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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

03 fev

Apesar de ter bons articuladores políticos potenciais (Roller, Tejota, Samuel Belchior e Marcos Cabral, por exemplo), Caiado não credenciou nenhum e quis eleger sozinho o novo presidente da Assembleia

É surpreendente e quase inacreditável que um veterano em mandatos parlamentares como o governador Ronaldo Caiado – mais de 30 anos como deputado federal e senador – tenha sido forçado a engolir uma derrota acachapante na eleição para presidente da Assembleia, colhido de surpresa pelas manobras contra o seu candidato Álvaro Guimarães e imobilizado durante a reta final do processou que consagrou Lissauer Vieira no cargo.

 

Caiado, ao alcance da mão, dispõe de articuladores experientes, alguns oriundos da própria Assembleia, com mais de um mandato e aparentemente capacitados a negociar com os deputados. Ernesto Roller, secretário de Governo, por exemplo. O vice-governador Lincoln Tejota. O ex-deputado Samuel Belchior, que não tem cargo, mas desde a campanha cumpre missões políticas para o novo governador. Ou o ex-prefeito Marcos Cabral, atual secretário de Desenvolvimento Social, mas habilidoso e conciliador no trato com a classe política.

 

Estranhamente, Caiado não recorreu a nenhum deles, que até atuaram na sucessão do Legislativo, mas erraticamente, com as mãos vazias, sem nada para apresentar de concreto aos parlamentares estaduais – a maioria ressentida com o distanciamento imposto pelo Executivo e também porque nunca foram chamados ou ouvidos para nada, quanto menos para discutir a ocupação de espaços na administração (aspiração básica de qualquer deputado em qualquer parte do mundo). Roller, Tejota, Belchior e Cabral não tinham em mãos qualquer credencial para falar em nome do governo, função que foi assumida – em um erro sem tamanho – pelo próprio Caiado com um rosário de equívocos (veja, leitora e leitor, em contraponto, a vitória que o presidente Jair Bolsonaro, sem se envolver diretamente, teve no Senado Federal com a eleição de Davi Alcolumbre para a presidência articulada pelo seu secretário da Casa Civil Onyx Lorenzoni).

 

Com a relação entre o Palácio das Esmeraldas e a Assembleia esgarçada no pós-eleição pela euforia dos vitoriosos e a depressão dos vencidos, Caiado será obrigado agora a tentar do zero o estabelecimento de uma relação com os deputados que dê um mínimo de governabilidade para a sua gestão. Articuladores para isso, ele tem. Resta saber se vai se lembrar do que aprendeu nos seus anos de Congresso Nacional ou se esqueceu de tudo.