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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

27 jul

Homenagear Iris com prédio e dinheiro públicos é imoral e ilegal

 

Ana Paula Rezende, a filha de Iris Rezende, candidata a vice-governador na chapa de Wilder Morais (PL), continua com as chaves da Casa de Vidro, na avenida Jamel Cecílio, um prédio público construído com finalidades culturais com recursos da União e da prefeitura de Goiânia, mas sequestrado por ela para a implantação de um memorial em homenagem ao seu pai. É obviamente algo imoral e ilegal. É possível que o próprio Iris, se possível fosse consultá-lo no além-túmulo, opinasse contra. Sabe-se, por exemplo, que ele não quis requerer indenização ou aposentadoria por ter sido cassado pelo regime militar. Achava que não seria uma atitude correta e disse isso ao autor deste blog.

Com a herança bilionária de Iris, Ana Paula e os 2 irmãos tornaram-se igualmente bilionários. Seu marido, dono da franquia imobiliária dos Jardins, é também privilegiado financeiramente. Por que diabos gente com tanto dinheiro prefere se expor a questionamentos desgastantes para reverenciar um familiar, quando poderia fazer isso, sem a menor dificuldade, com uma fração do próprio patrimônio pessoal? Difícil entender. A sociedade não deveria ser obrigada a pagar por esse tipo de iniciativa familiar. Ao contrário do que Ana Paula repete dia e noite, Iris nunca foi consenso em Goiás. Só ganhou uma eleição por ampla maioria de votos, a de governador em 1982. Mesmo assim, um quarto das goianas e dos goianos não sufragaram o nome dele. Depois, em 1990, venceu de novo, com pouco mais de 50% dos votos. Seguiram-se 4 derrotas consecutivas: em 1998, em 2002 para o Senado, em 2010 e em 2014. Isso mostra que ele nunca foi nenhuma unanimidade, tanto que, a partir daí, tornou-se um político restrito aos limites de Goiânia, cuja prefeitura arrebatou seguidamente.

 

 

Iris Rezende, portanto, não é um benfeitor de Goiás, pelo menos não mais que os demais governadores que alternaram com ele. Sua biografia foi manchada por casos de corrupção. Tomou decisões que, hoje, são consideradas prejudiciais para o Estado, como abrir mão da usina de Corumbá em troca da 4ª etapa de Cachoeira Dourada. Nunca implantou programas sociais, por achar que ajudar as pessoas estimulava a preguiça e tirava trabalhadores do mercado. Construiu, em segredo, uma fortuna jamais explicada de modo convincente. Está distante, por exemplo, da figura legendária de um Pedro Ludovico, que mudou a capital para Goiânia e hoje protagonista de um museu instalado na sua antiga casa, na rua 10, comprada pelo governo do Estado e mantido com recursos públicos. Justamente, diga-se.

Espertamente, Ana Paula criou um instituto para administrar a Casa de Vidro e inclusive receber emendas orçamentárias. Por que ela não optou por uma fundação, muito mais adequada e consentânea com a proposta de um centro de estudos, além do memorial, que ela acrescentou ao seu projeto? Ana Paula não é besta, leitores e leitores. Uma fundação é forçosamente fiscalizada pelo Ministério Público. Um instituto, não. Pode fazer o que quiser, sem objeções. A propósito, ela alega que saiu do MDB e adotou o bolsonarismo do PL porque não teve apoio do antigo partido do seu pai para cultivar loas ao nome dele. É verdade. Ela queria dinheiro público, da legenda, para gastar na nova finalidade que ela impôs para a Casa de Vidro. O MDB se recusou. Ela saiu atirando e hoje publica vídeos diariamente no Instagram e no Tik Tok vendendo uma mentira sem tamanho: a de que a sigla histórica de Iris negou a importância do seu maior líder em todos os tempos. Isso nunca aconteceu. O MDB não quis é se associar a uma improbidade flagrante.

Mais cedo ou mais tarde, o Ministério Público Federal e o Estadual acabarão entrando nessa perlenga. É a essas 2 instituições que compete zelar pela aplicação das verbas do contribuinte – e é impossível comprovar que um memorial para Iris Rezende, em um prédio público e com pecúnia pública, tem qualquer justificativa do ponto de vista da legislação em vigor ou se sustente em razões sociais, políticas ou morais. Ana Paula, antes que seja tarde e antes que se envolva em um escândalo talvez até de proporções nacionais, chamando atenção exclusivamente negativa sobre a trajetória do seu pai, precisa desistir e devolver as chaves. Ela está cometendo um crime. Ainda há tempo para recuar e escapar de um constrangimento que compromete a posteridade de Iris. Ele não iria querer.