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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

15 out

Apostar no apoio do agro é mais um equívoco de Marconi

O ex-governador Marconi Perillo (PSDB) diz que é candidato a governador no ano que vem. Provavelmente não será, já que o seu partido é uma pálida sombra do que foi antes em Goiás e no Brasil, não há à vista outras siglas para alianças ou mesmo lideranças de peso para montar um palanque e, de resto, nem sequer propostas existem, a não ser o velho e encarquilhado discurso de volta ao passado. Mas Marconi, mesmo assim, declara-se disposto a correr atrás do Palácio das Esmeraldas em 2026. Como estratégia para ocupar algum espaço na mídia, isso talvez venha a render algum efeito, gerando doses, mesmo pequenas, de visibilidade. Lá na frente, basta arrumar uma desculpa e se lançar para o que o ex-governador pode contar como certo: uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Enquanto nada acontece, Marconi se desdobra em afagos ao chamado agro. Afinal, Goiás é a meca dos produtores rurais: agricultura, pecuária e uma indústria razoável de transformação de alimentos. Isso aí é o tal agro. Segundo o tucano, um setor que ele vai privilegiar, caso volte a governar, inclusive com o compromisso de revogar a “taxa do agro” no 1º dia do hipotético mandato. A taxa do agro, leitoras e leitores, é aquela que foi instituída pelo governador Ronaldo Caiado no início de 2023 e já arrecadou uma pequena fortuna, perto de R$ 3 bilhões, dinheiro reservado exclusivamente para obras rodoviárias em regiões que escoam grãos e proteínas. A mineração também paga. Na época em que foi criada, houve contestação em todos os níveis judiciários, chegando até ao Supremo Tribunal Federal. Todas as decisões confirmaram a legalidade da taxa.

 

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De lá para cá, os produtores e mineradores, que a princípio fizeram um barulhão contra, arrefeceram. A onda de reclamações se esvaiu. Hoje, um conselho com a presença de gente do campo criado para determinar a destinação dos milionários recursos da taxa do agro orienta a aplicação das verbas, uma questão, a propósito, que engasgou momentaneamente por causa de uma manobra do PT junto ao STF amigo. Dentro do seu estilo proativo, Caiado acha que destrava as coisas a curto prazo e é bem possível. Marconi, de seu lado, aproveita para fazer o seu proselitismo, como dito, prometendo, como bandeira de campanha, extinguir o tributo.

Bem, políticos têm o direito de falar o quanto querem e sobre os temas que escolherem. E eles soltam o verbo geralmente interessados em retorno eleitoral. Nesse ponto, um lembrete para o ex-governador: o agro não tem votos. Em 2022, o segmento abandonou a reeleição de Caiado e jogou tudo na candidatura do então Major Vitor Hugo (PL), que terminou a eleição com um quarto da votação recebida pelo governador. Além disso, elegeu 2 deputados federais (Daniel Agrobom, pelo PL, e Marussa Boldrin, pelo MDB, ambos do sudoeste goiano). Deputado estadual, nenhum. E Vitor Hugo, na verdade, atraiu os seus 500 mil sufrágios muito mais pela identificação com o ex-presidente Jair Bolsonaro do que propriamente pelo apoio que recebeu das lideranças ruralistas pelo interior afora. Conclusão: o agro, em Goiás, é inexpressivo em termos de resultados nas urnas.

 

 

Sustentar uma candidatura a governador sobre um pilar político fantasioso, como a ilusória força eleitoral do agro, é apenas mais um erro de Marconi. A revogação da taxa, que ele anuncia, nem é assunto da categoria, que, sob o comando do presidente da FAEG José Mário Schreinner, já avançou para outra prioridade: o plano de investimento em obras rodoviárias nas regiões produtoras, a serem iniciadas quanto mais rápido, melhor. O ex-governador, portanto, prega para uma plateia vazia. O agro, tão poderoso na economia a ponto de, em determinados momentos da história, tracionar o PIB estadual para cima, não tem vigor para arranjar votos para os seus preferidos – e entre eles Marconi não estará jamais, por um motivo muito simples: o agro goiano é bolsonarista raiz e vai trabalhar em 2026 por quem o ex-presidente Jair Bolsonaro abençoar. E um tucano jamais ganhará essa unção.