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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

18 mar

Insistência de Caiado em forçar um socorro financeiro a Goiás esbarra no desinteresse do governo federal: ajudar Estados em supostas dificuldades não é prioridade da agenda nacional

Há uma sensação no ar, em Goiás e em Brasília: começa a cansar a insistência do governador Ronaldo Caiado em forçar algum tipo de socorro financeiro ao Estado, em um momento em que a agenda nacional tem outras prioridades – e, aliás, da maior relevância: a reforma da previdência, o pacote anticrime do ministro Sérgio Moro, a emenda de desvinculação orçamentária do ministro da Economia Paulo Guedes e até mesmo a pauta conservadora do presidente Jair Bolsonaro na área de costumes.

 

Esses temas congestionam o tráfego dentro do Congresso Nacional e monopolizam as atenções dos ministros, especialmente os da área econômica, entre os quais, provavelmente, deve causar má impressão ver um dos governadores mais reconhecidos do país falando dia e noite em calamidade financeira e hipotéticos pacotes de apoio pecuniário aos Estados. Vejam bem, leitora e leitor: Estados, no plural, e não Estado, no singular. Isso porque o governo federal tem as mãos atadas quando se trata de dar ajuda a um único Estado. Não é assim que funciona. Ou vale para todos ou não sai nada para ninguém. E aí as coisas se complicam. A tradição dos Estados brasileiros é de lambança fiscal e poucos escapam a esse fadário. Goiás não é um deles.

 

Caiado é o único dos governadores brasileiros com discurso cotidiano de Estado quebrado e rombo de caixa. Há Estados em situação muito, mas muito pior, como Rio Grande do Sul e Minas Gerais, que devem ter acesso, logo, logo, ao Regime de Recuperação Fiscal e ao amparo do governo federal. Deles para Goiás, vai uma distância imensa. E, de resto, há governadores que apoiaram Bolsonaro quando ele ainda era uma aposta incerta, ao contrário de Caiado, que só entrou na campanha do capitão no 2º turno e mesmo assim depois que as primeiras pesquisas trouxeram o seu nome 20 pontos à frente de Fernando Haddad, do PT. Digamos assim: politicamente falando, Bolsonaro não tem nenhum motivo para privilegiar Caiado, que aliás tem se esforçado para mostrar fidelidade, como a pressão que tem feito, inutilmente, para que o DEM nacional declare apoio incondicional ao presidente. E ainda há um ponto sensível a prejudicar as relações com Brasília: o governador goiano estimula a circulação do seu nome como alternativa para a sucessão presidencial de 2022, quando, quem sabe, se vier mesmo a ser candidato, estaria enfrentando o próprio Bolsonaro.

 

Ao contrário do esperado, vencer a eleição e assumir o governo goiano não engrandeceu Caiado como esperado. Ele ainda continua como um parlamentar muito maior do que o gestor executivo em que se transformou.