Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

25 mar

Caiado tem muitas similaridades com Bolsonaro: ausência de base parlamentar, influência da família, predomínio da comunicação via redes sociais, distância da classe política e deserto de propostas

O governador Ronaldo Caiado e o presidente Jair Bolsonaro são produtos da mesma eleição em que tanto os goianos quanto os brasileiros escolheram uma mudança radical em relação ao que existia, votaram contra a corrupção e manifestaram o desejo de ver os recursos públicos melhor aplicados ou gerenciados.

 

Mas as similaridades entre os dois não estão só nas origens comuns. Com três meses de governo, ambos exibem, por exemplo, o mesmo desinteresse em construir uma base parlamentar sólida, Caiado na Assembleia Legislativa e Bolsonaro no Congresso Nacional. Nenhum deles conversa ou recebe parlamentares. Não articulam qualquer base legislativa para garantir a governabilidade. Em sentido contrário, é evidente a influência que as respectivas famílias exercem sobre eles. Bolsonaro é moldado pelos três filhos. Caiado, pela mulher Gracinha, pela primeira filha Anna Vitória e pelo genro Alexandre Hsiung. No caso do presidente, a intromissão familiar é ostensiva. Quanto a Caiado, mais discreta, mas nem por isso menos significativa.

 

Não é só. A predileção pelas redes sociais é uma característica tanto de um como de outro. Caiado e Bolsonaro acreditam em comunicação direta com o eleitorado, têm centenas de milhares de seguidores e postam o dia todo. Nada contra: essa é a realidade do mundo moderno. O ponto a considerar é que a supremacia desse canal, as mídias sociais, esvazia perigosamente a interlocução que precisa ser feita com a sociedade pelo seu sentido convencional. Nem Caiado nem Bolsonaro são de conversar muito com as instituições, políticas ou não: o que precisam dizer, dizem através do Instagram ou do Twitter. Isso abre um vácuo…

 

…que, na prática, resulta em um formidável isolamento em relação à classe política. Bolsonaro encheu o seu governo de militares. Caiado lotou o seu secretariado com gente de fora de Goiás. O recado é claro: os políticos, nacionais e estaduais, nada têm a contribuir com a administração. Ou até atrapalham. Que fiquem para lá e eles dois, para cá. Mas, ao virar a página da política, restaria para a dupla, cada um em seu quadrado, mostrar serviço fazendo governos que ocupariam os espaços com ideias e propostas consistentes para o país e o Estado. Não é o que está acontecendo. O que Bolsonaro pretende para o Brasil além da reforma da previdência? E quais são os projetos de Caiado, excluído o discurso diário de calamidade pública e de necessidade de reequilibrar financeiramente o Estado?

 

São muito parecidos. O que pode levar ao prognóstico que igualmente poderão se dar mal.