Os 3 erros graves de Ana Paula Rezende (o 3º é o pior)
A filha de Iris Rezende, Ana Paula, tomou a polêmica decisão de deixar o MDB e se filiar ao PL. É direito livre e democrático dela. Mas é também direito de qualquer um avaliar e criticar esse movimento, que parece um monumental equívoco da parte de quem seria a herdeira do patrimônio político do pai. Foi uma atitude “impensada”, como classificou o vice-governador e candidato da base aliada Daniel Vilela, também presidente estadual do MDB.

Ana Paula, apesar do fundo familiar, nunca teve militância política. A prova maior é que ela embarcou sozinha na canoa do PL, em uma cerimônia esvaziada onde estavam oito prefeitos, dois deputados estaduais e um federal – ninguém mais. Claro, o senador Wilder Morais, que comanda o diretório estadual do partido, estava lá. A solenidade, no final das contas, acabou mostrando isolamento e esvaziamento, pouca gente, enfim, para aplaudir o gesto solitário e incompreensível da moça.
Há três aspectos – três erros, graves, melhor dizendo – a destacar no surpreendente comportamento da filha de Iris. E vamos direto à apresentação e análise de cada um:
1) Primeiro e mais grave de tudo é Ana Paula abandonar o MDB, legenda que, em Goiás, é totalmente identificada com o seu pai. Desde a extinção das antigas siglas e a criação das novas, depois do golpe militar de 1964, Iris Rezende nunca sequer cogitou, ainda que longinquamente, de atuar em qualquer outra agremiação que não o MDB, depois PMDB e finalmente MDB de novo. O legado de Iris, que Ana Paula tanto apregoa lutar para preservar, confunde-se com a trajetória do MDB. Ela simplesmente jogou um valor de tamanha monta como esse no lixo. Assumindo a titularidade do Palácio das Esmeraldas, daqui a menos de 40 dias, Daniel Vilela obrigatoriamente se licenciaria da presidência do diretório emedebista, passando o cargo… para quem? Para a 1ª vice-presidente Ana Paula Rezende, que assim se sentaria na cadeira que já foi ocupada pela sua mãe dona Iris (e também por Iris). Precisa dizer mais alguma coisa?

2) Em segundo lugar, e começando a complicar a situação de Ana Paula, ela saiu de um partido de centro-direita e ingressou em outro de ultradireita, uma corrente ideológica da qual Iris Rezende nunca se aproximou. Iris, aliás, estava vivo, como prefeito de Goiânia, quando Jair Bolsonaro chegou à presidência da República, porém não tentou qualquer aproximação com o Messias hoje encarcerado, nem mesmo uma declaração amigável ou de deferência especial. Estiveram juntos durante uma visita do então chefe da nação. Iris, óbvio, mostrou cortesia protocolar, que pode ser notada nas fotos tiradas na ocasião(veja acima). O que o prefeito fez? Falou ao presidente sobre investimentos na capital goiana, em tom formal, na presença do governador Ronaldo Caiado e em um determinado momento sendo ouvido por jornalistas. Não passou disso. Pois bem: Ana Paula mudou-se para lá, o ninho bolsonarista, um, a propósito, ao qual falta inteligência e ideias (liderado em Goiás por um milionário oportunista, Wilder Morais, suposto “político”, homem de pensamento raso, que absolutamente carente de uma proposta ou uma visão de futuro para Goiás e, como senador há mais de 10 anos, sem uma ação na mais alta Câmara Legislativa do país capaz de chamar atenção pela qualidade ou conteúdo).
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3) O pior de tudo vem agora: a motivação de Ana Paula. Segundo ela mesmo, o MDB e Daniel Vilela teria desconsiderado o legado de Iris Rezende ao se recusar a contribuir com recursos do partido para o memorial que ela está implantando na Casa de Vidro, na avenida Jamel Cecílio, próximo ao Shopping Flamboyant. Aqui o jogo se embaralha para valer. Ana Paula apropriou-se de um prédio público, construído em parte com dinheiro federal, destinado originalmente à promoção cultural em Goiânia (batizado originalmente de Centro Cultural Casa de Vidro Antônio Poteiro). Sim, leitoras e leitores: as chaves estão na bolsa de Ana Paula, que pretende, com despesas e funcionários pagos pela prefeitura e verbas federais, estaduais e municipais, montar uma espécie de culto da personalidade de Iris – algo que não tem o menor sentido porque Iris sempre foi um líder partidário, não um defensor dos povos, inclusive derrotado em três eleições majoritárias (duas para o governo e uma para o Senado), sem uma realização ou obra divisora de águas na história de Goiás (ao contrário de Pedro Ludovico, construtor de Goiânia, que teve sua casa com justiça e razão transformada em museu custeado pelo Estado, mesmo assim dezenas de anos depois da sua morte, quando o veredito dos tempos já havia sido dado a seu favor).
Tudo isso apequena Ana Paula como sucessora de Iris Rezende. Iris não se desfiliaria do MDB, não se tornaria um apoiador da extrema direita e não aceitaria homenagens financiadas pelo contribuinte. Pouca gente sabe, mas ele, tendo direito a uma gorda compensação e salário pelo resto da vida, devido à cassação do seu primeiro mandato de prefeito e proscrição da política por 10 anos, recusou-se a requerer o benefício que veio junto com a anistia. Não queria ser visto como alguém que se aproveitou de brechas legais para auferir vantagens pessoais. Disse isso ao autor deste blog, em 2002, quando corria o prazo para a sua inclusão na lista de vítimas da ditadura a serem indenizados. Pelas mãos da própria filha, ironicamente, já colocado na posteridade, Iris está sendo arrastado para um lodaçal em que jamais imaginou se atolar.