Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

08 mar

Tese de “defesa do legado” que Marconi deixou para o Estado é insustentável, enfraquece a oposição que o PSDB precisa fazer e continua exigindo gratidão do povo pelo que o Tempo Novo fez

Sob fogo cerrado, tanto na política quanto na esfera judicial, o ex-governador Marconi Perillo sofre uma demolição diária, praticamente sem ninguém ao seu lado para minimamente falar bem da sua pessoa ou dos seus governos, com um detalhe: as raríssimas exceções que se arriscam a oferecer algum amparo para o tucano-mor de Goiás o fazem de modo equivocado, insistindo no discurso de passado que está na raiz da colossal surra eleitoral que ele e seus aliados tomaram na eleição de 7 de outubro último.

 

Em 20 anos de poder, Marconi se acostumou a ser tratado como um semideus. Preferia a companhia dos bajuladores e afastava cuidadosamente as opiniões críticas. Como uso do cachimbo entorta a boca, ele continua assim. Sob a saraivada de balaços que recebe incessantemente, segue dando ouvidos aos áulicos pretéritos que insistem em incensá-lo e impedir que siga o caminho virtuoso da reafirmação da sua liderança, obviamente sob novos parâmetros – ele precisa entender que agora é oposição e que os anos de poder transformaram-se em lembrança às vezes não muito agradável.

 

O que é que Marconi gosta de escutar? Que ele foi um grande governador, grande mesmo, que deixou um “legado” para os goianos, consubstanciado nas obras e programas dos últimos 20 anos. Isso o consola e é o que diz o que restou do seu famoso dispositivo de comunicação, hoje resumido a blogs desesperados e engajados na “defesa do legado” do Tempo Novo – uma patetice que só faz prolongar o discurso fracassado que o PSDB e associados desfiaram para construir uma das maiores derrotas eleitorais de todos os tempos em Goiás, quando, na campanha, exigiam o voto de gratidão do eleitor goiano, supostamente beneficiado pelas Bolsas Universitárias, Cheques Moradias, Vapts Vupts e Rendas Cidadãs da vida.

 

Engano fatal. Ninguém vota olhando pelo retrovisor. Marconi não percebeu que ele mesmo, em 1998, havia derrotado o maior líder político do Estado, na época, responsável por enormes realizações a favor da população e do desenvolvimento de Goiás, deixado de lado em troca de um rapaz de 34 anos que nunca havia exercido cargo executivo algum. A insistência no argumento de que há um “legado” a defender é apenas o lamento estéril das viúvas do ex-governador que perderam o rumo com o fiasco nas urnas, porque, na verdade, não há “legado” algum quando o que se fez o foi em razão de Marconi ter sido brindado pelos goianos com quatro mandatos de governador, todos remunerados, mediante os quais deveria mostrar trabalho e compromisso com o futuro do Estado. E atenção: esse cheque nunca foi em branco. Malfeitorias não estavam incluídas.

 

Presos à “defesa do legado” (que não existe), o PSDB e os parcos simpatizantes que ainda restam ao lado de Marconi acabam abrindo mão do essencial, que é fazer oposição inteligente e congruente ao governador Ronaldo caiado.