse período. 2) O encolhimento dos gastos com contratos são meramente declaratórios, configurando uma espécie de intenção quanto ao futuro. E 3) a diminuição dos incentivos fiscais, item que não passa de uma grande piada. Falou-se que R$ 1 bilhão por ano seriam acrescentados à arrecadação do Estado, número que não foi nem será atestado seriamente pela Secretaria da Economia (antiga Sefaz), tanto que até agora não foi divulgado nenhum cálculo a respeito. E, relembrando, sugerido por um projeto de lei redigido pelos próprios empresários e entregue à Assembleia, no final do ano passado, para aprovação, o que foi feito rapidamente – correspondendo ao mesmo que delegar à raposa os cuidados com o galinheiro. Caiado, apesar dos alertas da sua secretária da Economia, Cristiane Schmidt, finge que vai tudo bem quanto a arrecadação do ICMS. Não vai.

 

O “dever de casa”, assim, não depende só da palavra do governador. Desde que foi eleito, ele teve chances e mais chances de ir mais fundo e não quis. Um exemplo são os órgãos supérfluos e sem finalidade que foram mantidos, exclusivamente para abrigar apaniguados políticos em cargos com altos salários sem serventia alguma. São muitos: Goiasgás, veículos de comunicação, Celg Telecom, Goiasparcerias e outros. Até agora, nenhuma privatização, nenhuma concessão nenhuma liquidação. Tudo como dantes, menos o número de secretarias, que ele recebeu em 10 e imediatamente aumentou para 17. Isso é o contrário de fazer o “dever de casa”. Para o governo federal, leitora e leitora, enfiar mais dinheiro nessa estrutura onde abunda o desperdício é o mesmo que jogar pelo ralo.