Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

16 maio

Principal aposta de Caiado para resolver a crise fiscal do Estado era usar o seu prestígio nacional para levantar recursos e por isso ele não fez os ajustes que deveria ter feito. O resultado é trágico

Decisões erradas. Confiança exagerada em um suposto prestígio nacional, que levaria Goiás a ser tratado com deferência pelo governo federal. Falta de projeto para reduzir o atual Estado a um tamanho menor que o atual, mas sustentável financeiramente, através de um ataque decisivo aos ralos por onde se esvai o dinheiro dos goianos. E, em resumo, deixar de fazer o verdadeiro “dever de casa”, como comprova o fiasco das duas reformas administrativas enviadas para a Assembleia trazendo uma redução de despesas comparável a uma gota d”água no oceano.

 

Esses, por baixo, são os maiores escorregões do governador Ronaldo Caiado até agora – oito meses depois da data em que foi eleito e cinco meses após a posse. É tempo demais, em um mundo acelerado como o que vivemos. Caiado não saiu do lugar. Na prática, adiou todas as medidas decisivas que poderia ter tomado para promover um ajuste radical no governo do Estado, perdendo-se em um debate estéril sobre a folha do funcionalismo (a partir da desastrosa decisão de pular o mês de dezembro) e semiparalisado pela espera ingênua de um socorro financeiro do governo federal, que não veio e provavelmente nunca virá. A última ilusão é uma tentativa de lançar mão dos recursos do Fundo Constitucional do Centro-Oeste, o FCO, definido pela Constituição Federal como exclusivamente destinado a financiar as empresas privadas nos Estados. É verdade, leitora e leitor: Caiado quer mudar a Constituição Federal para abocanhar o precioso (para os empresários) dinheiro do FCO.

 

Os sinais são claros: Caiado passou anos e anos no Congresso, onde, reconheça-se, foi um dos parlamentares que mais se destacou. Vez ou outra, chegou a ser cogitado para disputar a presidência da República pelo DEM. Essa notoriedade fez com ele aguardasse uma espécie de pronto reconhecimento do presidente Jair Bolsonaro (que, diga-se de passagem, só apoiou no segundo turno, quando a fatura já estava definida a favor do capitão) e do seu ministro da Economia Paulo Guedes. Em sucessivas entrevistas e discursos, o governador goiano garantiu que já havia recebido sinalização positiva dos dois e que o seu pedido de ajuda financeira seria atendido. O tempo foi passando e nada aconteceu.

 

Mais uma vez, agora, Caiado anuncia que esteve com Bolsonaro e que obteve o compromisso de que uma medida será enviada ao Congresso, para liberar o acesso do governo de Goiás ao FCO. Se é que ele ouviu isso mesmo, deveria se lembrar que entre intenção e gesto, em Brasília, a distância é muito colossal. Não faz sentido o Palácio do Planalto colocar novas matérias à apreciação da Câmara e do Senado enquanto se trava uma batalha parlamentar em torno da reforma da previdência. Ainda mais uma matéria polêmica como mexer na Constituição para alterar os fundamentos do FCO.

 

Diz-se que, desde a posse, o governador já foi 67 vezes a Brasília, voltando sempre com as mãos vazias. Candidamente, ele segue na expectativa de um milagre de fora para resolver a crise fiscal do Estado – crença que o tem feito adiar um já inadiável ajuste doméstico, isto é, produzido aqui mesmo, dentro da esfera de competência do próprio Palácio das Esmeraldas. Isso pode, sim, ser feito, como demonstrou o Sindifisco no início do ano – quando apresentou um pacote de sugestões que Caiado ignorou.