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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

01 fev

Aos poucos, Bolsonaro vai passando o trator sobre o desgastado Wilder

Nada mais que um milionário diletante se aventurando na política, atrás de um tipo de prestígio que os negócios nunca atraem, o senador Wilder Morais acaba de tomar mais um golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro – que ele supunha ser aliado incondicional e a quem deve a sua eleição em 2022 para a mais alta Câmara Legislativa do país, onde tem uma atuação apagada e, conforme um levantamento recente do portal Congresso em Foco, vota a favor do governo Lula em um a cada dois projetos. Provavelmente, diga-se de passagem, desagradando o Jair, como se verá a seguir.

Primeiro, dias atrás, o ex-presidente comunicou pela imprensa que o candidato ao Senado pelo PL de Goiás, em 2026, será quem dele decidir. Foi um recado direto para Wilder, citado em meio ao aviso de que “não vai ser o nome que o Wilder quiser, a palavra final vai partir de mim. Não é ditadura da minha parte. Hoje temos no PL 15% de trairinhas, que votam com o PT em troca de carguinho”, detalhou. Wilder ouviu e ficou caladinho. A carapuça pode ter servido para ele. Enquanto isso, todo mundo sabe que seu preferido pelo disputar o Senado pelo PL goiano é o do deputado federal Gustavo Gayer, enquanto, da mesma forma, é público e notório que Bolsonaro prioriza o seu amigão do peito Vitor Hugo, hoje vereador em Goiânia.

 

Não ficou por aí. Nem uma semana se passou e uma segunda paulada foi metaforicamente desferida contra a cabeça de Wilder. Bolsonaro voltou a falar de Goiás, agora para dizer que só não abre de um candidato do PL ao Senado. Para concorrer ao governo, ele está aberto a novos cenários, inclusive aceitando literalmente a possibilidade de uma composição com os interesses do governador Ronaldo Caiado e com o MDB, partido que tem nas suas fileiras o delfim de Caiado, ou seja, o vice Daniel Vilela. “Não pode é com o PT. O resto, fique à vontade. Se tiver interesse do Caiado e do Wilder, da minha parte, não tem problema nenhum”. Pronto. Uma verdadeira bomba. E anotem, leitoras e leitores: embora, nessa declaração incendiária, o ex-presidente mencione a hipótese de considerar também o “interesse” de Wilder, isso na verdade tem pouco significado. Ou menos significado que a admissão da aliança entre o PL e a base governista, aliás ardorosamente defendida desde já pelo vereador Vitor Hugo, e menos ainda quanto a fortalecer o desgastado Wilder como polo decisório do PL estadual.

As coisas não estão caminhando bem para o senador-empresário, dá para ver. Está claro que Bolsonaro não tem grande apreço por ele, talvez reflexo do despreparo com que atua no Senado, onde não abre a boca para defender as pautas da direita e nem sequer se pode confiar no seu voto – em 53% das vezes, posicionou-se em plenário a favor do governo Lula, mostrou o Congresso em Foco, enquanto senadores mais confiáveis para Bolsonaro não passam de 20% e mesmo assim em matérias do interesse geral da população. De resto, o PL estadual, sob a direção de Wilder, teve um desempenho pífio nas últimas eleições municipais. O único colégio de expressão em que venceu foi Anápolis, porém com um candidato – Márcio Corrêa – que é recém-egresso do MDB e estreitamente ligado a Daniel Vilela. Fora isso, ainda mergulhou em escândalos como as criminosas manipulações de verbas orçamentárias pelo gabinete de Gayer e a “expulsão” do Professor Alcides por envolvimento ostensivo em um escandaloso caso de pedofilia. Tempo ruim, portanto, para Wilder, que ainda não conseguiu injetar um pingo de viabilidade na sua cada vez mais distante candidatura ao Palácio das Esmeraldas.