Lula não veio a Goiás por medo do que iria ouvir de Caiado “na tampa da cara”
Sexta-feira, 17 de outubro: o presidente Lula tinha na agenda uma visita a Goiás, para participar da inauguração final da Estação de Tratamento de Esgoto, a ETE, uma obra iniciada em 2013, em um dos governos de Marconi Perillo, porém só agora concluída na sua totalidade. Na última hora, no entanto, Lula cancelou. Primeiro, pela sua histórica indisposição com as goianas e os goianos, vistos pela esquerda nacional como um povo conservador que, a cada eleição presidencial, impõe derrotas significativas para o petismo. Em 2022, por exemplo, Jair Bolsonaro venceu estadualmente na base de 3 x 1, tanto no 1º quanto no 2º turnos. Segundo, provavelmente por tomar conhecimento de uma entrevista do governador Ronaldo Caiado, em que ele avisou que teria considerações sérias a fazer a respeito do apoio federal a Goiás e queria externá-las, “como se diz no interior, na tampa da cara”.
O presidente amarelou. Acostumado a só comparecer a eventos lotados por companheiras e companheiros, Lula não quis se arriscar. De resto, trata-se de uma obra bancada praticamente por recursos do governo goiano, coisa que Caiado fez questão de ressaltar ao discursar durante a solenidade – que contou com um representante de Brasília, o ministro das Cidades Jáder Filho (do MDB). O governador, ultimamente, tem sido duro com o PT, a quem acusa de tramar junto ao Supremo Tribunal Federal amigo para bloquear investimentos como a reforma e abertura de rodovias em Goiás com os recursos da taxa do agro. É verdade.

“Queria que o Lula estivesse aqui, porque não sou homem de mandar recado. Queria falar isso diretamente para ele”, pontuou Caiado na sua fala. O “isso” a que ele se refere estava estampado em um painel exibido pelo governador, com a discriminação das verbas aplicadas na TE, das quais o governo federal prometeu colaborar com R$ 80 milhões, mas não mandou nem a metade. Imaginem, leitoras e leitores, Lula ouvindo Caiado, com o seu vozeirão tonitruante, “na tampa da cara”. Seria, sim, um momento de humilhação para um presidente acostumado a pregar para plateias amestradas, sem contestação e por isso viciado em aplausos, mesmo artificiais.
Lula passa temporadas sem aparecer em Goiás. Em tempos pretéritos, quando não estava no poder, chegou a vir com mais frequência, fascinado com os prazeres hedonistas com que era agraciado – em conversa com o autor deste blog, o dono da Makro Filmes Euclides Néri contou que o petista aparecia eventualmente no final de noites para gravar vídeos para promover candidatos do partido em Goiás, sempre faminto por álcool, cigarrilhas e companhias femininas. Euclides Néri morreu em 2022 e suas informações, portanto, não podem ser checadas. Este jornalista, no entanto, ouviu e registrou. Mas quem conhece e tem informações sobre o caráter e a vida de Lula dificilmente duvidará.
Que o presidente tem ojeriza por Goiás, não é novidade. Seu histórico é de ausência absoluta, frente a ocasiões muito esporádicas em que pisa na terra do pequi. Ele até promoveu uma legislação destinada a proteger os frutos do cerrado, ressaltando, porém, que é “para quem gosta de comer pequi”, o que obviamente, pela construção da frase, não o inclui. Para quem tem a visão apequenada de um mundo polarizado ideologicamente, como Lula, a meca da direita nacional e do bolsonarismo (segundo a Genial/Quaest, o Estado mais avançado nesse quesito é Goiás) só o merece desprezo e desconsideração, em vez da atenção de um governante que tivesse altura de estadista. É contra tudo isso que Caiado protesta e está pronto a verbalizar caso tenha a oportunidade e, face a face com Lula, dizer “na tampa da cara”.