Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

07 ago

Eleitor vota no futuro: alegação de Marconi de que é “experiente” remete ao passado e já derrotou Iris

 

O ex-governador Marconi Perillo não aprendeu nada com a sua carreira política (2 mandatos de deputado, 4 de governador e um de senador) ou, se aprendeu, já se esqueceu. Essa é a única explicação para a tese central que ele resolveu adotar para a sua campanha com vistas ao governo do Estado: é o candidato que tem mais experiência, que fez muito e por isso está bem-preparado para fazer mais(veja acima print da propaganda de Marconi nas redes sociais). Seu marqueteiro, um certo Lula Guimarães, foi além: definiu a disputa em Goiás como um confronto entre o “certo”, no caso Marconi com o seu feedback de 16 anos no Palácio das Esmeraldas, e o “duvidoso”, esse o termo usado para atacar o governador Daniel Vilela, sob a justificativa de que não teria vivência administrativa.

Em 1998, Iris Rezende foi aniquilado por um imberbe Marconi Perillo, cujo patrimônio biográfico não passava de 2 mandatos, um de deputado estadual e outro de federal. Iris era uma figuraça de proporções colossais. Um revolucionário mandato como prefeito de Goiânia, 2 de governador e um de senador, fora ministro de 2 pastas – Agricultura, nomeado pelo presidente José Sarney, e Justiça, indicado por Fernando Henrique Cardoso (a propósito, do PSDB, mesmo partido de Marconi). Era tido como um semeador de bairros e largas avenidas na capital e amplamente reconhecido como construtor da infraestrutura estadual, distribuindo rodovias, energia, casas aos milhares e obras, enfim, por todos os 246 municípios. Possuía, naquele momento, uma experiência rara no setor público, a mesma que integralmente faltava ao seu adversário.

A campanha irista lembrava diariamente que Marconi jamais havia gerenciado sequer um carrinho de pipoca. Cuidar de um Estado, portanto, estaria muito acima das suas escassas possibilidades. Não adiantou nada. Nas urnas, o “moço da camisa azul” e a sua mensagem de “tempo novo” sobrepujaram o cacique emedebista, surpreendendo o Brasil. As goianas e os goianos optaram por entregar o governo a um jovem “inexperiente”, em detrimento de um gestor consagrado. E não se arrependeram, tanto que elegeram Marconi mais 3 vezes, das quais 2 novamente contra Iris Rezende.

 

LEIA TAMBÉM

Sem memória: argumento de Marconi contra Daniel repete erro de Iris Rezende em 1998

Genial/Quaest confirma cientificamente: pano de fundo da eleição é a continuidade de Caiado

Ana Paula erra na agressividade: legado de Iris não está em discussão nesta eleição

 

Por tudo o que vem dizendo, Marconi resolveu copiar na totalidade o ineficaz argumento de Iris. Pior, com o agravante de que está enfrentando um adversário, Daniel Vilela, que de fato não esteve ainda em cargo executivo, mas compartilhou as decisões do 2º mandato do governador Ronaldo Caiado, assumiu o comando há 4 meses e já conquistou uma avaliação de 64% nas pesquisas. Só esse último item basta para evidenciar que a aposta na “inexperiência” de Daniel é um caminho para o abismo, da mesma forma que, em 1998, a “inexperiência” de Marconi o foi para Iris Rezende. Dois terços da população enxergam o atual governador como “experiente”, podemos resumir, realizador, enfim. Engraçado em tudo isso é que Wilder Morais resolveu imitar Marconi e igualmente passou a apregoar uma suposta formação empresarial como qualificação para ser governador. Nem em um caso (Marconi) nem em outro (Wilder) isso tem sentido para a percepção popular. Como se sabe, Lula e Jair Bolsonaro viraram presidentes sem tocar um carrinho de pipoca.

Por que o discurso de “gestor experiente” não funciona na captação de votos? Reposta básica: voto sempre mira o futuro e muito pouco o passado. Churchill levou a Inglaterra à vitória na 2ª Guerra Mundial, porém perdeu a eleição que seguiu ao fim do conflito. Seus antagonistas se comprometeram com reformas sociais, aumento do emprego, o fim do racionamento, casas populares e a criação de um sistema acessível de saúde, coisas ligadas ao dia a dia dos ingleses. Venceram. É esse o autoengano de Marconi Perillo, assim como foi o de Iris Rezende em 1998. “Iris fez, Iris vai fazer muito mais” proclamava na época o slogan que agora virou uma espécie de “Marconi fez, Marconi vai fazer muito mais”. É um investimento com retorno ruim garantido: a derrota, mais ainda diante das pesquisas que sucedem apontando a avaliação elevada para Daniel Vilela como gestor. “Duvidoso”, portanto, ele não é.