Confronto na Band TV sugere que debates perderam a atratividade e não vão influenciar a eleição
Aconteceu na noite deste domingo, 9 de agosto, o debate entre os candidatos a governador de Goiás promovido pela Rede Bandeirantes (longe de ser uma Globo). Assistir foi um osso duro de roer. Para começar, o governador Daniel Vilela (MDB), replicando a estratégia observada nos demais Estados, onde quem está em 1º lugar na pesquisa acabou invariavelmente cancelando a presença para evitar se converter em saco de pancadas para os adversários, também não apareceu e daí contribuiu para esvaziar o interesse pelo confronto. Restaram no palco o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), o senador Wilder Morais (PL) e o ex-deputado estadual Luis Cesar Bueno (PT). E nenhum foi bem.

Ainda assim, muito pode ser extraído do evento. Exemplo: Wilder Morais é um caso grave de mau uso da linguagem, tanto verbal quanto corporal. Comete lapsos de concordância, fala através de frases confusas, mal emendadas umas nas outras e parece prisioneiro da expressão “até porque”, obscura mistura extravagante de advérbio com conjunção, vício recorrente na oralidade dos políticos. Não constitui um erro gramatical, mas, repetida à exaustão, como fez Wilder, incomoda. O senador não encara a câmera: olha para baixo ou para o seu lado esquerdo na maior parte do tempo, algo interpretado por psicólogos como uma manifestação inconsciente de dúvida, insegurança e dificuldade para articular o pensamento. Deve ser por essa razão que incessantemente atropelava as palavras.
O candidato do PL tentou se justificar. Seria o seu 1º debate, nervoso, portanto, nessa estreia. Depois, entoou a velha ladainha demagógica da origem humilde, filho de mãe costureira e pai taxista em Taquaral. “Não vou conseguir falar bonito como os colegas aqui”, adicionou. Infelizmente, para Wilder, o efeito desse tipo de argumento é negativo. Revela somente falta de preparo e de altura para as elevadas exigências do cargo de governador. A autocomplacência, definitivamente, não é um recurso funcional em debates entre candidatos a mandatos de importância, desde sempre.

Outra surpresa negativa: Luis Cesar. Nos seus tempos de plenário na Assembleia, costumava se sair como um dos mais eloquentes parlamentares que por lá passaram. O debate da Band provou que perdeu o jeito. Talvez por se submeter à obrigação soviética de priorizar a campanha de Lula, enfiando a defesa da reeleição do presidente em tudo o que disse – uma chatice deveras cansativa. Era Lula, Lula e mais Lula. Na visão de Luis Cesar, Lula construiu a infraestrutura de Goiás, espalhou escolas e entregou centenas de obras pelo Estado afora. Essa necessidade de colocar uma candidatura a um governo estadual em benefício da recondução do guia supremo da esquerda brasileira castrou intelectualmente Luis Cesar e o levou a um fiasco de imagem. Mostrou-se, em resumo, sem identidade, apequenado ao exclusivamente cobrar votos como pagamento pelos supostos benefícios de Lula a Goiás.

Já Marconi Perillo desfiou uma retórica organizada e clara, como seria de se esperar de um candidato com dezenas de debates no currículo. Terminou derrotado, contudo, pelo conteúdo. Quer dizer: como é de hábito, focou nas realizações dos seus governos de antigamente, fixação que não se comunica com a maioria do eleitorado que vota de olho no futuro. Encavalou números em um tedioso relatório de obras datadas repisado a cada intervenção. Em um equívoco crucial, não enxergou a oportunidade para apresentar a sua versão sobre os escândalos de corrupção abundantes nos seus mandatos – aqueles que o premiaram com os quase 50% de rejeição hoje apontados pelas pesquisas. Ninguém fez a Marconi perguntas sobre esse tema. Ninguém citou um caso qualquer. Porém, esse silêncio cúmplice de Wilder e Luis Cesar (e dos jornalistas participantes) poderia ter servido de chance para uma abordagem espontânea em tom de autocrítica, talvez, que o ex-governador preferiu desperdiçar. No lugar, escolheu desferir ataques ofensivos a Daniel Vilela. E isso se volta contra ele.
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No Youtube, em seu pico, o debate da Band oscilou entre 2.300 e 2.800 visualizações. Nos canais da emissora, cujo público é baixo em Goiás, não se sabe quais os números da audiência. Acrescente-se o péssimo desempenho do mediador, Joel Datena, no papel de estrelinha, com gafes seguidas (interrompeu a pergunta de uma jornalista aos candidatos para indagar se ela tinha almoçado com o pai, em referência ao Dia dos Pais, ao que ela respondeu: “Meu pai faleceu há 2 anos”, deixando o apresentador desconcertado) e uma obsessão em se exibir como superior. Foi desastroso. Cada vez mais, engessados por regras intrincadas, limites estreitos de tempo para as respostas e a tradicional fadiga de material dos políticos brasileiros, debates mergulham na insignificância como instrumento de influenciação do voto. E o pior são os veículos sem importância que insistem em promovê-los. Tudo indica que, afinal, o governador Daniel Vilela fez bom negócio ao não comparecer.