Discursos de Wilder e Ana Paula na convenção do PL revelam projeto apequenado de poder
Wilder Morais e Ana Paula Rezende, candidatos a governador e vice pelo PL, mostraram na convenção do PL para a oficialização dos seus nomes, nesta segunda, 3 de agosto, uma gritante carência de qualificação para quem se propõe a comandar um Estado com a grandeza de Goiás, hoje na 9ª posição do ranking nacional do Produto Interno Bruto. Ambos fizeram discursos mal entoados no português, nas palavras escolhidas e na inexistência de conceitos e conteúdo, desperdiçando a ocasião mais tradicional para que candidatos se definam e mandem uma mensagem de impacto para o eleitorado.
Discursos, sabem as leitoras e os leitores, são peças de museu. A plateia que escuta, ainda mais em um ambiente controlado e fanatizado como o de uma convenção partidária, simplesmente não ouve. Parece uma contradição: escutar, mas não ouvir. Ou o contrário. No entanto, trata-se de uma oportunidade acertada para fixar posições, apresentar propostas e, no caso de quem pretende governar, enunciar uma visão de futuro, via amplificação pela mídia. Wilder e Ana Paula jogaram fora uma ótima chance para tudo isso.
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Com uma voz de “velho e bêbado”, conforme a afiada percepção do Jornal Opção, Wilder Morais desfiou o seu repertório já conhecido. Nasceu em um casebre na zona rural de Taquaral e de lá saiu para uma carreira vitoriosa como empresário, daí transformado em milionário com gosto extremo pela exibição da sua vida de rico no Instagram e no Facebook. Exatamente o que faz, que empresas tem e como ganha dinheiro, em detalhes, ninguém sabe. Seria construtor de obras, apregoando não manter contratos com o setor público. Isso, na campanha que vem aí, será devidamente esclarecido. De resto, segundo Wilder, a sua origem humilde serviu para despertar a sua preocupação com os desfavorecidos. Bom, se ele tivesse exemplos para dar. Não tem. Nem como um filantropo privado nem como senador há mais de 10 anos, em mandatos assemelhados a páginas em branco.
E ideias, no discurso de Wilder Morais? “Unir a direita” seria uma delas? Não isso não é ideia, é algo próximo de burrice, com o próprio candidato se autoconfinando a um segmento ideológico, em Goiás, desde priscar eras representado majoritariamente pelo ex-governador Ronaldo Caiado. Não por acaso, a última pesquisa Genial/Quaest apurou: a reeleição do governador Daniel Vilela é amplamente comprada pelo bolsonarismo radical, muito além da preferência por Wilder. Outra “ideia” revelada no discurso de Wilder é que a sua candidatura prioriza a finalidade de fazer campanha para Flávio Bolsonaro em Goiás. Repetiu, aqui, o erro infantil de Luis Cesar Bueno, candidato do PT, que também foca na campanha de Lula acima de qualquer interesse próprio das goianas e dos goianos. Sim, é verdade que esses 2 candidatos deveriam, obrigatoriamente, atender aos propósitos nacionais das suas ideologias e dos seus partidos. Tudo bem. Mas precisa explicitar de uma maneira tão acachapante assim, mergulhando de cabeça na própria bolha? Wilder foi ousado. Ou ingênuo, estrategicamente falando. Disse textualmente que “em primeiro lugar eu vou defender você, Flávio, depois vou defender o nosso Estado de Goiás” (leiam aqui). É burrice ou não?

Que candidato é esse? E a vice, Ana Paula, foi melhor? Pelo menos ela não se fez de cuidadora dos pobres, um grave defeito histórico do irismo. Mesmo assim, Ana Paula não conseguiu escapar do cansativo papel de defensora intransigente do legado do pai, que ela inventou ser ameaçado por Caiado e por Daniel Vilela. Só que estamos em um processo de eleição para decidir sobre os dias que virão para Goiás e não para salvaguardar ou não a memória de Iris Rezende. Não está aí o foco da campanha pelo Palácio das Esmeraldas. Não passa nem perto e é uma chatice. Ocorre que, se o discurso de Wilder Morais teve o mérito solitário de ser respeitoso com os adversários, o de Ana Paula foi um horror em matéria de mágoas pessoais e ressentimentos. Os ataques sem sentido (“Um governo que persegue, que intimida, que mente”, isso convence?) deixaram claro uma a ausência de preparo até para ser vereadora de corrutela. E que permanece a dificuldade para explicar as razões de abandonar o MDB, partido raiz de Iris, e optar por um outro, o PL, que carrega o extremismo com que Iris, um centrista convicto, nunca compartilhou. E menos ainda a justificativa para figurar como vice na chapa de Wilder Morais. Seria por que Wilder prometeu retomar os mutirões, como ela mesma afirmou? O que a convenção estadual do PL para oficializar Wilder e Ana Paula confirmou foi um projeto de poder apequenado, sem consonância com o tamanho e a importância do Estado que eles pretendem liderar. Falta estatura.