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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

22 jul

Por que nenhum milionário chegou ao governo de Goiás após a redemocratização

A história tem lições interessantes a ensinar. Em Goiás, desde 1982, ano da redemocratização e da volta das eleições diretas para governador, nenhum milionário – e vários tentaram – conseguiu se eleger para o Palácio das Esmeraldas. Fazendeiros, sim. Foram muitos, a começar por Iris Rezende, já produtor rural ao conquistar seu 1º mandato naquela época. Depois, vieram Henrique Santillo, Iris novamente, Maguito Vilela, Marconi Perillo, Alcides Rodrigues, retorno de Marconi, e em seguida Ronaldo Caiado. Milionários propriamente ditos, em termos de fortuna, estilo suntuoso de vida, ostentação, repetindo, nenhum deles. Todos praticamente gente como a gente.

 

 

Wilder Morais tenta quebrar esse tabu. Vai ser difícil, pela falta de noção. Na semana passada, ele circulava de mocassins italianos e bermuda branca em Aruanã, acompanhando de Ana Paula, a filha de Iris, escolhida vice na sua chapa, ela vestida modestamente (aprendeu). Os dois, somados, são bilionários. Ana Paula, além do marido Frederico Peixoto, talvez o maior investidor imobiliário de Goiás, é gestora da imensa fortuna deixada pelo pai. Registre-se: Iris sempre viveu frugalmente. Comia habitualmente arroz, feijão, carne moída e abobrinha, como o autor deste blog testemunhou inúmeras vezes. Comprava camisas no Moreirinha. Mas só a fazenda que legou no Mato Grosso, em Canarana, com usina autônoma de geração de energia e aeroporto asfaltado, tem avaliação estimada em mais de R$ 1 bilhão de reais. Ana Paula, portanto, é riquíssima. Ela e Wilder somam uma montanha em patrimônio e dinheiro.

Mas o eleitorado goiano não vota nesse tipo de perfil. Prefere políticos tradicionais ou até mesmo profissionais. Iris, Santillo, Maguito, Marconi e Caiado. E agora, pelo que indicam as pesquisas, o escolhido da vez é Daniel Vilela, filho de Maguito, um rapaz com jeito comum, de longa trajetória política e experiência idem apesar da pouca idade. Por ora, conforme todos os institutos de credibilidade, é ele quem vencerá nas urnas de outubro próximo, representando uma renovação geracional poucas vezes vista antes em qualquer momento em Goiás. Não à toa, Marconi Perillo é o 2º colocado, 20 pontos atrás de Daniel, mas bem à frente de Wilder, que sintomaticamente não decola. De alguma forma, peripécias polêmicas à parte, Marconi não tem ares de grã-fino e talvez seja isso que explique a sua superioridade face a Wilder Morais.

 

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Nas redes sociais, em vídeos que carecem da mínima credibilidade, Wilder tenta se apresentar como alguém de origem humilde que “aprendeu” a cuidar das pessoas pobres. O problema é que não há provas nem antecedentes. A impressão que se tem é de pura e barata demagogia, Ana Paula incluída no pacote. Wilder é senador há mais de 10 anos e não há notícia de um projeto, uma iniciativa, um discurso ou sequer uma declaração a favor dos mais necessitados. Preocupação com programas sociais, que foram e são o forte das políticas públicas de maioria dos governadores de Goiás nos últimos 40 anos, com exceção de Iris Rezende e Alcides Rodrigues, zero, não existe. Isso no Estado que, proporcionalmente, dispõe do maior orçamento para a solidariedade em termos de Brasil, após os dois mandatos de Caiado.

Pelo sim, pelo não, o fato é que milionários – pior ainda, bilionários – jamais conquistaram o trono número um da Praça Cívica. Trata-se de uma escrita que tem fundamentação sociológica e vai fundo na consciência da população quando comparece à votação e talvez tenha a ver com a desconfiança de que os abastados, para valer mesmo, só se preocupam com os seus lucros e vantagens, e não se consideram “iguais”, mas muito acima de quem trabalha duro para sobreviver cotidianamente – daí a exibição de casas paradisíacas em Angra dos Reis, helicópteros e jatinhos particulares, tudo encapado com roupas caras. Falta identidade de classe com o grosso dos contingentes demográficos e não são postagens populistas no Instagram ou no Tik Tok que vão reverter essa imagem negativa da noite para o dia. O povo sabe farejar a verdade.