Ana Paula Rezende não acrescentou votos para Wilder e provavelmente está tirando
Anunciada como vice-governadora na chapa de Wilder Morais para o Palácio das Esmeraldas, no início do ano, a filha de Iris Rezende, Ana Paula, não acrescentou nada para a campanha do candidato do PL. Ao contrário, provavelmente prejudicou o projeto de Wilder. Ana Paula tem pouco a ver com a política, além do sobrenome. O pouco que sabe, se é que sabe, está condicionado por uma visão pessoal de importância meramente decorrente dos seus laços familiares e pela sua obsessão em transformar a figura do pai no maior mito da história de Goiás.
Tanto que, nos poucos eventos que o PL fez desde a sua filiação, seus discursos giram monotonamente em torno de uma nota só: a glorificação de Iris como o benfeitor do povo, com pinceladas a favor da própria mãe, dona Iris Araújo. Nem um nem outro chegaram jamais a essa condição canônica, que, estadualmente, só contempla, no máximo, Pedro Ludovico, pelo tamanho da obra (a construção de Goiânia, de fato um feito que merece respeito e admiração, em especial pela época atrasada em que aconteceu, com um pioneirismo inigualável em termos de Brasil e talvez com comparação possível apenas mundialmente).
“Nos bastidores do PL goiano, começa a ganhar corpo um incômodo silencioso, mas cada vez mais perceptível, em relação à estratégia adotada por Ana Paula Rezende, pré-candidata a vice-governadora na chapa encabeçada por Wilder Morais. A insistência da filha de Iris Rezende em resgatar, em praticamente todas as agendas públicas da pré-campanha, o legado político do ex-governador e ex-prefeito de Goiânia estaria provocando desconforto entre pré-candidatos proporcionais e lideranças mais identificadas com o bolsonarismo raiz”, escreve o jornalista Cloves Regis Maia.
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Reges Maia explica sua tese com clareza: “A memória do emedebista não dialoga nem com o eleitorado mais radical, nem tampouco com a corrente ideológica do próprio PL. A avaliação predominante é que a história de Iris Rezende guarda muito mais afinidade com o MDB de Daniel Vilela do que com o projeto político representado pelo bolsonarismo. Afinal, Iris permaneceu durante 56 anos nas fileiras emedebistas, sem jamais trocar de legenda, transformando-se em um dos principais símbolos do partido no Estado. Mais do que isso, sua trajetória foi marcada pela resistência ao regime militar. Cassado em 1969, por força do Ato Institucional nº 5, Iris tornou-se vítima direta do autoritarismo instaurado após 1964. O consenso é que há uma evidente incoerência em tentar vincular sua memória a setores políticos que relativizam ou minimizam os excessos da ditadura”.

Bola fora de Wilder Morais, ao trazer para a sua chapa um nome que, afora ser mulher, nenhum reforço ofereceu. Aliás, pode ter até prejudicado. “O discurso de Ana Paula acaba produzindo um efeito contrário ao desejado. Em vez de fortalecer a candidatura de Wilder, acaba por reforçar atributos historicamente associados ao MDB e, por consequência, ao atual grupo governista. Um exemplo está na exaltação das políticas habitacionais implementadas por Iris ao longo dos seus mandatos, inevitavelmente remete o eleitor a programas semelhantes desenvolvidos pela atual gestão de Daniel Vilela, como o programa ‘Casas a Custo Zero’. Nesse contexto, cresce entre bolsonaristas a percepção de que o tema repetido à exaustão por Ana Paula, além de pouco efetivo para mobilizar a base ideológica do PL, pode estar contribuindo mais para enaltecer o legado emedebista do que para impulsionar o projeto eleitoral de Wilder Morais”.
Preciso. Tem todo sentido. De resto, desde que saiu do MDB pela porta dos fundos, Ana Paula Rezende até hoje não conseguiu levar para o PL um reles suplente de vereador de corrutela. Até aqui, foram só palavras – e, registre-se, em tom arrogante, atribuindo a si própria um messianismo que, se existiu nos bons tempos de Iris, com ela não passa de uma vaga nostalgia dada a sua falta de altura para ocupar o espaço do pai – um político de trajetória repleta de altos e baixos que, como se vê, não deixou herdeiros.