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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

06 jul

Caiado completa 6 meses de governo e 10 meses desde foi eleito (6): isolamento é característica forte, decorrente da preferência pelo círculo familiar, resultando em quase ninguém para defender a gestão

Poucas vezes na história Goiás teve um governador tão isolado social e politicamente quanto Ronaldo Caiado. Ele se assemelha, e muito, aos interventores da época do regime militar, que caiam de paraquedas sobre a realidade do Estado e montavam governos sem raízes locais, exatamente como Caiado fez ao importar uma verdadeira legião estrangeira para ocupar as suas secretarias, sem compromisso com quem quer que seja em Goiás.

 

Essa característica – o isolamento social e político – é uma das características da gestão de um governador que foi eleito por uma maioria histórica de votos, mas desperdiçou esse capital ao se fechar no seu círculo familiar e se distanciar de uma interlocução mais profunda seja com deputados, com representantes de movimentos sociais, com lideranças empresariais ou qualquer um que vá além das fotos e vídeos alegres que são postados nas redes sociais do governador e da primeira dama, sempre se esforçando para mostrar popularidade com pessoas simples e humildes. Isso se agrava diante da lembrança dos 20 anos de Marconi Perillo, que foi um governante simpático, carinhoso e que gostava da aproximação com todos, distribuindo afagos e mesmo adulando às vezes até adversários políticos.

 

Um desdobramento dessa situação é que o governo Caiado tem pouca defesa. No plano político, falam a seu favor os piores deputados, em termos de preparo, que a Assembleia tem. Entre os parlamentares federais, nenhum se pronuncia. Nas chamadas classes produtoras, ninguém. Sindicatos, universidades, intelectualidade, menos ainda. A constatação que se faz é que, hoje, a mais contundente defesa do governador é feita pela sua própria esposa, dona Gracinha. Nem mesmo seus auxiliares se esforçam nesse sentido. É comum que alguns deles concedam entrevistas longas à imprensa sem tocar no nome de Caiado.

 

Em termos de comunicação, o governo é um desastre, limitando-se ao ufanismo das redes sociais do governador e da sua primeira dama. O único jornalista que escreve exibindo identidade com Caiado é o conhecido Nílson Gomes, com a sua mensagem prejudicada pelo gosto pelos trocadilhos e pela violência verbal, abrindo mão do que todo sistema de poder precisa para superar a sua veia impositiva: a apresentação de argumentos baseados na racionalidade e na lógica. Sim, governo se impõe pelas explicações que dá e não pela destruição dos antagonistas. É preciso teorizar, argumentar e demonstrar. É assim que funciona em regimes democráticos.

 

Caiado é um político que se fez sozinho e sozinho chegou ao governo de Goiás, com o recall do seu nome. Nada mais. Ninguém que o apoiou na campanha teve qualquer influência na sua vitória. Ele sabe disso e já o repetiu em conversas privadas. Não deve nada a qualquer um. Mas, vejam bem, leitora e leitor, só até ser eleito. Daí para a frente, a conversa muda. Um governo tem que cimentar a sua existência no passado, no presente e no futuro. A autoridade do governante não pode ser exercida de cima para baixo, mas por consenso com os governados. Conclui-se que um chefe de Estado tem de ser o mais humilde dos cidadãos. Caso contrário… Caiado vai aprender a lição pelo caminho das duras penas.