Falta de interlocução e “culto à personalidade” do pai inviabilizam projeto eleitoral da filha de Iris
A grande novidade do momento político em Goiás é o anúncio feito pela filha de Iris Rezende, a advogada Ana Paula Rezende Machado Craveiro, sobre a sua intenção de se candidatar ao Senado, no ano que vem, em dobradinha com a primeira-dama Gracinha Caiado na chapa da base governista a ser liderada pelo vice-governador Daniel Vilela como postulante ao governo do Estado. Desde que o pai morreu, Ana Paula foi muito assediada para disputar eleições, como a de prefeito de Goiânia em 2024, mas até agora vinha mantendo distância. De repente, deu um cavalo de pau.

DNA para a política ela tem, tanto de Iris quanto da mãe d. Iris. Obviamente, sobrando. Ela percebeu uma oportunidade de ouro, qual seja o chamado “efeito garupa”, que vai beneficiar nas urnas quem ocupar a 2ª vaga senatorial ao lado de Gracinha – uma vaga que atrai a cobiça de todos os demais interessados no Senado em 2026 (menos os da esquerda) pelo potencial de votos que automaticamente atrai. O problema é que Ana Paula acrescenta pouco, ao contrário, por exemplo, de um nome poderoso como o do deputado federal Gustavo Gayer, que traria junto o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro e praticamente liquidaria a fatura ou, falando sem rodeios, garantiria a vitória de Daniel Vilela para o Palácio das Esmeraldas.
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Há mais problemas do que soluções na figura da filha de Iris. Primeiro, ela não tem nenhuma interlocução com a classe política, muito menos com as bases municipais. Exageradamente formal, Ana Paula não se compromete com nada e costuma conversar de cima para baixo, como se portadora de um desígnio divino, na condição de herdeira de um dos mais destacados homens públicos do Estado, pelo menos o de carreira mais longeva. É aí que as coisas se enroscam: em nome desse legado, Ana Paula resolveu estabelecer-se em um prédio público para erigir um memorial dedicado a homenagear o pai, através de um instituto implantado e programado para ser mantido com recursos do contribuinte – algo polêmico e que mais cedo ou mais tarde vai ser questionado e fatalmente desmoronar sob uma controvérsia negativa para quem se queria ver glorificado.
É a tal Casa de Vidro, construída na avenida Jamel Cecílio, próxima ao Flamboyant, inicialmente com o dinheiro de emendas ao orçamento da União encaminhadas pela então deputada Iris de Araújo e posteriormente com apelo aos cofres da prefeitura de Goiânia, para conclusão. Jurisdição, portanto, do Ministério Público Federal. Pelo projeto, aliás orientado pessoalmente por d. Iris, o prédio foi batizado de Centro Cultural Casa de Vidro Antônio Poteiro, com dependências fazendo referência a vultos da cultura goiana como Bernardo Élis e Colemar Natal e Silva. De repente, a Casa de Vidro foi “confiscada” por Ana Paula, com autorizações da Câmara Municipal e da Assembleia Legislativa, transformando-se em protótipo para um memorial de Iris Rezende – e as chaves do prédio – vale lembrar: propriedade pública – foram entregues a ela.
Complicado, leitoras e leitores. O autor deste blog aposta que o maior cacique do emedebismo estadual de todos os tempos jamais concordaria com esse “desvio”. Apenas para que se tenha uma ideia: Iris, cassado pela ditadura nos anos 60, adquiriu depois da redemocratização o direito a uma indenização e a uma pensão vitalícia. Não quis, no entanto. Achava que não pegaria bem. Esse mesmo Iris aceitaria ser reverenciado em uma espécie de “culto à personalidade” em um imóvel público e custeado com verbas do erário? Dificilmente. E aí que as coisas pesam para Ana Paula, ultimamente em um périplo atrás de emendas orçamentárias e dotações de partidos (no caso, do MDB) para colocar de pé um “museu” que deveria ser custeado pela família. Isso não tem cheiro bom.
Não vai ser fácil para Ana Paula a construção de uma candidatura, ainda mais ao Senado, pior ainda visando abiscoitar a valiosa e ambicionada 2ª vaga da chapa governista, junto com Gracinha Caiado. Falta relacionamento político efetivo, diálogo franco com lideranças (a interlocução mencionada no título desta nota), alguma humildade e, de resto, a ausência de um projeto ou de ideias além da simples continuidade familiar. E pensar melhor sobre o memorial instalado em uma edificação da prefeitura de Goiânia, a ser custeado com funcionários e despesas por conta das três esferas de governo – federal, estadual e municipal, trocando tudo isso por uma fórmula à base do imenso patrimônio deixado por Iris e por doações. Aí, sim.